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A vez dos sem voz e sem vez

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Lc 1, 39-56

Por Sebastião Catequista, Cebi-PE[1]

Nesta semana somos chamados a meditar o texto bíblico em que narra a visita de Maria, mãe de Jesus, a sua prima Isabel. A narrativa é solene! Há muito que explorar no texto e nos seus paralelos com personagens e narrativas do Primeiro Testamento, entretanto, no contexto de hoje, sobretudo, para a divina liturgia romana, o texto lido se justifica pela memória litúrgica da solenidade da Assunção de Maria, dogma, afirmação de fé da tradição romana. Mas, o que podemos contemplar desse texto na atual situação pelo qual passa nosso país em vésperas de eleições?

É importante notar que, o texto fala de duas mulheres; uma idosa e uma jovem que têm em comum o processo da gravidez, mas não só isso, mas a gravidez de forma incomum. Também as duas são provincianas do interior sob a tutela dos romanos. Pobres, da zona rural, mulheres, mulheres sem expressividade social e política, ambas estão prestes a serem nas mãos do Eterno instrumentos de reviravoltas na história dos homens e da sociedade do seu tempo. O que carregam no ventre e a luz que darão, será para todo povo a Esperança cumprimento das profecias e da Presença do Reino do Eterno agindo na História. E, não pede licença aos grandes que nem sequer foram consultados. Como diz a canção: “Mas tem qualquer coisa de novo, surgindo no meio do povo!” (Pe. Zezinho)

É essa novo que vem surgindo que dá voz e vez aos pequenos, aos pobres, aos excluídos, que forja novas relações, que funda nova dinâmica de poder/serviço, que escancara as portas do reino para a inclusão. É esse novo que “armou sua tenda entre nós” (Jo, 1,14). Depois disso, em todas as épocas e lugares, o pobre, o excluído não foram mais os mesmos, por sua própria consciência se tornaram sujeitos de sua própria história e isso incomodou, incomoda mesmo agora, os grandes da história, os fortes, os grandes ricos, os poderosos e todos aqueles que na sua posição ou opção de vida, não abraçou e nem abraça esse outro lado: o movimento de irrupção e transformação libertador cujo anseio é ter vida, “vida em abundância” (Jo 10,10) para todos.

Nesse grande movimento espiritual da vida, dos pobres, dos excluídos, dos pequenos que irrompe na história, sua força está na fraqueza de uma mulher que é bem-aventurada (feliz, abençoada, amada) porque na sua insignificância soube dizer sim e por isso é elevada, é assunta, é aclamada como Bandeira-Esperança que é Mãe da Libertação: Jesus. Ela será sempre modelo de escuta, de resistência, de esperança e de acolhimento do Divino, cujo sagrado se revela nos corpos frágeis a gerar nova vida.

O texto para nossa meditação de Lc 1,39-56 é provocativo, porque nele vemos o agir de Deus onde menos se esperava e isso nos remete para o hoje de nossa história: onde está o agir de Deus na atual circunstâncias do nosso país? Deixo com você caro leitor essa resposta, mas seja qual for sua resposta, penso que um critério do profeta de São Feliz do Araguaia se faz pertinente: “na dúvida, fique do lado do pobre”. Ou como diz outro profeta das ruas paulistana dos dias atuais: “fique do lado dos perdedores!” Há qualquer coisa de novo, de assunção no meio do povo!

[1]     Sebastião Catequista é leigo; membro do CEBI PE; agente de pastoral; é membro do CONIC do Agreste de PE; a muitos anos cultiva a espiritualidade dos Padres e das Madres do Deserto na vida moderna e é praticante da Oração de Jesus. Atualmente milita também nos Movimentos Pastorais e Sociais da Diocese de Caruaru.