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O Pão é o Centro da Oração e da Prática de Jesus

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Mateus 14,13-21

Equipe do Centro de Estudos Bíblicos de João Pessoa – Paraíba

Zanza (Maria dos Anjos Neves Moraes)

Glória Maria Carneiro

Edna Maria Nascimento Silva

 

Em Mt 1-2 Jesus nasce em Belém: Casa do Pão, em 26-28, antes de sua morte, Jesus “se faz pão” na Eucarístia (Edimilson Schinello).

O texto que estamos meditando neste 18⁰ Domingo do Tempo Comum, está em Mt 14, metade do livro do Evangelho segundo a Comunidade de Mateus. Nele se narra a partilha dos pães e dos peixes. O inicio do capitulo narra a execução de João Batista e o banquete da morte promovido por Herodes (em seu palácio) e pelo sistema da época que era contra a mensagem do Reino do Céu, que Jesus representava. A chegada desse Reino põe em cheque todo um sistema sociopolítico e religioso que explorava e dominava as populações da Palestina. O convite que Jesus faz é para o banquete da Vida, onde o que une e o que lhe movia era a Compaixão.

A preocupação com a justiça do Reino que acolhe os pequeninos/as é tão forte que a comunidade de Mateus se organiza para isso (Pedro Vasconcelos PNV 134/99). Já no capitulo 4,15, após ser batizado por João, Jesus diz: “devemos cumprir toda justiça”!

Nas aldeias da Galileia os problemas mais angustiantes eram a fome e as dívidas, era o que fazia Jesus sofrer. Tanto que quando os discípulos pediram que Ele lhes ensinasse a rezar, saíram do mais íntimo do seu ser essas duas petições: “Pai, dai-nos hoje o pão necessário.” “Pai, perdoa as nossas dívidas pois também nós perdoamos a quem nos deve alguma coisa”. Fontes cristãs conservaram a lembrança de uma refeição memorável com Jesus. Foi num descampado, muita gente participou. É verdade que os discípulos propuseram uma solução mais cômoda e menos comprometida, quando perceberam que já era tarde e as pessoas estavam famintas, sugeriram ”que as pessoas possam ir às aldeias comprar comida. E quem não podia comprar? Permaneceria com fome? Cada qual resolveria o problema como pudesse! (José A.Pagola: Mateus – Caminho Aberto por Jesus).

Mas Jesus lhes diz: “Vocês é que tem de lhes dar de comer!” a proposta do projeto de Jesus é “partilhar-repartir” entre os irmãos/ãs os bens que temos e que foram produzidos pela classe trabalhadora. Onde há partilha não há fome. O grande milagre não é “multiplicar” os pães e os peixes, é repartir o que cada pessoa trouxe na sua mochila. Dois peixes (2) e cinco (5) pães = sete (7), o número 7, na cultura de Jesus, significa plenitude e, no nosso texto, significa pão para todas as pessoas, para matar a fome e também o cuidado para não desperdiçar. Sobraram 12 cestos! Com quem ficou as sobras? Quem as levou para casa? Quem, no cotidiano das famílias se preocupa com a alimentação, com o pão? Com as migalhas? (conf. Mt 15,21-28). A mulher! Por que as mulheres (e as crianças), neste trecho do evangelho (e em outros tantos), não foram contadas se na Comunidade de Mateus elas tinham participação marcante? Sabemos que os evangelhos e os escritos bíblicos foram escritos e interpretados por homens, numa sociedade patriarcal e machista, que continua nos dias atuais. Daí a importância de nós Mulheres lermos e interpretarmos os “Textos Sagrados” considerando em seus contextos, as ausências e os silenciamentos impostos as mulheres, utilizando para isso a “hermenêutica da suspeita”.

O pão partilhado se torna dom de Deus para seus filhos/as.

“Quem tem fome tem pressa”.

“Você tem fome de quê?”

A grande multidão de imigrantes que saem de suas terras empurrados/as pela fome e miséria, produzidas pelos colonizadores nos questiona…

Diante da situação atual do mundo em que milhares de pessoas. principalmente mulheres e crianças passam fome, nós que nos proclamamos seguidores/as de Jesus deveríamos nos envergonhar e fazer uma “mea culpa”. Na maioria das vezes nos ocupamos mais com nossos interesses, nossas doutrinas e celebrações pomposas do que em promover a “autonomia alimentar” dos povos. Pão é misericórdia, é dignidade, é direito humano fundamental.

Precisamos desmistificar o “milagre” da multiplicação dos pães e peixes, e reforçar a partilha do pouco que cada qual traz. O milagre acontece quando o pouco que eu partilho se torna muito (Marcelo Barros). Para isso é necessário que nas nossas lutas cotidianas trabalhemos para destruir o sistema que gera excessos para uns poucos e a miséria para a maioria. O pouco que temos, quando é partilhado é abençoado por Deus, e se torna suficiente para transformar a realidade e a vida das pessoas.

Jesus desmascara a “insensibilidade e indiferença” dos discípulos. Quem celebra e participa da eucaristia (ação de graças), deveria reconhecer no Corpo de Cristo os corpos feridos das mulheres, os corpos da comunidade lgbtqiapn+, os corpos das crianças e adolescentes que sofrem vários tipos de violências, os corpos dos povos originários expulsos de suas terras, os corpos das mulheres e homens afrodescendentes que até hoje são submetidos a situações de escravidão…

Que a Ruah Divina e a força do pão partilhado nos inspire e motive na luta para que todos/as tenham vida e vida em plenitude e que haja “PÃO em todas as mesas”, o pão da beleza, o pão da alegria, o pão da cultura, o pão das artes… E assim, “a festa haverá e o povo a cantar, aleluia!” (Zé Vicente).

João Pessoa, 26 de Julho de 2026.