12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 21/06/2026
“NÃO TENHAIS MEDO!”
| Leconário Comum | Lecionário Católico |
| Jr 20.7-13 Sl 69.8-11(12-17) 18-20 Rm 6.1b-11 Mt 10.24-39 |
Jr 20,10-13 Sl 68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c) Rm 5,12-15 Mt 10,26-33 |
Manoel David – CEBI/ES
“De onde vem o medo?”, podemos nos perguntar. Segundo a psicologia “o medo faz parte da nossa vida e da nossa autopreservação, pois nos impede de cometer atos perigosos e que podem ter más consequências”. O medo pode também funcionar como uma “voz interior”, continuamente dizendo que algo não vai dar certo ou que você não é capaz de realizar.
O medo é criado dentro das nossas mentes e, por mais que tentemos evitá-lo ou ignorá-lo, não conseguimos acabar com ele. Isso acontece porque a crença que alimenta esse sentimento não foi alterada. Só se vence o medo quando se descobre o que há por trás dele, ou seja, qual é a origem ou experiência que desencadeou essa emoção.
A liturgia da Palavra deste 12º domingo do tempo comum nos apresenta o Evangelho da Comunidade de Mateus, no capítulo 10,26-33. Este texto está em sintonia com o Evangelho do domingo passado (Mt 9,36-10,8). Ali vimos a compaixão de Jesus diante da multidão, que estava como ovelha sem pastor; vimos também a escolha dos Doze e a resposta positiva das pessoas chamadas. Antes, porém de partir de volta para o Pai, Jesus dá as instruções aos discípulos (“discurso da missão”, que se prolonga de 9,36 a 11,1) e os envia em missão, para dar continuidade ao projeto libertador e salvador que Ele trouxe, mas que não veio realizar sozinho.
No Evangelho deste domingo podemos nos perguntar: porque a Comunidade de Mateus nos apresenta Jesus dizendo a recomendação “não tenhais medo!”, por três vezes? Qual será o medo que estava atormentando a vida daquelas Comunidades naquele momento?
Atualmente a maioria dos estudiosos concordam com as informações sobre a elaboração do Evangelho de Mateus. Esse Evangelho teria sido escrito na cidade de Antioquia da Síria, nos anos 80 EC (Era Comum). Mas, o que estava acontecendo para que essa Comunidade relembrasse e deixasse por escrito essas orientações que hoje ouvimos?
“Não tenhais medo!”
Temos notícias que essa era uma comunidade com grande sensibilidade missionária, verdadeiramente empenhada em levar a Boa Nova de Jesus a todos as pessoas. No entanto, os missionários e missionárias estavam convivendo, dia a dia, com muitas dificuldades e perseguições, gerando assim entre eles um certo desânimo e uma certa frustração.
As dificuldades e perseguições nas comunidades judaico-cristãs vinham de uma hostilidade crescente, que aconteceu de forma mais evidente com a destruição de Jerusalém, por volta do ano 70 (EC) e que, rapidamente se converterá em perseguição organizada contra o cristianismo (no ano 95, por iniciativa de Domiciano, começa uma terrível perseguição contra os cristãos em todos os territórios do império romano).
Por isso mesmo, a primeira geração de comunidades seguidoras de Jesus havia sofrido uma grande baixa com a guerra judaico-romana, que durou anos na Palestina. As comunidades sentiram então uma grande necessidade de registrar as memórias da atividade de Jesus, bem como de sua própria trajetória no seguimento do seu projeto.
Por outro lado, as Comunidades judaico-cristãs tiveram que enfrentar conflito e perseguição aberta vindas das sinagogas (casa de oração dos judeus) controladas por um grupo de fariseus. Eles haviam criado uma Academia e buscavam a reorganização de um judaísmo rabínico, que excluía as experiências diferentes. Tudo isso estava gerando um cansaço, um medo ao realizar a missão confiada às pessoas que formavam aquelas Comunidades.
Diante desses desafios o medo se torna uma realidade presente entre as pessoas daquelas comunidades. Daí que, ao recordar as orientações de Jesus, a Comunidade que deixa registrado o Evangelho, procura lembrar alguns aspectos importantes, tanto aos seus leitores e leitoras, aos membros das Comunidades e também a nós que viemos depois.
Inicialmente recorda que ainda continua existindo ovelhas que estão sem pastor. Existem também ovelhas enganadas por falsos pastores, que se vestem de ovelhas. Eles procuram imitar a voz do pastor, mas são lobos que vivem tosquiando as ovelhas, comendo a sua carne e bebendo o seu sangue. Não são seguidores do Bom Pastor, não foram chamados por Ele, não seguem as orientações da doação, do serviço, da entrega, da sua misericórdia. Esses falsos pastores legislam em causa própria, ensinam aquilo que interessa a eles e aos seus grupos. As Comunidades do Evangelho de Mateus preferem seguir o Bom Pastor, mesmo que para isso tenham que correr riscos e até perder a própria vida.
“Não tenhais medo!”
Essa afirmativa, repetida com insistência pelo texto bíblico de hoje, é um convite de Jesus aos seus discípulos e discípulas. E o Evangelho da Comunidade de Mateus faz questão de repetir de maneira que os seguidores e seguidoras de Jesus, o Bom Pastor, busquem perceber que o medo faz parte da missão, porém é preciso temer aquilo que é mais perigoso. Ainda hoje, os mais perigosos não são aqueles que matam o corpo e não podem matar a alma. O perigo maior está naqueles podem “destruir a alma e corpo no inferno” (Mt 10,28).
Em outras palavras, o medo faz parte da vida humana e precisamos aprender a lidar com ele. É necessário, porém identificarmos quais são os medos que mais nos afligem e quais as causas deles em nossa vida. O próprio Jesus, no horto das oliveiras orou: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26,39). Entretanto, Jesus assumiu a missão que Ele mesmo recebeu do Pai e foi até o fim para dar vida nova à humanidade.
E quando no Evangelho Jesus insiste com os seus discípulos e discípulas “não tenhais medo”, quando a Comunidade de Mateus deixa registrado para os que viriam depois, fica evidente que, para além de qualquer medo que venhamos a ter, a razão da nossa fé é o seguimento de Jesus Cristo. Mesmo com medo precisamos seguir em frente. Afinal de contas, maior que os nossos medos é aqu’Ele que confiou no seu Pai e entregou-se na cruz resgatando-nos de nossa morte com a sua vida.
Portanto, “Não tenhais medo!” nos aponta o próprio Jesus, ainda hoje!
Nos tempos atuais já temos bastantes pregadores e pregadoras, que se apropriaram da moderna comunicação social e ensinam normas, regras, moralismos, religião sem compaixão, pois não conhecem a misericórdia. Mas as ovelhas carecem de testemunhas, de compaixão, solidariedade, humanidade; de pessoas que estejam ao seu lado defendendo a vida e a dignidade de filhos e filhas, mais do que regras morais.
Desta forma, além de recordar a nós que o Mestre nos envia em missão, a Comunidade de Mateus repete o encorajamento de Jesus de “não tenhais medo!”. A palavra final do Evangelho de hoje, entretanto, traz também um alerta muito especial: “todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus!” (Mt 10,33).
Amém!
Bom domingo e todos e todas!
