Solenidade de Pentecostes

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Daniel dos Santos Lima,
Missionário do Conselho Indigenista Missionário, Cimi – Regional Norte 1.
A convite do CEBI Amazonas
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Leconário Comum Lecionário Católico
At 2.1-21 ou Nm 11.24-30
Sl 104.24-34, 35b
1 Co 12.3b-13 ou At 2.1-21
Jo 20.19-23 ou Jo 7.37-39
At 2,1-11a
Sl 103(104),1ab.24ac.29bc-30.31.34 (R. cf. 30)
1Cor 12,3b-7.12-13
Jo 20,19-23

Hoje se realiza a promessa feita pelo Senhor da vinda do Espírito Santo sobre os seus discípulos (cf. At 1,8). Elevado à glória celeste, o Senhor nos envia, da parte do Pai, o Espírito Santo — o mesmo Espírito que o havia conduzido ao longo de toda a sua vida terrestre (cf. Lc 4,1.18). Como Ele mesmo prometera: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que permaneça convosco para sempre” (Jo 14,16). Sobre nós, o Senhor renova esse dom celeste, para que sejamos iluminados pelo Espírito Santo, dom de Deus oferecido a nós, que permanece conosco ao longo de nossa travessia pela história. O dom do Espírito é o dom dos tempos escatológicos, o dom definitivo de Deus, primícias da promessa feita ao povo eleito (cf. Ez 36,26-27).

Neste dia de alegria, Deus derrama o seu Espírito sobre toda a carne, como profetizou Joel (Jl 2,28). A humanidade inteira torna-se destinatária desse poder que vem do Alto. O Espírito Santo nos é dado para nos despertar, nos iluminar e nos fazer compreender e testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo (cf. Jo 14,26). O Espírito Santo não é uma realidade visível, mas presença interior que nos ultrapassa infinitamente. Ele enche a terra com a sua presença e nossos corações com a sua graça, com o dom do seu amor (cf. Rm 5,5). O Espírito é o dom pascal por excelência — é a plenitude da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

No relato dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11a), encontramos elementos que remetem às teofanias do Antigo Testamento, especialmente no Sinai (cf. Ex 19,16-19): barulho ensurdecedor, fogo, espanto, admiração. Esses sinais indicam, na tradição bíblica, a presença do próprio Deus. O barulho como de um forte vendaval enche toda a casa onde os discípulos estavam reunidos. Do mesmo modo, o Espírito enche os corações de todos os que ali se encontravam. Depois do som, aparece o sinal visível: línguas como que de fogo, que se repartiam e pousavam sobre cada um deles (cf. At 2,3). Essas línguas de fogo iluminam e purificam. Como diz o profeta Malaquias, Deus é “como o fogo do fundidor” (Ml 3,2), que purifica o metal para restaurar sua beleza. Assim também o Espírito purifica o coração humano para que resplandeça segundo a sua verdade original. O fogo também simboliza o poder que faz falar: “abrirei a vossa boca” (cf. Ez 3,27). O Espírito Santo é o poder de Deus que fala.

É esse Espírito que transforma aquele grupo de discípulos, antes trancados por medo (cf. Jo 20,19), em testemunhas corajosas que anunciam as maravilhas de Deus (cf. At 2,11). Não se trata de uma linguagem incompreensível, mas de uma comunicação universal: “cada um os ouvia falar em sua própria língua” (At 2,6). Trata-se da missão da Igreja, chamada a anunciar o Evangelho a todos os povos (cf. Mt 28,19). O dom do Espírito impulsiona a Igreja a assumir cada cultura, cada língua, como lugar do anúncio da Boa Nova. Como ensina São Paulo: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1Cor 12,7). A diversidade dos dons não rompe a unidade, mas a manifesta: “Em um só Espírito fomos todos batizados para formar um só corpo” (1Cor 12,13).

