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A espiritualidade em um mundo que perdeu a alma

A espiritualidade em um mundo que perdeu a alma

Marcelo Barros

Há algum tempo, em meio a uma viagem, um chefe indígena confessou a um amigo que, nessa sociedade da aceleração, tinha medo de “perder a alma”. Precisava deter-se, conversar com a montanha e retomar a relação de intimidade com a Mãe-Terra, para recuperar a alma.

Um dos volumes do Diário de Pedro Casaldáliga tem como título: “Quando os dias fazem pensar”[1]. Agora, mais ainda, cada dia nos faz perceber mais profundamente, que o tipo de sociedade que vivemos não provoca apenas a perda da alma de alguém. Parece ser o próprio mundo que perdeu a alma.

Antes a alma do mundo estava aprisionada por religiões que absolutizavam uma cultura e excomungavam o diferente. O antigo povo andino que construiu Machu-Pichu, considerava aquela montanha “o umbigo do mundo”. Na Índia, a tradição hinduísta dizia que o rio Ganges deu origem ao universo e, de suas águas, emergia a vida. Na Bíblia, um salmo afirma que “todas as fontes brotam de Jerusalém” (Sl 87).

Toda cultura tende a considerar-se a única legítima. Ao tornar-se dominante, essa cultura considerará as outras como desvios. Foi assim que, durante séculos, a cultura da Cristandade ocidental legitimou conquistas e a colonização. Assim, sustentou, ideologicamente, o estatuto da escravidão e as guerras, assim como as perseguições aos hereges. Tudo, em nome de Deus. Essa cultura continua vigente na teologia dominante e no modo de organizar as Igrejas. Isso explica porque, muitos setores de Igrejas cristãs, católicos, evangélicos e pentecostais, apoiam projetos sociais e políticos de direita, que parecem mais religiosos do que os da sociedade laica e prometem mais prestígio para as hierarquias eclesiásticas.

Nesses dias, o candidato que, após perder a eleição, fugiu do Brasil, para não responder aos muitos processos judiciais, nos quais está envolvido, publicou uma carta com inúmeras inverdades e explicações mentirosas e concluiu a carta, afirmando: “E que Deus nos abençoe”.

Quem olha, criticamente, para a realidade atual percebe que o mundo que ofereceremos a geração de nossos filhos e netos, mesmo se tecnicamente, é mais cômodo e mais desenvolvido, é bem menos humano e mais cruel do que aquele que recebemos de nossos pais e avós.  Basta olhar as estatísticas de suicídios na juventude para dar-se conta disso.

No Brasil atual, muita gente declara-se incomodada com o que chamam de “polaridade” que, atualmente, divide pelo meio a população brasileira. A polaridade é criada por uma verdadeira indústria do ódio e violência, fabricada pela extrema-direita. Ela se aproveita da insegurança das pessoas e do desejo justo de mudanças mais radicais, para semear um discurso de autoritarismo e moralismo, que repete chavões contra a corrupção e contra os direitos humanos.

Essa extrema-direita provoca em seus próprios membros uma espécie de fascinação que os impede de pensar. Em geral, seus líderes são contra vacinas, mas, de fato, vacinam as pessoas contra qualquer racionalidade e capacidade de pensar. Em um campo de concentração nazista, o pastor Dietrich Bonhoeffer as definia como alunas e alunos da estupidez e afirmava: “A estupidez humana é mais perigosa do que a maldade. Contra o mal pode-se sempre protestar. O mal pode ser exposto. Pode ser revelado. (…) Já com a estupidez, é diferente. Não há como defender-se da estupidez. Não adiantam protestos. Nenhum raciocínio consegue convencer uma pessoa estúpida. Ela opta por seus próprios preconceitos e por mais que se mostrem fatos, não a convencerão” (ver: ihu.unisinos.br/categorias/592293-da-estupidez-dietrich-bonhoeffer-1943)

Aos que optam pela estupidez do preconceito, no lugar da confiança do amor, retomamos a palavra de Jesus para seus adversários: “”Muitas pessoas virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus, enquanto os que se consideram filhos do reino ficarão de fora” (Mt 8, 11- 12).

