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A vida e a graça [Marcel Domergue]

É chocante o paralelismo entre o mundo de trevas e de morte, e o universo de luz e de vida. A solidariedade com o primeiro Adão não foi abolida. Vai desabrochando e tornando-se vida, em comunhão com Jesus Cristo. Ele é o vencedor da tentação. E ao reino do pecado e da morte sucede o reino da vida e da graça.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 1º Domingo da Quaresma, do Ciclo A (05 de março de 2017). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas

1ª leitura: A criação e o pecado dos nossos primeiros pais (Gênesis 2,7-9;3,1-7)

Salmo: Sl.50(51) – R/ Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós.

2ª leitura: Ali onde o pecado se multiplicou, a graça se fez superabundante (Romanos 5,12-19 ou 12.17-19)

Evangelho : Jesus jejua quarenta dias e é tentado pelo demônio (Mateus 4,1-11)

Uma chave para abrir o Evangelho

Digamos imediatamente que nem a primeira leitura nem a segunda nos devem fazer tomar Adão por um personagem histórico. Paulo diz com clareza ser ele uma «figura» (versículo 14): uma figura antitética, em negativo, daquele que devia vir: Cristo. Adão representa tudo que no homem é a recusa da confiança e finalmente, portanto, do amor. Em resumo, Adão existe em cada um de nós. Mas olhemos pelo lado do Cristo.

No evangelho, Jesus acaba justamente de receber o Espírito, tendo em vista a sua missão. Mesmo assim, o Espírito não o poupa: conduziu-o imediatamente para o deserto. Só que não se trata mais do Éden, como em Gênesis 3, mas do deserto provocado pela recusa do homem (Gênesis 3,18).

Jesus vai então retomar a história desde o seu começo, para, desta vez, ter sucesso no que o homem anterior havia falhado. Também ele, o Cristo, vai ser por sua vez submetido à tentação fundamental: de recusar o Outro, recusando a sua Palavra e buscando valor e verdade somente em si mesmo.

Israel também conheceu esta mesma tentação no deserto, e, sem dúvida, é a experiência do Êxodo que se encontra simbolizada em Gênesis 3. O «relato» das tentações de Jesus é, pois, um texto chave que nos dá o sentido de tudo o que vai ser relatado nos Evangelhos: a recusa até à morte da tomada do poder, a fim de abrir para os homens um caminho de liberdade. Em Cristo, Deus vai fazer-se o último e, finalmente, dar a sua própria vida pela multidão.

O convite a pôr Deus à prova

Lembremos o Salmo 95: «Não fecheis os vossos corações como no deserto, quando vossos pais me provocaram e tentaram (…) Quarenta anos (aqui, quarenta dias) esta geração me desgostou» A desconfiança? «Poderá Deus nos preparar uma mesa no deserto?» Deus respondeu com o Maná, o «pão do céu». Aqui, lemos: «Manda que estas pedras se transformem em pães».

A fome dos Hebreus, a fome de Jesus e a atração do fruto «saboroso ao paladar»; os textos se superpõem. Mas, a cada vez, o que se trata exatamente é de pôr Deus à prova: estará Ele conosco verdadeiramente? Será que Ele, de fato, é amor? Façamos um teste para saber se Deus é bom ou mau… Ora, querer o conhecimento do bem e do mal é pretender julgar a Deus.

No evangelho, tudo se passa como se uma voz interior dissesse para Jesus: Ouviste a voz que te disse: «Tu és o meu Filho amado e tens todo o meu amor.» Então, vamos ver, vamos verificar: «Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães (…) lança-te daqui do alto do templo (…) adore o poder, tornando-se assim senhor de todos os reinos do mundo».

E esta voz interior, de onde vem? O texto fala que do demônio; mas não é o demônio, o semeador da divisão, o adversário, como que uma parte de nós mesmos? Não será o demônio esta resistência que oferecemos à revelação do amor que nos funda? Cristo fez seu tudo (em) que (se) constitui a condição humana, exceto o pecado; sequer fez economia da tentação.

Sob a aparência do bem

Sempre a antiga questão do conhecimento do bem e do mal. O fruto mortal de Gênesis 3 parecia belo de se ver, bom de se comer e «desejável para se alcançar conhecimento». Então, o que haveria de melhor do que transformar as pedras em pães? Assim se poderia dar de comer a todos os famintos do mundo. Colocar nas mãos de um só os povos todos do mundo, não seria este o caminho da paz? É exatamente o que algumas grandes potências parecem pensar.

