Marcelo Barros
Nestes primeiros dias do ano, é comum as pessoas desejarem-se, umas às outras, feliz ano novo. Em algumas sociedades antigas, acreditava-se que a palavra tinha uma força mágica, como se bastasse falar para que aquilo acontecesse. Na sociedade atual, na qual a palavra serve tantas vezes à publicidade e à propaganda comercial, não basta desejar feliz ano novo, para que 2026 seja melhor do que o ano que acabou. De fato, basta olharmos a realidade social e política do Brasil e do mundo para dar-nos conta dos imensos desafios e dificuldades a vencer. Também em torno de nós e na nossa própria vida, não basta passar trocar os números do calendário.
A ONU estabeleceu o 1º de janeiro como o dia da fraternidade universal e, desde algumas décadas, as comunidades católicas celebram a vigília do ano novo como oração e vigília pela paz.
Sem dúvida, para a convivência fraterna entre os seres humanos e que, no mundo, se estabeleça a paz que vem da justiça, elemento fundamental é que as pessoas se abram à pluralidade cultural e religiosa e possamos conviver a partir da interculturalidade, como princípio de diálogo e respeito entre todas as pessoas , comunidades e grupos humanos.
Podemos começar por um simples sinal, mas muito revelador do etnocentrismo colonial, no qual ainda vivemos. No mundo inteiro, muita gente vive a virada do ano, como se 1º de janeiro fosse o início do ano para toda a humanidade. A televisão mostra queima de fogos em Pequim, na China, como em Sidney na Austrália e do mesmo modo em Nova York e na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Entretanto, o 1º de janeiro é a referência de ano novo para os povos e grupos que contam os anos, a partir do que se convencionou chamar de “era cristã”. Não podemos esquecer que nossos irmãos e irmãs da China (a segunda mais numerosa população do planeta) só celebrarão o seu ano novo, no próximo 17 de fevereiro e, para eles, será o ano 4.724 e não 2026. Já o ano novo tibetano (o 2.153) ocorrerá no dia seguinte (18/ 02). O ano novo hindu será no dia 19 de março (ano 2.083) e essa data é celebrada pela maioria da Índia, a mais numerosa nação do mundo. Do mesmo modo, as comunidades judaicas celebrarão o Rosh Rashaná (“cabeça do ano) no 11 de setembro e este será o ano 5787. Para as comunidades muçulmanas, o ano novo islâmico (Hijri) celebra o aniversário da hégira, fuga do profeta Muhamad de Meca para Medina (no nosso ano 622). Este ano novo será o 1448 e coincide com o nosso 26 de junho.
Pouca gente sabe que na África, o povo de cultura Iorubá, do qual tanta gente veio como escrava para o Brasil e outros países da América, este povo celebrará o seu ano novo no dia 3 de junho. Será o ano 10069. É o de maior numeração, o que indica ser o mais antigo de todos que se celebram na humanidade. Chama-se Kójodá e marcará o início da colheita do inhame, o plantio das árvores de Obi e de novo ciclo lunar.
Há outros que não anotei, como o ano novo andino (Inti Rami) no 21 de junho. Esses já servem de motivo para dar-nos conta da diversidade de culturas e de como não podemos fazer de conta que os outros não existem.
Neste ano novo, coloquemo-nos em comunhão também com esses grupos e povos que não o celebram. Isso já será um ensaio de um mundo multipolar e cultural e religiosamente pluralista. Só assim poderemos caminhar na direção de um novo mundo, necessário e possível.
Um cacique iroquês afirmava que devemos pensar nas consequências que as decisões que, hoje, tomamos, e as ações que fazemos, terão para nossos filhos e netos, até a oitava geração. Quando vemos acontecer tantas tragédias ecológicas e sociais, percebemos que cada vez mais, aproxima-se o que é nossa última chance de manter a sustentabilidade da vida sobre o planeta Terra.
Então, hoje, nosso desejo de feliz ano tomará concretitude se nos ajudarmos mutuamente no exercício da sensatez, inteligência, humildade, solidariedade, compreensão, amor e é claro, tudo isso na luta pacífica pelas utopias nas quais acreditamos.
Que a inspiração do Amor Divino nos acompanhe nessa estrada.
Desejo-lhes feliz ano novo com as palavras de uma antiga bênção irlandesa:
“Que o caminho seja brando a teus pés
O vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
As chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que, de novo, eu te veja,
Que o Divino Amor te guarde na palma da sua mão”.



