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Assistencialismo e Profecia: reflexões para uma sociedade mais justa

Assistencialismo e Profecia: reflexões para uma sociedade mais justa
5 de junho de 2018 CEBI Secretaria de Publicações
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por Voz Popular – CEBI Colunistas*

“Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará.”
(Mateus 6:1-4).

A prática da justiça se fez fortemente presente na vida e nos ensinos de Jesus de Nazaré. Aliás, a justiça é o eixo, a base da anunciação das boas novas do reino de Deus aos pobres pois expressa de maneira contundente o amor cristão. As boas novas traz a proclamação da libertação dos que estão aprisionados ao velho sistema religioso que predominava na Palestina para construir neles uma nova consciência por meio de um movimento libertário na luta pela causa dos oprimidos (Lucas: 4.18).

Para Jesus, a pratica da justiça não se reduzia a dar esmolas, apesar de um apoio a essa prática realizada de uma forma oculta aos olhos da sociedade. Ele faz uma forte crítica às práticas do grupo fundamentalista religioso de Fariseus que faziam uma “autopromoção do dar”, às custas do sofrimento e opressão aos pobres.

Ora, a cúpula religiosa de Jerusalém servia aos interesses do governo opressor de Roma. Os altos impostos, a exploração no templo e o desprezo pelos direitos do povo gerava pobreza e exclusão. Os ricos doavam aos pobres as migalhas que sobravam dos acúmulos de suas fortunas, enquanto que os pobres doavam do pouco que tinham motivados por um espírito de partilha. Veja o exemplo da viúva pobre: “Jesus olhou e viu os ricos colocando suas contribuições nas caixas de ofertas. Viu também uma viúva pobre colocar duas pequeninas moedas de cobre. E disse: “Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou mais do que todos os outros. Todos esses deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver”. (Lucas 21:1-4).

A crítica de Jesus a este sistema de opressão em Lucas encontra um forte eco na narrativa de Mateus sobre a prática das esmolas. Jesus denuncia a prática do dar por parte dos Fariseus como uma forma escrupulosa e mesquinha com a finalidade de esconder um forte sistema de opressão aos pobres. Davam migalhas (sobras) para legitimar de forma obscura a opressão, isto de maneira que a sociedade pudesse ver e aplaudir os seus feitos. Esta foi a razão pela qual Jesus disse aos seus discípulos: “Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles.

Jesus aponta para uma nova ordem, um novo modo de fazer justiça. Em vez de dar as sobras com a pretensão de acumular, o homem de Nazaré propõe uma vida comunitária a partir de uma sociedade igualitária, uma mesa de partilha onde convida todos e todas para partilhar o pão. Não o pão do céu a partir de uma ideia espiritualista e reducionista, mas o pão que sacia a fome do pobre, do faminto vítima de opressão. “Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.” (Mateus, 6:11). Esse novo modo de vida que acolhe o outro para partilhar transcende em muito o velho modo de ver a justiça de Deus, que antes colocava os pobres em estado de exclusão, submetendo-os a um assistencialismo perverso com intenção de autopromoção e de ocultar a opressão da classe dominante arraigada no fundamentalismo religioso. Era preferível a estratégia de agradar o povo do que organizá-los para um movimento libertário. Isto Jesus denunciou com voz profética a hipocrisia da classe dominante da religião (Mateus: 23.13; 23.15; 23.27).

Hoje muitas das organizações cristãs institucionais têm se esforçado na prática do dar, o que tem amenizado um pouco do sofrimento de muitos. Mas é preciso acreditar em utopias a partir de olhar profético. É preciso fazer perguntas! Porque há milhões de famintos no mundo em um país rico em alimentos e produção agrícola? Porque há uma minoria abastarda? Porque insistem em dar as sobras? Porque uma minoria mora em mansões de luxo enquanto milhares estão sem teto e sem-terra? Porque confundem assistencialismo com justiça divina?

Ao exemplo de Jesus, os cristãos devem organizar o povo, acreditar na força, na criatividade, na capacidade, no poder que eles têm e profetizar. É ver Deus no rosto do pobre e lutar por uma sociedade igualitária e fraterna.

Texto de Marcos Aurélio para o projeto Voz Popular, que apresenta novos/as colunistas do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos.

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