Por Hermes A. Fernandes
| Leconário Comum | Lecionário Católico |
| At 17.22-31 Sl 66.8-20 1 Pe 3.13-22 Jo 14.15-21 | At 8,5-8.14-17 Sl 65(66),1-3a.4-5.6-7a.16.20 (R. 1-2a) 1Pd 3,15-18 Jo 14,15-21 |
Nossas comunidades são chamadas hoje a experimentar o que significa Jesus vivo e ressuscitado em nós. Para isso, convido ao leitor e à leitora deste espaço do CEBi a refletir sobre Jo 14,15-21. Um pouco antes neste Evangelho, vimos Jesus dizer que ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,1-12). Agora, em Jo 14,15-21, a comunidade joanina e seu Evangelho nos aprofundam no sentido real da vida. O cenário ainda é a Última Ceia. Esse texto faz parte do discurso de despedida de Jesus, um verdadeiro testamento, pelo qual se faz a síntese de seus principais ensinamentos. Entre os quatro evangelhos, o de João e sua comunidade é o único que fez essa síntese final dos ensinamentos de Jesus. Uma resposta às necessidades concretas em que viviam, ameaçados pelas perseguições e por problemas internos, quando de sua redação, já na última década do primeiro século. Em tempos de crise, redescobrir o sentido da vida em Jesus e com ele, resgatar o primeiro amor, se faz imperativo.
Para bem compreender o “Testamento de Jesus”, a comunidade joanina insiste em uma palavra, que se repete por vários versículos: Amar! Nos lábios de Jesus esta palavra tem especial sentido. Ele que amou até às últimas consequências, dando sua vida. É por isso que não vemos dificuldades em entender quando ele diz: “se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Este guardar, esta obediência, não se insere na lógica que o mundo impõe, onde quem manda tem poder, oprime, exclui e marginaliza. Ao contrário, se nos lembrarmos de quando ele nos ensina sobre o valor da Lei, coloca o amor como elemento que a justifica. Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22,37-39). O que podemos concluir: guardar os mandamentos significa amar na mesma profundidade pela qual fomos amados por Jesus.
Ler Jo 14,15 pela ótica dos oprimidos nos convida a amar Jesus, não apenas de forma emotiva ou por práticas religiosas individuais. O amor a ele se torna compromisso concreto com seu projeto de vida. Os mandamentos de Jesus não são leis pesadas, mas o caminho da solidariedade, da justiça, da partilha e da defesa da dignidade humana, tudo impulsionado pelo amor. Para as comunidades pobres, guardar os mandamentos de Jesus significa: defender a vida ameaçada, repartir o pão, acolher os marginalizados, resistir às estruturas de morte, construir relações de fraternidade. O amor verdadeiro se transforma em prática libertadora.
Isto posto, podemos entender o que se segue. Em Jo 14,16-17 vemos: “e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. Jesus promete o Espírito Santo como “Defensor” ou “Paráclito”. Na experiência popular, esta promessa tem enorme força. O povo pobre muitas vezes se sente abandonado pelos governos, pelas elites e até por instituições religiosas. Porém, Jesus garante que Deus não abandona os seus.
O Espírito é presença de Deus no meio da luta do povo. Ele anima as comunidades, fortalece quem perdeu a esperança, sustenta os que lutam por justiça, dá coragem diante da perseguição, ajuda o povo a discernir os sinais da vida. Não podemos nos esquecer de que o Espírito fala através das comunidades, das mulheres simples, dos trabalhadores, dos movimentos populares. Em todo tempo e lugar onde o Evangelho continua vivo.
Uma particularidade que não pode ficar de fora de nossas observações é que Jesus se refere ao mundo como quem é incapaz de receber o Espírito prometido. No Evangelho de João, “mundo” muitas vezes representa o sistema injusto que rejeita o projeto de Deus. Não se trata da Criação, mas das estruturas de opressão baseadas na ganância, no poder e na exclusão. O mundo não reconhece o Espírito porque prefere a mentira, contrapondo-se à verdade; o lucro, ameaçando a vida; a opressão, sufocando sinais de fraternidade. A Leitura Popular da Bíblia ajuda as comunidades a perceberem que seguir Jesus frequentemente significa entrar em conflito com os valores dominantes da sociedade. O Evangelho questiona sistemas econômicos e políticos que geram pobreza e sofrimento. E isso incorre em riscos. Muito sangue foi derramado para calar as vozes proféticas!
Neste sentido, Jo 14,18 é alento e força: “Não vos deixarei órfãos”. Esta é uma das palavras mais consoladoras do texto. O povo pobre conhece profundamente o sentimento de abandono. As chagas da exclusão gritam por justiça. São famílias sem terra, pessoas em situação de rua, moradores de periferias esquecidas, vítimas da violência, trabalhadores explorados, pessoas descartadas pela sociedade. Jesus afirma que ninguém ficará sozinho. Ele continua presente na caminhada do povo. Esta presença acontece na comunidade reunida, na partilha do pão, na organização popular, na solidariedade, na resistência dos pobres. Cristo ressuscitado continua vivo no meio do povo que luta pela vida.
Voltemos aos mandamentos: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14,21). O amor a Jesus aparece novamente ligado à prática. Não basta dizer “Senhor, Senhor”. Os verdadeiros discípulos e as verdadeiras discípulas de Jesus vivem o compromisso com o Reino. A Leitura Popular da Bíblia insiste que fé e vida não podem ser separadas. A espiritualidade cristã precisa se ocupar do combate à fome do povo, à injustiça social, ao racismo, à violência, à destruição da Casa Comum, à exclusão dos pobres. O encontro com Cristo conduz à transformação da realidade.
Jo 14,15-21 continua falando fortemente às comunidades populares de hoje. Em meio às crises sociais, à violência, à pobreza e às desigualdades; Jesus reafirma: Deus não abandona os pobres, o Espírito continua animando a caminhada, a comunidade é lugar de resistência e esperança; amar Jesus é defender a vida.
A Leitura Popular da Bíblia convida o povo a ler Jo 14,15-21 não com os olhos de uma espiritualidade alienada, mas com os olhos da vida. O Espírito prometido por Jesus continua presente nas pequenas comunidades, nas lutas populares e em todos os gestos que fazem nascer os sinais do Reino de Deus no meio dos pobres.
