Ele veio morar entre nós

Recomendação de livro do CEBI para a Campanha da Fraternidade 2026: https://cebi.org.br/produto/eu-faco-a-cidade-e-nao-moro-nela-reflexoes-biblicas-sobre-moradia/

Marcelo Barros

Nesse início de Quaresma, no Brasil, a Igreja Católica lança a Campanha da Fraternidade para dar concretitude maior à conversão proposta para esse tempo de preparação intensiva para a festa da Páscoa. O tema desse ano é Fraternidade e Moradia, com o lema: Ele veio morar entre nós.

O objetivo da campanha é ajudar-nos a perceber que, para grande parte do povo brasileiro, a moradia é um imenso desafio. Os dados são assustadores: seis milhões de pessoas não têm onde morar.  Além disso, 26 milhões vivem em habitações inadequadas, em situações insalubres e em condições de risco. Além disso, 300 mil pessoas vivem, literalmente, em situação de rua. Esses dados revelam mais do que uma falha do sistema social e político. No Brasil, como em outros países, o problema da moradia faz parte de um projeto de sociedade, que se organiza a partir da desigualdade social e de injustiças estruturais decorrentes da época da escravidão. No final do século XIX, as pessoas escravizadas foram “libertadas” do cativeiro, com a roupa do corpo, sem direito a nada e precisaram abrigar-se embaixo de pontes, nas encostas de morros e em casas de papelão ou de material recolhido na rua.

Desde as últimas décadas do século XX, em quase todas as capitais do país, a vitalidade do comércio e do lazer migrou para shoppings. Na maioria dos casos, o antigo centro da cidade jaz praticamente abandonado. Em muitas cidades, há dezenas de edifícios e prédios desocupados, enquanto uma multidão de famílias empobrecidas dormem pelas praças ainda não engradadas e nas calçadas das ruas.

Em 1948, a Carta dos Direitos Humanos da ONU já reconhece o direito de moradia digna, como universal e básico. A nossa Constituição Federal de 1988, no artigo 6º define que a moradia está entre direitos sociais de todas as pessoas, assim como educação, saúde, alimentação, trabalho, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, e assistência aos desamparados. Apesar disso, de 1990 para cá a exclusão social só tem aumentado, como expressão de uma política cruel que permite que um operário ganhe 1.600 reais, enquanto “os salários chegam a R$ 93 mil na Eletrobras e R$ 145 mil na Petrobras” (Cf. Gazeta do Povo, 23/02/ 2026).

A situação precária de grande parte do povo brasileiro em relação à moradia é injustiça estrutural da sociedade, mas também questiona, diretamente, a fé e as religiões. Em todos os caminhos espirituais da humanidade, a hospitalidade é considerada como dever sagrado. Na tradição indiana, a expressão védica atithi devo bhava — “o hóspede é como um deus” — eleva o ato de acolher a um princípio espiritual, integrado no dharma, a ordem moral do mundo.

Na Bíblia, a tradição hebraica conta que, quando o patriarca Abraão recebeu em sua casa e preparou comida para três viajantes que passavam por sua terra, ele acolheu o próprio Deus (Gn 18). A Bíblia liga à luta pela terra ao direito de moradia e deixa claro que, através do profeta Natam, Deus manda dizer a Davi que não quer templos nem santuários e sim promete estabelecê-lo em uma casa duradora (2 Sm 7). Aí o termo casa significava moradia e também família e descendência. É nesse sentido que os profetas prometem que o Cristo nasceria da “casa” de Davi, ou seja, da sua descendência. No evangelho, Jesus conta a parábola do julgamento final, na qual ele diz claramente: “Cada vez que fizestes isso (receber em casa) a um desses pequeninos em meu nome, foi a mim que fizestes” (Mt, 25, 31).

No mundo inteiro e, especificamente, no Brasil atual, a falta de moradia ou a vida em habitações inóspitas e inseguras é uma forma nova de condenar populações inteiras a uma cruz terrível e ainda mais desumana, porque é cotidiana e permanente. Para celebrarmos essa Páscoa de 2026, de forma profunda e verdadeira, precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para fazer descer da cruz a multidão de pessoas sem teto, sem terra e sem trabalho.

Na realidade do mundo, o cumprimento do dever sagrado de acolher não pode ser mais e apenas receber, momentaneamente, em casa,  alguém que passa, mas comprometer-se para que todas as pessoas tenham casa e possam viver e conviver em ambiente sadio e hospitaleiro.

Essa Campanha da Fraternidade deveria ser ecumênica, porque diz respeito a problemas sofridos por pessoas das mais diversas tradições espirituais. Ela só pode alcançar seus objetivos se não separamos fé e vida, espiritualidade e compromisso social. Para nós, cristãos e cristãs, o apelo divino é celebramos a Páscoa de Jesus como princípio de transformação de nossas vidas pessoais e da realidade do mundo, em todas as suas dimensões.

Como afirmava o mártir latino-americano São Oscar Romero: “Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia, vejo com mais clareza que essa é a opção a seguir. Nisso, não existe neutralidade possível. Ou servimos à vida, ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: ou cremos no Deus que é Vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos carrascos da morte[1].

[1] – Cf. citado por CASALDÁLIGA, Pedro. A Política morreu. Viva a Política. Agência Latino-americana Mundial, 2008, p. 11.

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