5º Domingo do Tempo Comum
| Domingo V do Tempo Comum | Lecionário Comum
Is 58.1-9a (9b-12) |
Lecionário Católico
Is 58,7-10 |
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Essa pode ser uma pergunta norteadora da Liturgia deste domingo. Afinal, podemos notar hoje em dia um crescente número de pessoas que não se satisfazem com os ritos religiosos já existentes. Muitas pessoas ainda criam novas regras de acordo com seus critérios individuais, em consonância com os atuais conceitos ávidos por novidades constantes. Tem também aquelas pessoas que ainda buscam recuperar ritos obsoletos, ultrapassados e oriundos de séculos tenebrosos da vida cristã, marcados muitas vezes por aparências exteriores – tradicionalismo transvestidos de tradição. Elas esquecem (ou não querem ver) que tudo isso já está superado pelas exigências do Evangelho nos dias de hoje.
Um outro aspecto que a realidade atual nos desafia é a imensa dificuldade de viver a empatia como uma característica profundamente humana. Se em tempos passados a superação das diversas pandemias, em muitos casos uniu os sentimentos numa busca pela rápida superação dos males provocados, a realidade atual, pós-pandemia, tem sido diferente, acrescido pelo alto grau de individualismo do ser humano.
O contexto em que o capítulo 58 do profeta Isaías está inserido é de muito ritualismo vazio, hipocrisia espiritual, sacrifícios desligados da vida. Pela boca do profeta, Deus convoca o povo a uma fé, a uma espiritualidade que se manifesta através da justiça social. É importante notar que o convite recebido pelo povo, além de gerar uma compaixão genuína pelos mais necessitados, também será reconhecida como adoração sincera a Deus. E a consequência imediata para quem age assim, será a vivência de uma espiritualidade verdadeira, capaz de brilhar como uma luz em meio às trevas.
Já o contexto do Evangelho da Comunidade de Mateus, final do século I da era comum, em Antioquia da Síria, é de uma Comunidade de cristãos e cristãs vivendo desafios constantes. Como permanecer fiel a Jesus Cristo, fora da Palestina? Como resistir à pressão para não voltar a uma religião de ritos vazios? Como enfrentar o judaísmo rabínico que estava buscando se reorganizar no período pós-queda de Jerusalém (70 EC)? Um judaísmo que fazia acordos espúrios, muitas vezes, com o poder dominante do império romano para manter seus privilégios. Como adquirir identidade própria, um pequeno grupo considerado como quase que malucos, que acreditava em um homem que tinha sido assassinado e que muitos diziam que nunca tinha ressuscitado?
O cristianismo nascente e o judaísmo rabínico, naquele tempo, eram duas formas diferentes de viver a herança deixada pelo povo de Israel. Começam então a acontecer conflitos entre os dois grupos e cresce o afastamento entre as Comunidades seguidoras de Jesus Cristo e as sinagogas (casa de oração dos judeus), que seguiam o judaísmo rabínico.
O texto bíblico de hoje faz parte do chamado Sermão da Montanha (Mt 5-7) e está colocado logo após o texto das chamadas Bem- Aventuranças (Mt 5,1-12), proclamado no domingo passado. Para a comunidade de Mateus os pobres em Espirito são felizes porque está agora em suas mãos a construção do Reino dos céus. A felicidade não está em ser pobres, mas em sua missão de construir o Reino.
Dentro deste espírito, o texto do Evangelho de hoje está em consonância com a primeira leitura que nos apresenta uma religião verdadeira, que agrada a Deus. Afinal de contas a comunidade cristã está sendo chamada a ser sal e luz, quando se coloca ao lado dos empobrecidos e marginalizados da sociedade.
Destaca-se ainda um alerta forte que o texto apresenta aos cristãos e cristãs, daquele tempo e de todos os tempos. O alerta está no perigo da perda de sabor do sal e na luz que fica fechada em caixote ou quatro paredes e não se apresenta para iluminar os que estão nas trevas
Por fim, vivemos contextos também desafiadores atualmente. Há grupo de cristãos e cristãs que ainda hoje são perseguidos por causa do seu seguimento em Jesus Cristo. Entretanto, há grupo de cristãos que transformaram o seguimento de Jesus Cristo em um fator econômico, enriquecendo a uns a custas da alienação dos outros, inclusive dos empobrecidos. Há ainda aqueles cristãos e cristãs que defendem uma religião de aparência, dogmas apenas, regras rígidas, likes, devocionismos antigos com cheiro de mofo.
Em contrapartida cresce o número dos descartáveis, dos invisíveis, dos deslocados. Cresce ainda, além do descompromisso com vida humana, também o descompromisso com os destinos da sobrevivência humana dentro do planeta. Como tudo está interligado não dá para querer salvar uma alma, se não nos preocuparmos com o ser humano todo e todos os seres humanos dentro do seu habitat natural.
Uma religião verdadeira não religa a pessoa humana a ritos religiosos. E como dizia o Papa Francisco para que serve “uma religião que se limite ao cumprimento de rituais e não trilhe o caminho da justiça não leva ao seguimento de Jesus”? (Meditação sobre a parábola dos dois filhos).
Afinal de contas, o que é mais importante: seguir uma religião ou seguir Jesus Cristo?
Pe. Manoel David Neto
CEBI-ES