O tentador utiliza até mesmo as Escrituras: não são «Palavra de Deus»? Cita, portanto, o Salmo 91,11-12. Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio fala da tentação sob a aparência do bem. Creio que toda tentação, ou quase, assim se apresenta: como um bem a se buscar, a se promover, a se favorecer. Defender a fé? Excelente! Mas temos a Inquisição.

Em nome de Deus pode-se fazer o contrário de Deus, que é amor. Então, sob o pretexto de defendê-lo, crucifica-se quem nos disse para colocar a espada na bainha, porque a violência só pode gerar mais violência (Mateus 26,52). Foi por «boas razões» que Jesus foi morto, cf. João 18,14.

Jesus responde às tentações – e é fundamental – por citações da Lei, tiradas todas do Deuteronômio. É no Livro que ele descobre o que deve fazer (Hebreus 10,7). Não veio para cumpri-lo? A respeito do Cristo, a fim de pôr em evidência a sua humanidade, Paulo diz: «nascido de uma mulher, nascido sob a Lei» (Gálatas 4,4)

“Se és Filho de Deus”

No Batismo, prefiguração de sua passagem pela morte, Jesus acaba de ouvir a «voz vinda dos céus» dizer a seu respeito: «Este é o meu Filho amado que tem todo o meu amor.» E, em seguida, irá reviver por quarenta dias a provação atravessada por seu povo durante quarenta anos, número simbólico, representando a totalidade de uma existência. Provação da fome, da impotência diante dos povos encontrados, e de uma caminhada que não terminava mais.

O Filho de Deus – e em seguimento a Ele os filhos todos de Deus que somos nós – será tentado a escolher, em vez da segurança apenas do «pão de cada dia», a acumulação de riquezas, a ocupação dos primeiros lugares, a ilusão do poder e de ser plenipotenciário na família, na cidade e no mundo. Lembremos: pediram a Jesus «um sinal no céu», queriam fazê-lo rei, esperavam que expulsasse os Romanos e restabelecesse a soberania de Israel.

Jesus, no entanto, utilizou o seu poder somente para curar e para alimentar. Pediu a todos os que curou não fazerem publicidade disto. E quando a sua vida foi ameaçada, não pediu que as legiões de anjos viessem em sua defesa. Devemos crer que Jesus foi tentado na verdade pelas mesmas nossas ambições clássicas, e outras mais. E que, da mesma forma, conheceu nossas tristezas, como na morte de Lázaro, por exemplo; as nossas decepções, como diante da incredulidade de seus concidadãos. Mas também a fome, a sede, a fadiga, etc.

Deus fez-se homem e, com exceção do pecado, viveu tudo o que temos de viver, conforme nos diz as Escrituras. E no modo pelo qual viveu a sua humanidade foi que ele se revelou Deus. Resistiu à tentação de ser um “super-homem”. Por isso, certamente, pela decepção que provocou, é que foi crucificado, como um “sub-homem”.

A última tentação

«Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» No outro extremo de sua vida, Jesus ouvirá: “Se és o Filho de Deus, desce agora da Cruz.” Já durante o processo, o sumo sacerdote havia-lhe dito: «Diz, se és o Cristo, o Filho de Deus.» Como vemos, a questão da identidade se põe ao longo de todos os Evangelhos. E se põe hoje, para cada um de nós: quem é este homem? Os discípulos deverão esperar a Ressurreição para que a resposta se imponha.

Durante o processo, Pedro, que em Mateus 16,16 havia dito: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo», responde aos que lhe pedem contas de sua relação com Jesus: «Não conheço este homem». Descer da Cruz e levar a vida de todo mundo será sem dúvida a última tentação de Cristo, e a que resume todas as outras. Mas ele sabe que deve cumprir as Escrituras.

Por isso responde ao tentador, a esta voz interior que lhe diz para evitar o pior, citando as Escrituras. E não é com quaisquer citações: é com o Deuteronômio, com a Lei. Ei-lo, pois, na situação de cada um de nós. Ou não é Ele mesmo o Verbo que sai da boca de Deus para nos dizer, em primeiro lugar, a Lei? Devemos notar que o tentador havia citado, ele mesmo, o Salmo 91.

O que indica, portanto, que podemos fazer um mau uso das Escrituras, desviando-a de seu sentido. Não esqueçamos que é em nome da Lei que Jesus será condenado (João 19,7). Esta Lei vai ser ultrapassada e será substituída por uma nova Lei, a do próprio Cristo, que dá a sua vida por amor. Assim se revelará enfim a verdadeira face de Deus.

Fonte: www.ihu.unisinos.br, 03/03/2017.

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