Marcelo Barros
A ONU consagra o 22 de março como Dia internacional da Água. O objetivo é conscientizar as pessoas sobre a importância fundamental da água doce para a sobrevivência da humanidade e da Vida no planeta Terra. Através dessa iniciativa, a ONU promove o uso sustentável e a necessidade de ações concretas para o cuidado com a água, a preservação dos rios, lagos e oceanos, assim como alertar contra a poluição e desperdício.
Atualmente, há uma crise mundial de água. O Brasil tem 12% da água doce do mundo e isso equivale a 53% do contingente de água da América do Sul. Apesar disso, grande parte da população brasileira não tem acesso à água potável de qualidade e não conta com saneamento que evite doenças e poluição dos rios e da natureza. Nesses dias, o governo do Distrito Federal quer entregar ao Banco Regional de Brasília (BRB), para fins de venda e construção de imóveis, uma área de proteção ambiental da Serrinha do Paranoá. “Segundo estudos, a Serrinha abriga mais de 100 nascentes e é apontada por ambientalistas como importante manancial hídrico do Centro-Oeste”[1].
Vários povos vivem um stress hídrico e dezenas de conflitos internacionais têm a água como elemento provocador. O não acesso à posse democrática da terra, assim como o uso que se faz da água revela o caráter injusto e predatório do sistema econômico que faz da água mercadoria e a privatiza. No Brasil, quase todos os rios estão poluídos e com suas águas diminuídas, por causa da ação predadora da sociedade dominante.
Neste ano de 2026, a ONU escolheu para o tema do Dia mundial da Água a questão de gênero. Conforme o documento da ONU sobre Água e gênero: “o objetivo é debater sobre a conexão entre água e a equidade de gênero, uma vez que, nas casas, a falta de acesso a fontes de água doce, saneamento e higiene apropriada afetam muito mais as mulheres do que aos homens. Neste ano, a ONU quer chamar a atenção para o papel das mulheres e meninas que coletam e gerenciam água, muitas vezes em condições de alta vulnerabilidade, como ao cuidar de pessoas doentes, devido ao consumo em mananciais contaminados, o que ocasiona a elas perdas de tempo, saúde, segurança e oportunidades. Além disso, frequentemente, são excluídas dos processos de tomada de decisão”[2].
Aí vemos novamente como a ecologia ambiental não pode ser desligada da ecologia social e humana.
Além dos motivos políticos e econômicos pelos quais é urgente o cuidado com a água, a maioria do povo brasileiro está ligado a espiritualidades, para as quais a água é sagrada. A verdadeira espiritualidade vai além do religioso e se revela em uma atitude de amor para com todas as criaturas. O universo inteiro é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença divina. Os povos originários e as comunidades de cultos afrodescendentes veem nas águas a morada divina. Nas mais diversas tradições culturais e religiosas, a água é o primeiro sinal do Amor Divino.
Para as Igrejas cristãs históricas, neste ano, o Dia mundial da água ocorre na semana anterior ao Tríduo Pascal. Este tem como centro a Vigília Pascal, no sábado à noite, ou na madrugada do domingo da Ressurreição. Nessa celebração, as comunidades costumam oficiar o batismo de adultos. Ao louvar a Deus pela água, a comunidade renova os seus compromissos batismais. Antigamente, na piedade católica e das Igrejas orientais, o celebrante abençoava a água e as pessoas costumavam levar para casa recipientes de água benta. Até hoje, no Ritual Romano, na Vigília Pascal, o celebrante abençoa e consagra a água batismal.
Em 1971, em uma de suas Circulares, Dom Helder Camara, então arcebispo de Olinda e Recife, escreve: “Na Vigília Pascal, fiquei pensando: Benzer o fogo? Benzer a água? Por que? O fogo e a água têm vida e santidade recebidas do Pai. (…) Quase pedia perdão por estar abençoando o que já é bento e santo” (221ª Circ. – Recife, 11/12. 4. 1971)[3].
Cada vez mais, temos de insistir que toda água é sacramento do amor divino. Em toda fonte, poço, rio ou lago, manifesta-se o próprio Espírito e, ali, revela sua ternura pelo universo. Podemos reler o que diz a Bíblia em sua primeira página e, novamente, proclamar hoje: “Desde o princípio, sobre as águas, paira para nós o sopro divino”.
[1] – Cf. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/03/08/manifestantes-pedem-protecao-da-serrinha-do-paranoa-area-ambiental-incluida-em-projeto-para-salvar-brb.ghtml
[2] – Cf. https://agua.org.br/noticias/onu-divulga-tema-do-dia-mundial-da-agua-2026-agua-e-genero/
[3] – DOM HELDER CAMARA. Circulares Ação Justiça e Paz. Volume V. Tomo III. Recife: CEPE, 2022, p. 198.