A Igreja, portanto, assume a linguagem de cada povo para fazer chegar a todos, de maneira inteligível, a graça do amor de Deus manifestada em Jesus Cristo. Como recorda também o apóstolo: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’, a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). O Espírito Santo não nos é dado para nos afastar da realidade, mas como força do alto para o testemunho concreto da fé (cf. At 1,8). Ele nos introduz na verdade plena (cf. Jo 16,13) e comunica a própria vida de Deus. A ação do Espírito é essencial para quem deseja viver a fé, a esperança e a caridade (cf. Gl 5,22). É Ele quem faz com que a Palavra de Cristo penetre profundamente em nossos corações, como semente que frutifica (cf. Lc 8,15), para que nossa vida se torne reflexo da luz divina: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14).

As chamas que se repartem sobre os discípulos indicam a unidade e a diversidade da Igreja. Há um único sopro — o mesmo que Deus insuflou nas narinas do primeiro homem (cf. Gn 2,7) — que comunica a vida. Um só Espírito, um só corpo (cf. Ef 4,4). Cada chama é única, mas todas juntas iluminam o mundo mergulhado nas trevas (cf. Jo 1,5).

No Evangelho de hoje (Jo 20,19-23), Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, comunica-lhes a paz — “A paz esteja convosco” — e os envia: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Em seguida, sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo”. Este sopro recorda o gesto criador de Deus e indica uma nova criação (cf. 2Cor 5,17). O Espírito Santo é, portanto, a vida de Deus em nós. Ele nos vivifica com a força do amor. É dom que liberta (cf. 2Cor 3,17) e amor que une. Ele nos faz viver pela fé, nos ilumina e purifica os corações para que resplandeçam como reflexo da luz de Deus.

A boa notícia é que nós não estamos sós. Ainda que, por vezes, nos sintamos abandonados, pela fé sabemos que Deus vive em nós: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16). Ele permanece conosco para sempre (cf. Jo 14,17). O Espírito é o Mestre interior, como dizia Santo Agostinho. Ele nos ensina todas as coisas e nos recorda tudo o que Cristo disse (cf. Jo 14,26). Ele nos guia na verdade, fortalece nossa fraqueza (cf. Rm 8,26) e nos conduz com sabedoria e discernimento. Ele nos arranca da confusão, da dispersão e do medo. Ele nos encoraja na missão, nos sustenta nas dificuldades e nos faz perseverar na esperança (cf. Rm 15,13). Com Ele, podemos viver na alegria e na confiança.

Na realidade amazônica que nos envolve, marcada pela diversidade de povos, línguas, culturas e modos de vida, Pentecostes continua a acontecer de forma viva e concreta. O mesmo Espírito que pairava sobre as águas na criação (cf. Gn 1,2) continua a soprar no vento e na brisa, a fecundar a terra e a guardar a vida que pulsa nas florestas e nos rios. Ele se manifesta no sagrado dos povos indígenas, na força da ancestralidade e no cuidado com a posteridade, revelando que Deus nunca deixou de falar às culturas e aos corações. É o Espírito que conduz a Igreja a um contínuo aggiornamento, abrindo caminhos de diálogo, escuta e respeito entre as religiões e os povos, como tanto insistiu o Papa Francisco. Presente no território, nas águas e na mata, Ele tudo permeia e tudo sustenta, mas de modo especial habita o coração humano, onde Deus, incansavelmente, continua a derramar o seu amor e a renovar a vida.

Que o vento e o fogo do Espírito Santo, derramado em nossos corações, venha sobre cada um de nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro, e nos transforme. Como rezamos no Salmo: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e renovai a face da terra” (Sl 103(104),30). Que Ele nos transforme à imagem de Cristo: misericordioso, compassivo, bom Pastor (cf. Jo 10,11). Que nos tornemos, no mundo, sinais vivos do amor de Deus. Que Deus nos conceda a graça de nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, que permanece conosco para sempre.

Amém.