Recomendação de livro do CEBI para a Campanha da Fraternidade 2026: https://cebi.org.br/produto/eu-faco-a-cidade-e-nao-moro-nela-reflexoes-biblicas-sobre-moradia/
Autora: Regina Marchesini
A quarta-feira de cinzas abre para nós cristãos um tempo de reflexão, de profunda interiorização, de mudança de vida. Nos momentos mais tristes e pesados da história do povo de Deus, as liturgias de penitência e reflexão, trouxeram mudanças profundas e se fizeram presentes como momentos de tomada de consciência sobre as necessidades humanas daquele povo.
A dor, a culpa e a expiação fazem parte de toda cultura humana, acompanham a nossa vida em nos ajudam a mudá-la. A atitude penitente ocupa um lugar considerável na revelação bíblica. Ao lermos profetas como Amós ou Oséias, vamos ver uma grande advertência para fixarmos nosso coração em Deus e mudarmos de vida. Desde os textos bíblicos mais antigos, as orientações para mudanças em nosso comportamento são apontadas como necessárias às mudanças da comunidade. Dessa forma, tanto antes como agora, é necessário refletirmos sobre os pecados individuais e coletivos que comprometem a coletividade inteira e a manutenção da vida.
O tema da conversão é desenvolvido amplamente no livro de Jeremias, no qual o profeta alerta para a mudança de conduta e a circuncisão do coração (Jr 4,1-4). É necessário que mudemos a partir do que é mais profundo em nós, daquilo até que guardamos secretamente em nossas entranhas. É preciso fixar o coração em Deus e ele o mudará; “Darei a eles um coração capaz de me conhecer, pois eu sou Javé. Eles serão meu povo e eu serei o Deus deles, se eles se converterem para mim de todo o coração” (Jr 24,7). É preciso termos coragem para mudar, abrirmos o coração.
Passando ainda por outros profetas, vamos perceber sempre a necessidade de conversão. Amós, o profeta da justiça, nos convoca a buscar o bem e não o mal (5,14); Oséias exige desapego da iniquidade e da idolatria (14,2-29); Isaías denuncia os pecados de todos os gêneros: injustiça, desvios cultuais, que são usadas como recurso político (1,11-15). Assim, também de Miquéias, de Ezequiel até chegar a João Batista (Mt 3,2), há o apelo para nos lavarmos, nos purificarmos, tirarmos a veste da maldade, parar de fazer o mal, socorrer o oprimido, fazer justiça ao órfão, acabarmos com o endurecimento de nosso coração.
Vamos encontrar no Antigo testamento, vários rituais de purificação, várias liturgias penitenciais, como o uso das cinzas e do jejum, que chegam aos nossos dias, que são históricos e muito importantes para fundamentarmos a nossa fé e nossa espiritualidade, no entanto, não podemos parar nesses ritos, precisamos “rasgar o coração e não as vestes”.
É o próprio Jesus que nos chama a produzirmos um fruto novo digno de arrependimento (Mt 3,8) e adotarmos um comportamento novo (Lc 3,10-14). Ele vem e nos convida a fazermos parte do Reino, orientando nossas ações para essa mudança. Ele não faz alusão às liturgias penitenciais, vistosas demais (Mt 6,16ss), ele nos pede a conversão do coração, pede que voltemos a ter o coração puro como o de uma criança (Mt 18,3). Assim, a conversão para Jesus é a busca do Reino de Deus e sua justiça (Mt 6,33).
A conversão é uma graça preparada sempre por iniciativa divina. Deus vem ao nosso encontro e nos dá os meios para mudarmos. Basta sabermos como responderemos a esse chamado. Então, os gestos como imposição das cinzas, jejum e penitência devem mudar o nosso interior, tanto quanto a oração e a esmola. São atitudes que traduzem diante de Deus a humildade, a esperança e o amor dos seres humanos. Não devem produzir em nós, um estado de exaltação psicológica, emocional ou religiosa, mas de fato, provocarem mudança de vida, que brota do nosso interior e não das aparências.
As liturgias penitenciais são momentos de profunda espiritualidade, nas quais, voltando para dentro de nosso coração, buscamos a graça necessária para cumprimos nossa missão de anunciar e viver o Reino de Deus entre nós. É preciso termos humildade para acolhermos as ações de Deus e nos colocarmos em sua presença nesse tempo forte de nossa fé. Para isso, não precisamos fazer alarde nem ficar presos a formalismos que nos impedem de abolir preconceitos e amar ao próximo. Precisamos fugir da soberba e ostentação, pois o que esse tempo nos pede, é a busca pela justiça, que é inseparável da esmola e oração, para não perdermos de vista o propósito de conversão e unificação do coração.
Por fim, para rasgarmos o nosso coração, vamos seguir os ensinamentos que Jesus nos propõe no Evangelho de Mateus, especialmente no capítulo 7, para bem vivermos esse tempo: Não julgar: olhemos para os outros como espelho de Deus (v1-5), saibamos discernir: vamos ficar atentos onde, para quem e como buscamos compreensão sobre o Reino (v6), confiemos no Pai- acreditemos na graça de Deus que se derrama todos os dias sobre nós, Ele ouve nosso clamor (v7-11), não se iludam– busquemos a sabedoria que vem do alto e saibamos que não é fácil dar testemunho e praticar o Reino (v13-14), cuidado com os aproveitadores– fiquemos atentos aos falsos profetas, observem os frutos de suas ações e não suas palavras (15-20), estejamos atentos ao que está em nosso coração para que ele deixe de ser um coração de pedra e seja, de fato um coração de carne.
Que a nossa prática penitencial iniciada nessa quarta-feira de cinzas nos leve a desenvolvermos em nós a prática do amor para todas as pessoas, lembrando o que nos disse o próprio Jesus: “Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os profetas” (Mt, 7,12).
Referências
– BARROS, M & CARPAANEDO, P. Tempo para amar: mística para viver o ano litúrgico. São Paulo: Paulus, 1997
– STORNIOLO, I. Como ler o Evangelho de Mateus- o caminho da justiça. São Paulo: Paulus, 1991.
– LÉON-DUFOUR, X. Vocabulario de Teología Bíblica. Barcelona: Herder, 1967.
– Bíblia Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1993.