No contexto atual do Brasil e de um mundo, ferido por todo tipo de violência e guerras, o escândalo mais terrível é descobrirmos o papel das religiões e das Igrejas, nessa indústria do ódio. Se os rabinos chefes do Judaísmo fossem, claramente, contrários ao genocídio, que o Estado de Israel continua a cometer contra o povo palestino, sem dúvida, os governantes não poderiam manter a sua sanha assassina. Se as Igrejas Ortodoxas, russa e ucraniana, optassem por verdadeira espiritualidade da paz e garantissem no mundo uma profecia de amor, a guerra não teria lugar. Nas mais de 50 guerras que assolam o mundo, as religiões desempenham função lastimável.

A modernidade trouxe a república e a laicidade da vida. O aprofundamento bíblico revela que a própria fé cristã tem caráter profundamente laical. Jesus denunciou a opressão do poder religioso do seu tempo. Ao revelar que Deus é Amor e não poder, ele deslegitima todo tipo de clericalismo, seja cristão, islâmico, budista, ou do Candomblé. Por isso, foi assassinado, pelo poder político romano, a pedido do poder religioso.

De fato, os religiosos do tempo de Jesus e de todos os tempos, organizados na cultura da religião, ligada ao poder não poderiam agir diferentemente. Hoje, no Brasil, padres e bispos que defendem a barbárie e veem comunismo em qualquer projeto de comunhão estão mais coerentes com a estrutura na qual vivem e da qual dependem. Os diferentes e esquisitos somos nós, cristãos, que optamos pelo seguimento de Jesus, em seu testemunho sobre o projeto divino para o mundo, que os evangelhos chamam de “reino de Deus”. Os discípulos e discípulas do reino é que estão fora do lugar, como Jesus posicionou-se, criticamente, em relação à estrutura religiosa do seu tempo, como, nos primeiros séculos do Cristianismo, os mártires cristãos foram condenados pelo Império como ateus, quando a fé cristã ainda priorizava a profecia do Evangelho e não a religião ritualista do Império Romano com vestes e linguagem cristãs.

Em nossos dias, só uma espiritualidade profética, unida às culturas  originárias, indígenas e afrodescendentes, podem contrapor-se às estruturas da iniquidade e salvar o que resta de esperança para essa sociedade, condenada a sucumbir, sob o peso da desumanidade de uma economia sem alma. Durante tantos séculos e até agora, as espiritualidades originárias souberam ser força e luz para as comunidades indígenas e negras resistirem a toda desumanidade e protegerem a Mãe-Terra, às águas e toda a comunidade de vida no planeta Terra.

Neste mês da união e consciência negra, as comunidades eclesiais e grupos de base têm dois modelos simbólicos que se opõem: o da senzala e o do quilombo. A cultura religiosa da senzala alimenta-se do colonialismo introjetado na própria alma do povo oprimido. Sustenta-se com uma religião de devoções e crendices superficiais que dispensam as pessoas de pensarem criticamente. Entre seus próprios membros, a cultura religiosa da senzala refaz as relações de desigualdade e de hierarquia, que os opressores sempre impõem, em nome de Deus.

O modelo alternativo é a espiritualidade do quilombo, como cenáculo de resistência e comunidade que sabe: Deus que Jesus nos ensinou a chamar de Pai nosso não é narcisista. Não precisa de nossa adulação e nem exige nossa adoração. Quer sim que acolhamos a sua proposta e nos dediquemos a realizar o seu projeto de justiça e paz no mundo.

Fazer de nosso grupo eclesial e de base um quilombo espiritual exige recriar relações de igualdade e comunhão. Ensaia nas Igrejas e na sociedade na qual nos inserimos, um novo modo de ser Igreja e de ser comunidade, que é início do reinado divino no mundo.

[1] – Cf. CASALDÁLIGA, Pedro. Quando os dias fazem pensar. Memória, Ideário, Compromisso. São Paulo: Paulinas, 2007.