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Patologia do ódio

Patologia do ódio
18 de maio de 2018 CEBI Secretaria de Publicações

por Frei Betto*

Nem sempre foi assim no passado. As pessoas discordavam, mas não se odiavam. Mesmo durante a ditadura, divergências políticas não se transformavam necessariamente em antipatias pessoais.

O que sucede? Por que tanta virulência nas redes digitais? Por que xingar desafetos em locais públicos? Por que atirar na caravana do ex-presidente Lula e no acampamento de seus apoiadores?

Nossa racionalidade está esgarçada. A queda do Muro de Berlim fez desabar também as grandes narrativas. O otimismo de Montesquieu cedeu lugar ao niilismo de Nietzsche. A competitividade, exaltada pelo neoliberalismo, se erigiu em valor, desbancando a solidariedade.

Na Alemanha nazista, os supostos arianos se julgaram no direito de eliminar os “impuros”, como judeus, comunistas, ciganos e homossexuais.

Na Rússia de Stalin, os dissidentes padeciam na Sibéria ou eram sumariamente eliminados pela KGB. Nos EUA, os negros eram impedidos de frequentar escolas, restaurantes e transportes coletivos preferidos pelos brancos. E ainda há muitos ianques que se consideram uma raça superior.

A seletividade é uma anomalia do poder que traça limite entre os que estão a favor e os que se posicionam contra. Ora, discordar ou se opor é um direito intrínseco à democracia. Nas relações pessoais ou sociais, a imposição do pensamento único é sintoma de tirania.

Hoje, o esvaziamento das instituições abre espaço à animosidade pessoal. Diferenças e divergências não são debatidas apenas nos fóruns apropriados. A despolitização da sociedade faz com que a discordância se manifeste em “vendetta” individual. Não se contradiz o adversário, procura-se aniquilá-lo. Não se procura contra-argumentar, e sim esmagar. Como nos videogames, cada potencial inimigo deve ser virtualmente eliminado. Só a razão do poder prevalece.

As redes digitais nos empoderam. Permitem a cada usuário ter em mãos a sua tribuna de contestação. Já não se faz necessária a representação política. Nem as ideologias. As grandes narrativas cedem lugar às pequenas celeumas. A emoção sobrepassa a razão. Abdica-se da argumentação para adotar a ridicularização.

O linchamento virtual é o efeito dessa carência de ideias e propostas que traz à tona o ódio inflamado. O ego se arvora em supremo juiz e inviabiliza a alteridade. O outro só é percebido como reflexo da imagem de si projetada no espelho narcísico.

O que fazer? Primeiro, desarmar o próprio espírito. Não engrossar o raivoso exército dos que se julgam donos da verdade absoluta. Não transformar a diferença em divergência. Respeitar a singularidade alheia, ainda que ela questione meus valores. Poupar o coração do ódio, este veneno que se ingere na expectativa de que o outro morra.

Ora, o ódio só faz mal a quem acumula dentro de si este sentimento, jamais a quem é odiado. O preceito evangélico de “amar os inimigos” não significa condescendência com a injustiça, e sim abraçar a tolerância e empenhar-se em eliminar as causas que fazem com que seres humanos atuem como monstros cegos pelo paroxismo do mal.

Texto de Frei Betto, assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior. Publicado por Correio da Cidadania, 16/05/2018.