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O caminho do amor é o caminho da solidariedade

O caminho do amor é o caminho da solidariedade
28 de outubro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 12,28-34, texto do Ildo Bohn Gass

Boa leitura!

No evangelho para este final de semana, a comunidade de Marcos apresenta-nos Jesus ensinando o mandamento maior no templo de Jerusalém (Mc 11,27; 12,35). Auxiliado pela sinagoga, o templo era o pilar de um sistema que garantia o ensino e o cumprimento das leis, bem como a aplicação das penas para quem não as cumprisse.

Nesse templo, um escriba ouviu a discussão de Jesus com os saduceus e como respondera muito bem a eles (Mc 11,18-27). Os saduceus compunham o partido judaico mais poderoso naquele momento. Nele, juntavam-se os que controlavam a religião a partir do templo, os sacerdotes, e os que detinham o poder sobre o comércio em Jerusalém, isto é, os anciãos.

Em nossos dias, diríamos que é o partido do capital financeiro com apoio da grande mídia empresarial e de setores eclesiais. E não é por acaso que continuam armando ciladas contra os direitos do povo e contra suas lideranças, através de calúnias, de condenações sem provas e de golpes institucionais. O conflito entre diferentes projetos de vida leva-nos a perceber que a plataforma do Reino de Deus revoluciona todos os sistemas, os de ontem e os de hoje, grandes ou pequenos, dentro ou fora de nós.

O especialista da lei pergunta a Jesus pelo primeiro de todos os mandamentos. Era uma pergunta que até uma criança responderia com o Shemá (Escuta), que os judeus recitavam todos os dias (Dt 6,4-9). Talvez ele quisesse, como os saduceus, ridicularizar Jesus. Mas o que o escriba não esperava é que Jesus acrescentaria um segundo mandamento tão importante quanto o primeiro. Prestar culto a Deus com ritos até que é fácil, mas amar o próximo na mesma medida que amamos a nós mesmos…

Ao colocar o amor como motivação maior para todo o nosso agir, Jesus torna relativas todas as leis, doutrinas e tradições. Elas somente estão conforme a vontade de Deus, caso tiverem, como fonte primeira, o amor. O amor é o único caminho do Reino.

Na troca de ideias com Jesus, o escriba teve uma atitude diferente dos saduceus. Repetiu o que Jesus dissera e, além disso, fez memória de Oseias 6,6, dizendo que “o amor está acima de todos os holocaustos e todos os sacrifícios” (Mc 12,33). E Jesus ficou admirado, ao ponto de dizer que o legista não estava longe do Reino de Deus (Mc 12,34).

Jesus resgata o espírito da lei

Em que parte das Escrituras Jesus busca o espírito da lei, o princípio do amor? Para o primeiro mandamento, ele recorre a um dos livros da lei judaica, o Deuteronômio (6,4-5).

Convém percebermos que, diferentemente de Mateus e Lucas, Marcos recorda que Jesus também citou a frase que antecede o mandamento do amor a Deus: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). Assim, Jesus deixa claro que o projeto do Reinado de Deus está diametralmente oposto ao projeto de César, considerado o único senhor no Império Romano.

E segue: “Amarás o Senhor, teu Deus…”. É um amor intenso, isto é, com todo o nosso ser: coração e alma, força vital e mente.

Jesus encontra o segundo mandamento em outro escrito do Pentateuco, o livro do Levítico (19,18): “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Também esse é um amor profundo, pois é amar o próximo tanto quanto amamos a nós próprios.

Segundo o sermão da montanha (Mt 5–7), Jesus diz o mesmo em outras palavras, resumindo a lei e os profetas, isto é, todas as Escrituras: “Tudo que desejais que as pessoas vos façam, fazei-o vós a elas” (Mt 7,12). Jesus vai além do senso comum que dizia: “Não faça às outras pessoas o que não queres que te façam”. Ele propõe um amor mais intenso. E amar intensamente é acolher de coração. É cuidar com corpo e com alma. É escutar com mente aberta. É solidariedade, força de vida…

O amor é a força do universo, é o centro da vida nutrida em Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,8.16). Segundo o apóstolo Paulo, se andamos no caminho de Deus, vivemos o amor que gera vida, “pois toda a lei se resume neste único mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,14; Romanos 13,9). Portanto, “o amor é o cumprimento pleno da lei” (Rm 13,10). Ao dizer que “toda lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22,40), Jesus torna todas as Escrituras relativas. Elas têm sentido somente quando estão em relação ao amor, dele dependem e por ele são dinamizados. Somente o amor é absoluto e dá sentido às Escrituras. O amor, portanto, é critério para reler qualquer texto da Bíblia.

