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Prece [Dara Bandeira]

Prece [Dara Bandeira]
8 de novembro de 2017 Centro de Estudos Bíblicos

Aos meus olhos, nada passa sem novidade, quase nada

Nas minhas discussões com deus — que é diferente de todos os deuses que pintam por aí — travo lutas impiedosas com verbos no imperativo e metáforas com os elementos da natureza. Digo a ele que na solidão da noite, quando o sono não vem, ainda penso, ressentida, que não quero temores nem hesitações. Não quero deixar meus excessos… nem com amor nem com a bebida.

Não quero deixar de perdoar nem de dizer que começaria tudo outra vez, se preciso fosse. Digo ao meu deus que não quero errar a mão, ainda que meu amor seja sem medidas. Eu brigo com meu deus para que haja alguma fé que me faça querer mais. Nunca menos. E de tanto querer, que haja um fôlego novo para não travar lutas das quais eu não possa sair viva. Disposta a agradecer e, de novo, quando se fizer necessário, enfrentar gigantes. Leões. Monstros. Interiores ou não.

Eu vejo a vida seguindo, acompanho os amores brotando numa esquina e outra com juras da eternidade. Olho as paixões todas se multiplicando na mesma proporção e velocidade que se desfazem. Eu observo de perto um bocado de gente vil, no melhor sentido que essa palavra tem. Gente que não tem medo de admitir que não faz a menor ideia do que está fazendo por aqui, mas segue tentando mesmo assim.

Eu vejo gente angustiada, que sacode a cabeça para afastar maus pensamentos.

Eu vejo gente tentando, sabe?

Uns mais outros menos, mas todos tentando. Eu vejo gente que evoluiu de um tempo pra cá. Aos meus olhos, nada passa sem novidade, quase nada. Mas ainda clamo à noite, quando nem eu mesma consigo decifrar meus sinais, para que eu não desista desse exercício que é entender os ciclos todos. Para que eu me esqueça das palavras do dicionário, das fórmulas mágicas e prontas. Para que eu me desarme, me desmonte, largue essa mania tola de querer alcançar algum Nirvana ou enxergar algo invisível e imaterial no amor. Ele é o que é.

Quando vejo meu reflexo no espelho e percebo meus olhos cansados, não é sempre que tenho coragem de pedir ao deus, ao universo nem mesmo às bruxas que sempre pintam por aí, para que da próxima vez seja diferente. É um tanto de certeza de que essa forma de fazer é o que promove algum gozo. Rogo a todos os santos, até quando me pego descrente, para que prevaleça a fé em algum amor que se possa dar e receber.

Que nos ajude a transcender essas bobagens e desafetos.

Como uma espécie de negócio da China, desfruto da solidão se a recompensa for não me perder do amor.

Te diria eu, por devaneio ou excesso de palavras que não cabem no avesso dos meus versos, que a vastidão do mundo me confunde, mas é também redenção. De todas as voltas que o mundo já deu e dos amores que marcaram, o meu maior prazer ainda está em perceber que nas esquinas sempre há algum jeito de começar de novo. Todos os dias.

Eu me lembro das fantasias que nos fizeram acreditar quando começamos (ou tivemos a pretensão de começar) a compreender um pouco melhor o mundo. Achava bonitas as músicas dizendo que iria “morrer de amor, de amor me perder”. Havia alguma beleza em morrer assim, de mal súbito do amor.

Achava bonito esse mito da devoção infinita ao outro, como se eles fosse nos livrar de nós mesmos, da nossa bagagem, dos nossos traumas.

Mas o que vejo agora ainda tem mais beleza, diria. Não se trata de semideuses ou de algo muito distante de nós. Está tudo ali, às claras.

As impossibilidades, a imperfeição, a egolatria, os estragos de todas as infâncias. Vejo beleza em ser ridícula, às vezes. Em falar que não sei como resolver, que não esperava que fosse assim. Essas verdades que atravessam a gente de quando em vez. O amor é mais real agora, entende? Continuo cantarolando Wando. Porque todo amor é um tanto cafona e intenso — ai de quem disser que não é — mas, ainda mais bonito (e cafona) do que morrer de amor é continuar vivendo.

Fonte: Texto de Dara Bandeira tem 26 anos, é jornalista e autora, trabalha atualmente com formação e análise de discurso nas redes sociais. Este texto foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem, projeto voltado para a escrita das mulheres. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link para conhecer a iniciativa!