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Vencer o poder da morte – Abrir um novo caminho até Deus

Vencer o poder da morte – Abrir um novo caminho até Deus
24 de junho de 2021 Zwei Arts
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Leia a reflexão sobre Marcos 5,21-43, texto de Carlos Mesters e Mercedes Lopes.

Boa leitura!

I SITUANDO

  1. Ao longo das páginas do seu Evangelho, Marcos vai aumentando as informações sobre quem é Jesus. Ele mostra como o mistério do Reino transparece no poder que Jesus exerce em favor dos discípulos e do povo e, sobretudo, em favor dos excluídos e marginalizados. Ao mesmo tempo, na medida em que este poder se manifesta, cresce a incompreensão dos discípulos e vai ficando cada vez mais claro que eles devem mudar as ideias que têm sobre o Messias. Do contrário, vão perder o trem da história.
  1. Nos anos 70, época em que Marcos escreveu o seu evangelho, como já vimos, havia uma tensão muito grande nas comunidades cristãs entre judeus convertidos e pagãos convertidos. Alguns judeus, sobretudo os que tinham sido do grupo dos fariseus, continuavam fiéis à observância das normas de pureza da sua cultura milenar e, por isso, tinham dificuldade em conviver com os pagãos convertidos, pois achavam que eles viviam na impureza. Por isso, a narração dos milagres de Jesus em favor das duas mulheres era uma grande ajuda para superar os tabus antigos.

 II COMENTANDO

  1. Marcos 5,21-24: O ponto de partida
    Jesus chega de barco. O povo se junta. Jairo, o chefe da sinagoga, pede pela filha que está morrendo. Jesus vai com ele e o povo todo o acompanha, apertando-o de todos os lados. Este é o ponto de partida para os dois episódios que seguem: a cura da mulher com 12 anos de hemorragia e a ressurreição da menina de 12 anos.
  1. Marcos 5,25-26: A situação da mulher
    Doze anos de hemorragia! Por isso, ela vivia excluída, pois, como já dissemos, naquele tempo, o sangue tornava a pessoa impura e quem tocasse nela também ficava impura. Marcos informa que a mulher tinha gastado toda a sua economia com os médicos. Em vez de ficar melhor, ficou pior. Situação sem solução!
  1. Marcos 5,27-29: A atitude da mulher
    Ela ouviu falar de Jesus. Nasceu uma nova esperança. Ela disse consigo: “Se ao menos tocar na roupa dele, eu ficarei curada.” O catecismo da época mandava dizer: “Se eu tocar na roupa dele, ele ficará impuro.” A mulher pensa exatamente o contrário! Sinal de muita coragem. Sinal também de que as mulheres não concordavam com tudo o que as autoridades religiosas ensinavam. O ensinamento dos fariseus e 91 dos escribas não conseguia fazer a cabeça de todos. A mulher meteu-se no meio da multidão e, de maneira desapercebida, tocou em Jesus, pois todo o mundo o apertava e tocava nele. No mesmo instante, ela sentiu no corpo que estava curada do seu mal.
  1. Marcos 5,29-32: A reação de Jesus e dos discípulos
    Jesus também sentiu que uma força tinha saído dele e perguntou: “Quem foi que me tocou?” Os discípulos reagiram: “O senhor está vendo essa multidão que o aperta de todos os lados e ainda pergunta ‘Quem foi que me tocou?’” Aqui aparece novamente o desencontro entre Jesus e os discípulos. Jesus tinha uma sensibilidade que não era percebida pelos discípulos. Estes reagiram como todo o mundo e não entenderam a reação diferente de Jesus. Mas Jesus nem ligou, e continuou indagando.
  1. Marcos 5,33-34: A cura pela fé
    A mulher percebeu que tinha sido descoberta. Foi um momento difícil e perigoso. Pois, conforme a crença da época, uma pessoa impura que, como aquela senhora, se metia no meio de uma multidão contaminava todo o mundo através do toque. Fazia todo o mundo ficar impuro diante de Deus (Lv 15,19-30). Por isso, como castigo, ela poderia ser rejeitada e apedrejada. Mesmo assim, a mulher teve a coragem de assumir o que fez. “Cheia de medo e tremendo”, caiu aos pés de Jesus e contou toda a verdade. Jesus dá a palavra final: “Minha filha, sua fé curou você. Vá em paz e fique curada dessa doença!” (1) “Minha filha”, isto é, Jesus acolhe a mulher na nova família, na comunidade que se formava ao seu redor. (2) Aquilo que ela acreditava aconteceu de fato. (3) Jesus reconhece que sem a fé daquela mulher ele não poderia ter feito o milagre.
  1. Marcos 5,35-36: A notícia da morte da menina
    Neste momento chega o pessoal da casa de Jairo e informa que a filha dele tinha morrido. Já não adiantava molestar Jesus. Para eles, a morte era a grande barreira. Jesus não conseguiria ir além da morte! Jesus escuta, olha para Jairo e aplica o que acabava de presenciar, a saber, que a fé é capaz de realizar o que a pessoa acredita. E ele diz: “Não tenha medo! Creia somente!”.
  1. Marcos 5,37-40: Na casa de Jairo
    Jesus se separa da multidão e só permite três discípulos com ele. Chegando à casa de Jairo, vê o alvoroço dos que fazem luto pela morte da menina. Ele diz: “A criança não morreu. Está dormindo!” O pessoal deu risada. O povo sabe distinguir quando uma pessoa está dormindo ou quando está morta. É a risada de Abraão e de Sara, isto é, dos que não conseguem crer que para Deus nada é impossível (Gn 17,17; 18,12-14; Lc 1,37). Também para eles, a morte era uma barreira que ninguém poderia ultrapassar! As palavras de Jesus têm ainda um significado mais profundo. A situação das comunidades do tempo de Marcos parecia uma situação de morte. Elas tinham que ouvir: “Não é morte! Vocês é que estão dormindo! Acordem!” Jesus não dá importância à risada e entra no quarto onde está a menina, só ele, os três discípulos e os pais da menina.
  1. Marcos 5,41-43: A ressurreição da menina
    Jesus toma a criança pela mão e diz: “Talita kúmi!”. Ela levanta-se.  Grande alvoroço! Jesus conserva a calma e pede que lhe deem de comer. Duas mulheres são curadas! Uma tem 12 anos de vida, a outra tem 12 anos de hemorragia, 12 anos de exclusão! Aos 12 anos começa a exclusão da menina, pois começa a menstruação, começa a morrer! Jesus tem poder maior e ressuscita: “Levante-se!”.