Os judeus mais piedosos haviam catalogado todas as leis do Pentateuco. Chegaram a relacionar 613 leis. Dessas, 365 eram proibições como, por exemplo, “não matarás” (Ex 20,13). E 248 eram leis afirmativas como “lembra-te de santificar o dia de sábado” (Ex 20,8). Uma quantidade tão grande de leis era difícil para o povo cumprir. De um lado, por não saber ler e, por isso, não conhecer as leis em seus detalhes. De outro, por não ter, na luta cotidiana pela sobrevivência, condições de cumprir a lei em todos os seus pormenores.

Conforme uma informação que encontramos no evangelho segundo João, fariseus diziam que “esse povinho que desconhece a lei, são uns malditos” (Jo 7,47-49). Segundo essa postura preconceituosa e intolerante de fariseus, as pessoas “menos informadas” sobre a lei e, em consequência, não a cumprindo, estariam em pecado e, por isso, seriam amaldiçoadas por Deus. E essa era a situação da maioria do povo pobre daquele tempo. Apenas uma minoria considerava-se abençoada por Deus pelo fato de ser “mais informada” e cumprir a lei, bem como as tradições orais sobre o puro e o impuro. Ainda hoje, há pessoas e grupos que se consideram mais próximas de Deus do que outros movimentos ou grupos religiosos.

Ao dar valor relativo às inúmeras prescrições e ao colocar o amor como único princípio no cuidado e promoção da vida, Jesus abre a possibilidade aos pobres de também fazerem parte das bênçãos do Pai. Para muitos fariseus, por considerarem os pobres “menos informados” sobre a lei, estes estariam excluídos dessas bênçãos de Deus. Somente eles achavam ter esse privilégio. No entanto, em sua prática, Jesus derruba os muros que impediam o acesso dos pobres ao Reino. E mais. Alegra-se porque são justamente eles que acolheram a Boa Nova (Mt 11,25-27; Lc 10,21-22), enquanto os que se achavam “os mais informados”, porém, prisioneiros de inúmeras regrinhas e preconceitos, fecharam-se ao projeto de Deus. Assim, diante da dificuldade para cumprir tantas leis, Jesus propõe um caminho alternativo, o caminho do amor.

O caminho do amor é um novo jeito de caminhar, é uma nova prática. Sua vivência não é algo abstrato, teórico, mas é um amor bem concreto. Antes de procurar um próximo para amar, importa tornar-se próximo de quem precisa de solidariedade. É isso que a comunidade de Lucas quer-nos lembrar ao acrescentar, à narrativa em que revela o mandamento do amor, a parábola do samaritano compassivo (Lc 10,25-37), convidando-nos a fazer-nos próximos de que está à margem do caminho. Caminhemos, portanto, no caminho do amor, da compaixão, da misericórdia.

Definitivamente, o caminho do amor é o caminho da solidariedade.

As comunidades de João, diferentemente das de Mateus, Marcos e Lucas, não separam o mandamento de Jesus em dois: amar a Deus, de um lado, e o próximo como a si mesmo, de outro. Elas vão mais fundo e identificam o amor a Deus com o amor ao próximo: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).

Ademais, as comunidades joaninas consideram insuficiente “amar o próximo como a si mesmo”. É preciso ir além: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34; 15,12.17).

O amor deve ser sem limites, tal como Jesus mesmo amou, isto é, sendo fiel ao projeto do Pai até as últimas consequências. E sabemos que essa fidelidade lhe custou a vida. Porém, ela também é a razão fundamental porque ele continua vivo, presente na luta de quem o segue pelo caminho da justiça do Reino.

Oração
Ó Deus de ternura e de bondade,
diante da crise em que o Brasil e o mundo se encontram,
permite-nos que teu amor nos conduza
na superação de todas as estruturas de morte
que ameaçam a vida no planeta. Amém!