Somos uma minoria abraâmica de mártires

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Marcelo Barros

No dia 10 de maio, completam-se 40 anos em que soubemos da notícia: Mataram Josimo. Estávamos preparando o 6º Encontro intereclesial de CEBs que seria em Trindade, GO e nós, do secretariado nacional da Comissão Pastoral da Terra, estávamos muito preocupados com a situação no Bico do Papagaio. Apesar de que a ditadura tinha se encerrado um ano antes, naquela região, a repressão social e política era muito violenta. Padre Josimo Tavares, amigo e companheiro, tinha sido ameaçado. Repetidas vezes, latifundiários da região tinham avisado: você vai morrer.

Alguns dias antes de ser assassinado, Josimo escreveu: “Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor? Eu pelo menos nada tenho a perder. Não tenho mulher, filhos e nem riqueza sequer, ninguém chorará por mim. Só tenho pena de uma pessoa: de minha mãe Olinda, “mãe da Esperança”, que só tem a mim e mais ninguém por ela. Pobre. Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa.

Como Jesus, Josimo doou a vida até o fim, para que os posseiros e camponeses conquistassem a terra e fossem livres da escravidão, que é ser expropriado do acesso à terra para cultivar e viver com dignidade.

Mártir é um termo grego e significa testemunha. Nas religiões, é o título das pessoas que arriscam a vida e sofrem perseguições por causa da fé. No entanto, desde antigamente, consideram-se mártires todas as pessoas que sofrem perseguições pela justiça e pela realização da paz ecossocial, que a tradição judaico-cristã considera “projeto divino para o mundo”. Conforme o evangelho, Jesus afirmou: “Bem-aventuradas as pessoas que sofrem perseguições por causa da justiça, (se creem em Deus ou não, se pertencem a uma Igreja ou não), porque delas é o reino dos céus” (Mt 5, 10).

No Brasil atual, defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida ainda significa correr riscos e enfrentar a morte. No Brasil e em toda América Latina, há mais de 50 anos, milhares de pessoas, homens e mulheres, sofreram torturas e muitas foram assassinadas, por estarem inseridas na caminhada de libertação de nossos povos.

Desde os tempos antigos, também merecem o nome de mártires as pessoas que sofrem perseguições e sobrevivem. Em 1986, no 6º Encontro nacional das comunidades eclesiais de base, em Trindade, GO, as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Nesses tempos de martírio, todas as pessoas que trabalham pela justiça e pela libertação do povo têm de tomar cuidado e se proteger, sem com isso desistir, ou diminuir a intensidade da sua entrega.

Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus. As Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, quem, realmente, está vivendo agora a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros e outras, nem sempre são religiosos, religiosas, ou pessoas que fazem isso por causa da fé.

Mesmo sem nenhuma vinculação com fé religiosa, muita gente dedica a sua vida pelas causas da justiça e da libertação, mesmo sabendo que corre riscos. Quando as comunidades de base afirmam: “Nós queremos nossos mártires vivos”, estão gritando que precisamos de uma Igreja, toda ela martirial, ou seja, testemunha da justiça e da libertação no mundo.

Infelizmente, quarenta anos depois do martírio de Josimo, a maioria do clero, da hierarquia e de muitos grupos católicos e evangélicos tem, como modelo de fé, frades que juntam multidões para rezar terço e padres ou pastores, ricos que fazem shows na televisão.

Mesmo em nossas paróquias e comunidades, não são muitas as pessoas que ligam o que dizem de Deus e a luta pela justiça que Jesus proclamou como bem-aventurança. Talvez por isso, muitas pessoas que se dedicam à solidariedade e ao compromisso com a justiça e libertação prefiram nem falar de Deus. Vivem nas periferias urbanas, na luta das mulheres, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas.

A esses pequenos grupos de resistência profética, tanto os ligados à caminhada eclesial, como outros, Dom Helder Camara chamava de “minorias abraâmicas”, porque precisam assumir como vocação ser minorias, mas com a fé de Abraão, isso é, esperar contra toda esperança e arriscar-se a ensaiar a novidade de um outro mundo possível.

Neste tempo no qual celebramos a Páscoa de Jesus, agradeçamos ao Amor Divino sua presença nos irmãos e irmãs que, nas comunidades de fé, mantêm-se fiéis à profecia do Evangelho, em uma vida de doação e entrega às causas do povo mais empobrecido, não como se fosse acréscimo externo, ou apêndice da sua fé e devoção a Deus, mas ao contrário, como núcleo fundamental de sua espiritualidade no seguimento de Jesus.

A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, modo de viver. Todos e todas nós somos chamados e chamadas a sermos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos na caminhada pascal de entrega da vida e consagração ao trabalho pela Paz, Justiça e comunhão com a Mãe-Terra e com todo o universo.