III. ALARGANDO

Mulheres no Evangelho de Marcos
A boa-nova de Deus, a novidade do Reino aparece muito claramente no relacionamento de Jesus com as mulheres. Naquela época, a mulher era marginalizada na sociedade e excluída da participação na sinagoga pela lei da pureza, que a mantinha em constante situação de submissão e impureza pelo simples fato de ser mãe: dando à luz, ela se tornava impura (Lv 12,1-5). Por ser filha: o filho que nascia trazia 40 dias de impureza (Lv 12,2-4); mas a filha, 80 dias! (Lv 12,5). Por ser esposa: a relação sexual a tornava impura durante um dia (Lv 15,18). Por ser mulher: a menstruação a tornava impura durante sete dias. Quem tocasse em mulher menstruada ficava impuro e devia purificar-se. Se ficasse com hemorragia, permanecia impura, impossibilitada de tocar qualquer coisa sagrada ou de entrar no santuário durante todo o tempo que durasse a enfermidade (Lv 15,19-30).

Essas normas e leis tornavam insuportável a convivência diária em casa. Por isso, a cura da mulher com 12 anos de hemorragia era um sinal muito importante. Mostrava a possibilidade de um novo relacionamento com Deus, através de Jesus, que colocava as mulheres de pé, superando toda discriminação e marginalização causadas pela mentalidade legalista. Este episódio apresenta uma mulher que ousa desobedecer à lei da pureza, tocando em Jesus mesmo estando com hemorragia. Ela quer livrar-se desta terrível doença que a mantém excluída há 12  anos. Acredita na força de vida que reside em Jesus. É justamente esta força que Jesus passa para a sogra de Pedro, tocando-a, tomando-a pela mão e fazendo-a levantar-se (Mc 1,29-31); gesto que Jesus repete com a menina, a filha de Jairo que acabava de morrer aos 12 anos. Jesus toma a mão da menina e manda que ela se levante (Mc 5,41). Ao deixar-se tocar pela mulher que sofria de hemorragia e ao tocar a menina morta, Jesus também está desobedecendo à lei da pureza. Ele quer que as mulheres se levantem, ressuscitem, fiquem de pé e participem da nova comunidade com toda a dignidade.

Marcos nos apresenta ainda o diálogo entre Jesus e a mulher sirofenícia (Mc 7,24-30), indicando que ele é capaz de superar os limites da mentalidade patriarcal judaica e aprender de uma mulher pagã, pobre, estrangeira e sozinha. Aprende também de uma viúva, fazendo dela um modelo para seus discípulos e discípulas (Mc 12,41-44), e elogia a moça do perfume, dizendo que onde fosse proclamado o Evangelho seria contado o que ela fez e se faria memória dela (Mc 14,3-9). Mas a novidade maior é que Jesus inaugura um discipulado de iguais, possibilitando que homens e mulheres o sigam em igualdade de condições, como amostra grátis do Reino. Realidade que aparece resumidamente, como aquelas boas notícias que se conta ao pé do ouvido, com sorriso nos lábios e brilho no olhar (Mc 15,40-41).

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