A festa deste fim de semana marca o batismo do Senhor nas águas do Jordão, para algumas comunidades de fé, a solenidade marca o fim do ciclo do natal e o início de uma nova fase da vida da igreja. (Alguns chamam de tempo comum ou domingos depois da epifania).
Vamos dividir o texto em três tópicos, Religioso, Social e Pastoral.
O texto de Isaías Is 42,1-4.6-7 apresenta o servo, justo e humilde que não levanta a voz, aparentemente manso, mas justo! Que vem julgar todos os povos e nações, trazendo todos para junto do Senhor. “Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações” (Is 42,6).
No texto dos atos dos apóstolos (At 10,34-38) Pedro discursa a multidão, aparentemente alguns meses após a morte de Jesus, os eventos ainda estão recentes na memória do povo, mas o destaque é que “Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a Boa-Nova da paz, por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.” (At 10,36). Jesus veio para todos os povos e nações a boa notícia é dada gratuitamente a todos os povos, o batismo de conversão pregado por João foi um gesto divisor na vida da Palestina, muitos acreditavam que João era o messias enviado por Deus, mas o próprio João alertava que ele estava preparando o caminho para o verdadeiro redentor, o lugar do messias não era no Jordão ele deveria andar por toda a parte e como escreveu o autor de atos “Ele andou por toda a parte, fazendo o bem” (At 10,38).
No evangelho Mt 3,13-17 Jesus vem da Galiléia ao encontro de João, não veio das terras de relevância teológica ou centros políticos de poder, ele veio da região de grande mistura étnica e cultural, lugar portuário, onde o comércio aquece a economia, lugar de pessoas estão no vai e vem da vida, João o batista reconhece, e questiona a decisão de Jesus, mas obedece por entender os planos de Deus. Jesus sai imediatamente das águas e recebe do próprio Pai o reconhecimento público “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. (MT 3,17)
No aspecto pastoral o batismo é a entrada para a vida da igreja e da comunidade, afinal, é o primeiro sacramento da vida cristã, é pelas águas que somos adotados por Deus, o mesmo “Deus não faz distinção entre as pessoas” (atos 10,34). Para algumas confissões religiosas o batismo é por imersão nas águas, para outras basta apenas a água e a fórmula, mas independente se é em uma piscina, na beira do rio, mar ou com um copo com água, basta que a matéria ( água) e a fórmula ( pai, filho e espírito santo) sejam ditas, além do desejo de ser parte da família de Deus.
Vamos falar do rio Jordão, lugar na região do oriente que no passado sob a liderança de Josué, (Josué 3-4),o rio secou, permitindo que o povo de Israel entrasse na Terra Prometida, simbolizando libertação e um novo começo, foi o lugar onde o leproso Naamã foi curado após 7 mergulhos por Eliseu ( 2 reis 5, 1-27). Quantos eventos tem no Jordão, mas vamos focar nossa reflexão sobre o lugar, as águas sagradas, puras, curativas e santas, que devem ser de acesso a todos e todas independente da condição social ou religiosa.
No aspecto social, aqui no Amazonas temos a bacia amazônica, vários rios e afluentes, mas temos os rios Negro e Solimões que juntos compõe o encontro das águas que não se misturam, a ciência explica que isso ocorre por conta da densidade das águas, isso é um sinal visual da grandeza de Deus que se manifesta na força das águas, águas essas que mostram o ciclo da vida, renovando e transformando tudo. Deus ao criar o mundo separou as águas da terra, encheu os oceanos de vida e fez tudo novo. Existem várias narrativas bíblicas entre Deus e as águas, o dilúvio, a passagem do mar vermelho, curas e grandes acontecimentos da história do povo de Israel, as narrativas bíblicas nos ajudam na reflexão sobre como Deus se relaciona com as águas, sagradas e benditas para religiões de matriz africana, as águas recebem sagradas oferendas, ela purifica o corpo e o espírito, acalma energias e é um elemento central na cosmologia afro-religiosa, para elas, assim como os povos originários, a água é uma “Grande Mãe” e “Essência da Vida”. Em 2025 o Brasil recebeu a COP 30, para alguns foi um desastre, para outros um sucesso, mas o principal objetivo que era ações concretas de cuidado com meio não se consolidaram, tivemos o mais do mesmo, governos não cedem em acordos, movimentos sociais fazem protestos, cientistas alertam que a mudança climática agora é irreversível. A mensagem das águas é explicita, como um bem essencial para vida e inegociável, água pública de qualidade para todos os povos, as águas do Jordão são renovadas todos dias, as águas da esperança são a garantia de uma missão viva e transformadora.
Gilson Dias.
Membro do CEBI Amazonas
Professor da rede pública estadual do Amazonas
Agente de pastoral na paróquia menino Jesus de Praga da Arquidiocese de Manaus


