Águas da Conversão

Primeiro Domingo da Quaresma
Ruan Isnardi – CEBI RS

Lecionário Comum

Gn 2.15-17; 3.1-7
Sl 32
Rm 5.12-19
Mt 4.1-11

Lecionário Católico

Gn 2,7-9.3,1-7
Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19
Mt 4,1-11

Neste primeiro domingo da Quaresma, a Palavra nos conduz ao deserto com Jesus. O Espírito o leva ao deserto. Não é fuga. Não é castigo. É lugar de discernimento. É o lugar onde o povo de Deus nasceu.

A Bíblia nos recorda que o povo de Deus não surgiu dos palácios nem das terras férteis controladas pelos impérios da Mesopotâmia. Formou-se a partir de grupos despojados, gente sem terra, trabalhadores explorados, povos diversos que viviam à margem dos grandes sistemas econômicos. Muitos não tinham acesso às regiões irrigadas e produtivas. Eram obrigados a migrar, atravessar rios que delimitavam o espaço controlado das civilizações mesopotâmicas e ir tentar a vida na incerteza.

Essa travessia foi mais que geográfica: foi política e espiritual. Ao atravessar as águas, seja o Eufrates, o Mar Vermelho ou mesmo Jordão, o povo rompia com a lógica da escravidão e entrava num caminho novo. O deserto foi o espaço onde aprenderam a partilha do maná, a justiça da aliança, a fé num Deus que escuta o clamor dos pobres.

Também nós atravessamos as águas no batismo. O batismo não é rito mágico; é compromisso. É travessia. É dizer que escolhemos outro projeto de vida. Assim como aquele povo atravessou as águas rumo ao deserto, também nós atravessamos para assumir um compromisso com o Deus da vida e com os irmãos e irmãs.

Quando Jesus vai ao deserto, ele se coloca dentro dessa história. Ele revive a experiência do povo. E ali enfrenta tentações que não são fantasias míticas, mas conflitos reais de consciência. O “diabo” pode ser compreendido como essa força que divide, que separa, que sugere atalhos. É a voz que propõe um projeto diferente do projeto de Deus.

A primeira tentação toca a fome: “Transforma estas pedras em pão.” Jesus está com fome. A tentação não é comer; é usar o poder para resolver sua própria necessidade sem enfrentar as estruturas que produzem a fome coletiva. É a sedução do individualismo, do milagre privado, da solução rápida que não muda o sistema.

Jesus responde com a memória do povo: “Nem só de pão viverá o ser humano.” O pão é necessário, mas a vida plena depende de uma palavra que organize a sociedade na justiça. Mais tarde, Jesus multiplicará pães, não como espetáculo, mas como partilha. O Reino não é milagre isolado; é reorganização da vida em comunidade.

A segunda tentação é religiosa. O tentador cita a Escritura e convida Jesus ao espetáculo no templo. É a tentação de usar Deus para autopromoção, de manipular a fé para obter reconhecimento e poder. Jesus recusa. Deus não é instrumento para legitimar projetos pessoais. A fé não pode ser espetáculo que encobre injustiças.

A terceira tentação é a mais clara: todos os reinos do mundo, toda a glória, todo o poder, basta se ajoelhar diante da lógica do império. Aqui está a escolha decisiva. Jesus recusa a dominação como caminho. Ele não aceita construir o Reino com as armas do império.

O Reino de Deus não é espiritualismo desencarnado. É o projeto político de Deus para o povo: uma sociedade organizada a partir da partilha, da justiça, do cuidado com os mais vulneráveis. Não nasce da aliança com os poderosos, mas da fidelidade ao Deus que escuta o clamor dos despojados.

A Quaresma, então, é tempo de deserto. Tempo de escutar o conflito que atravessa nossa própria consciência. Entre o egoísmo e a solidariedade. Entre o conforto pessoal e o compromisso coletivo. Entre a sedução do poder e o serviço humilde.

Hoje, também nós somos tentados. A transformar pedras em pão apenas para nós. A usar a religião para nos proteger ou nos promover. A fazer acordos com os “reinos do mundo” para garantir segurança e prestígio. O deserto revela qual projeto estamos servindo.

O início da Quaresma nos chama a renovar nossa travessia batismal. A água que atravessamos não foi apenas símbolo de purificação, mas sinal de compromisso com um novo modo de viver. Somos chamados a atravessar, novamente, das lógicas que concentram terra, pão e poder nas mãos de poucos para a prática concreta da partilha e da justiça.

O povo de Deus nasceu dos despojados. Jesus reafirma essa origem no deserto. A Igreja, quando esquece isso, perde sua identidade. Quando recorda, reencontra sua missão.

Que esta Quaresma seja tempo de discernimento comunitário. Que nossas comunidades se perguntem: qual é o “reino” que estamos fortalecendo? Que nossas práticas religiosas estejam a serviço da vida do povo. Que nossa fé se traduza em compromisso social concreto.

O Espírito continua nos conduzindo ao deserto, não para nos destruir, mas para nos purificar das seduções do império e nos fortalecer na construção do Reino.

E escolher o Reino é escolher que ninguém atravesse o deserto sozinho.

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