Do Deus perverso que ameaça com câncer a denúncia profética no meio do Sambódromo

Quando a gente olha com calma para certas conversas desenvolvidas nos grupos de whatsapp e nas mídias sociais, dá para perceber que o conservadorismo atualmente não é algo solto ou improvisado. Ele é organizado, estratégico, bem pensado. E o mais curioso é que esse discurso tem alcançado pessoas que, num primeiro olhar, a gente não imaginaria ver defendendo essas posições. Há pessoas negras, LGBTI+, gente de tradições religiosas diversas, não cristãs, que acabam aderindo a narrativas alinhadas à extrema-direita e apoiando movimentos cristãos autoproclamados conservadores que durante anos praticam todo tipo de intolerância. Isso não acontece por acaso. Existe uma disputa muito forte de narrativa, de informação e de emoção acontecendo o tempo todo, no Brasil e no mundo.

Assim, podemos ver uma analogia muito clara aí com o discurso da chamada “família tradicional conservadora”. Ela se apresenta como saudável, moralmente correta, guardiã de valores. Mas, muitas vezes, o que sustenta essa estrutura não é amor nem cuidado, e sim conservantes ideológicos tóxicos: autoritarismo dentro de casa, silenciamento das mulheres, naturalização da violência doméstica, controle sobre as sexualidades, rejeição de pessoas LGBTI+, racismo velado ou explícito. Enquanto se diz “tradicional” e “conservadora”, mantém dentro de si elementos que adoecem as relações e produzem sofrimento. Assim como no alimento cheio de aditivos e conservantes, a aparência pode ser estável e duradoura, mas o custo para quem consome, ou para quem vive ali dentro da família tradicional -, pode ser profundamente destrutivo.

Nesse ambiente polarizado, quando alguém denuncia racismo, machismo ou desigualdade, logo aparece quem diga que é exagero, vitimismo ou “mimimi”. Ao mesmo tempo, problemas reais e graves são usados como arma política para atacar adversários. Fica tudo embaralhado: quem critica injustiças é chamado de intolerante; quem aponta divisões é acusado de ser o responsável por dividir. É uma inversão constante. E muitas vezes as pessoas nem percebem que estão reproduzindo argumentos prontos, construídos exatamente para confundir e deslocar o foco.

Diante disso, talvez o caminho não seja apenas bater de frente o tempo todo, nem também se calar. O desafio é outro: qualificar a conversa, investir em letramento político, explicar melhor as coisas, trazer contexto, ajudar a refletir. Nem sempre vai funcionar, porque há quem esteja mais interessado em distorcer do que em dialogar. Mas manter a serenidade, a coerência e o compromisso com a verdade já é, por si só, um posicionamento importante num tempo em que gritar virou regra e pensar virou resistência.

Reforço: tenhamos atenção plena, esse assunto sobre a pseudo intolerância religiosa praticada pela escola de samba Académicos de Niterói se equipara a mamadeira de P e ao Kit Gay de 2018.

Izaías Torquato, reverendo Anglicano
Paróquia Anglicana São Felipe – DAB-IEAB, Goiânia-GO.

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