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Reflexão do Evangelho: Os discípulos no caminho de Emaús

Reflexão do Evangelho: Os discípulos no caminho de Emaús
23 de abril de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Lucas 24.13-35, texto de Renato Küntzer.

Boa leitura!

1. Meditação

Temos em Lucas 24.13-35 um texto especial, que faz parte do material exclusivo de Lucas. Mesmo que não se encontre em nenhum outro evangelho, o texto é muito conhecido e utilizado nas reflexões sobre a presença de Jesus como ressurreto. Ao relatar uma das aparições de Jesus, Lucas fá-lo de maneira que possa relacioná-lo com a vida e os desafios experimentados por sua própria comunidade. Por quê? Porque o relaciona ao seguimento e ao discipulado de Jesus. O texto relata a experiência de um casal de discípulos que atende ao chamado radical e integral de seguimento (cf. Lc 9.23-27). Mais do que fiéis de uma determinada igreja ou movimento religioso cristão, é preciso que haja discípulos, seguidores de Jesus Cristo e testemunhas de sua boa-nova.

O texto diz que Jesus participa da caminhada. Ele vê a situação das comunidades, assim como viu a situação dos dois discípulos. Ele também ouve a sua forma de ver as coisas que aconteceram. O texto ressalta tanto o cotidiano da comunidade (caminhada, ensino das Escrituras, o partir do pão), que a aparição acaba tendo um aspecto secundário. Importante é considerar que, mesmo em tempo de cegueira, quando a comunidade não é capaz de associar a causa de Jesus com a realidade de vida, Ele caminha junto. Jesus vê. Jesus vê bem a tristeza, a decepção e o desânimo de suas comunidades. Jesus ouve os seus lamentos, as suas falsas esperanças e a sua total perda de esperança em relação ao futuro. E infelizmente já não caminhamos. A maioria está numa correria louca. Uns para sobreviver institucionalmente e manter a sua boa tradição e costumes como prestadores de serviços religiosos. Outros para poder continuar competindo num mercado religioso cada vez mais aguçado e sedutor, vendendo o produto da salvação individual sem qualquer compromisso comunitário e coletivo. Nisso está visível a cegueira.

O texto assegura que Jesus está presente no ensino das Escrituras e do evangelho da vida. Jesus conhece a lentidão para entender e a demora em acreditar em tudo o que as Escrituras falaram. Por isso intervém para ensinar as Escrituras. Está presente nos gestos que recuperam a memória nele e ajudam a dar um novo sentido à vida da comunidade a partir da leitura e do ensino das Escrituras. E quanta diversidade de leituras existe! Diferentes chaves de interpretação afastam e separam pessoas, fazem diferentes grupos e movimentos cristãos se odiarem. Provocam a formação de grupos fechados e chegam ao cúmulo da segregação do diferente. Quanto coração há que se esquenta por pouco ou por nada! Há corações superaquecidos por interesses pessoais. A cegueira em relação à causa de Jesus está cada vez mais evidente.

Lá como aqui, há muito pesar com tudo o que aconteceu a Jesus. Mas há um problema: lá como aqui, as comunidades estão ligadas em sua mentalidade, as mesmas situações que não permitiram que os discípulos e a comunidade reconhecessem o Jesus ressuscitado. “Nós esperávamos que fosse ele…” Desse ponto de vista, não é possível perceber Jesus caminhando junto. Desse ponto de vista, não é possível crer no testemunho das Escrituras e tampouco no testemunho de irmãos e irmãs. Hoje também lemos os fatos de maneira que parece não haver mais jeito: tudo parece terminado e definido. Nessas circunstâncias, Jesus dispõe-se a caminhar junto conosco, ouvir, ler e ensinar as Escrituras para olhar a vida com outra perspectiva que não a do poder. Ele nos ajuda a reler as Escrituras, reinterpretar os fatos com outro olhar, ajuda a entender o nosso caminho, assim como o caminho de Jesus, o Cristo, sua vida, morte e ressurreição. Se no ambiente da comunidade a Escritura tem importância no ensino, na liturgia e nas celebrações, o que um texto como esses está querendo dizer a ela?

Finalmente, o texto lembra-nos que Jesus partilha o pão. Não só palavras. Não só reflexões. É necessário algo mais. Mais palpável. O importante é partir o pão. A partilha é decisiva e essencial. Esse gesto de Jesus a comunidade é desafiada a repetir sempre. As outras coisas (caminhada, ensino) fazem no máximo o coração arder, mas a partilha faz ver. A partilha como gesto cheio de sentido e de exigências. Sem dúvida, a comunidade necessita da leitura das Escrituras, de sua interpretação e mensagem atual (evangelização). Com certeza, a comunidade, a partir dessa evangelização, experimenta a comunhão. E é a partir dessas duas experiências em Cristo que a comunidade vai abrir seus olhos à experiência da partilha. Vai conseguir olhar para além de si própria, de suas preocupações, para dentro do mundo e da sociedade. Ela se torna diaconal. Ela vai ao encontro de seu serviço. Se antes caminhava lentamente e sem perspectiva de futuro, agora ela volta com vigor e animada para a sua tarefa (Lc 9.23-27).

2. Imagem para a prédica

A presença do Jesus ressuscitado ao redor daquela mesa com Cléopas e sua esposa Maria foi uma experiência tão forte e marcante, que não era mais possível negá-la, voltar atrás. Cabia a eles continuarem o que Jesus havia iniciado. O caminho que havia sido animado pela palavra concretizara-se pela experiência da partilha do pão. Exercitamos essa experiência do partir do pão em comunidade na Santa Ceia. Mas que não seja uma vivência restrita a um momento litúrgico e celebrativo do culto cristão, mas sim uma conduta da comunidade para dentro da realidade que a cerca.

Agora, concretamente em termos de caminhada comunitária ou pessoal, nossas agendas estão cheias de atividades. Há uma diversidade de atividades que tomam o nosso tempo. Já não caminhamos mais. Antes corremos para dar conta daquilo que estabelecemos como prioridade.

A ciência explica que o nosso campo de visão, a visão periférica, é de 165 graus. Quando uma pessoa se movimenta a uma velocidade de 40 quilômetros horários, essa visão é reduzida para 90 graus. Numa velocidade maior, entre 80 e 100 quilômetros por hora, a visão é de 40 graus. Próximo aos 200 quilômetros horários, a visão é tão somente de 7 graus. Ou seja, quanto mais se corre, menor é o alcance da visão humana.

Nossa presença não depende da velocidade com que fazemos as coisas, mas da frequência com que experimentamos o partir do pão. Comunidade evangelizada convive em comunhão e exercita a partilha para dentro do mundo.

De forma breve, mas clara, deixemo-nos animar por um pequeno poema:

Se não houver caminho que nos leve,
Nossas mãos o abrirão.
E haverá lugar para as crianças,
Para a vida e para a verdade.
E esse lugar será de todos
Na justiça e na liberdade.
Se alguém se anima, avise-me:
Seremos dois a começar…
Dom Pedro Casaldáliga

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