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Jesus quer que o povo diga a sua própria palavra

Jesus quer que o povo diga a sua própria palavra
3 de setembro de 2018 Centro de Estudos Bíblicos
Leia o comentário do evangelho sobre Marcos 7,31-37 escrito por Carlos Mesters e Mercedes Lopes. O título completo da reflexão é: Jesus quer que o povo diga a sua própria palavra e tenha critérios para filtrar o que escuta.
Boa leitura!

Situando

Jesus vai tentando abrir a mentalidade dos discípulos e do povo para além da visão tradicional. Na distribuição dos pães, ele tinha insistido na partilha (Marcos 6,30-44). Na discussão sobre o puro e o impuro, tinha declarado puros todos os alimentos (Marcos 7,1-23). No episódio da mulher cananeia (Marcos 7,24-30), ele ultrapassa as fronteiras do território nacional e acolhe uma mulher estrangeira que não era do povo judeu e com a qual era proibido conversar. Estas iniciativas de Jesus, nascidas da sua experiência de Deus com o Pai, eram estranhas para a mentalidade do povo da época.

A abertura crescente de Jesus era uma ajuda muito importante para as comunidades do tempo de Marcos. Elas eram um grupo pequeno, perdido naquele mundo hostil do Império Romano. Quando um grupo é minoria, sofre a tentação de se fechar sobre si mesmo. A atitude de abertura de Jesus era um estímulo para as comunidades não se fecharem, mas manterem bem viva a consciência missionária de anunciar a Boa Nova de Deus a todos os povos, como Jesus tinha pedido com tanta insistência.

Comentando

Marcos 7,31-36: Abrir o ouvido e soltar a língua

O episódio da cura do gago é pouco conhecido. É um texto que somente encontramos em Marcos. Jesus está atravessando a região da Decápole. Decápole significa, literalmente, Dez Cidades. Era uma região de dez cidades ao sudeste da Galileia, cuja população era pagã. Um surdo gago é levado a Jesus. O jeito de curar é diferente. O povo queria que Jesus apenas impusesse as mãos sobre ele. Mas Jesus foi muito além do pedido. Ele levou o homem para longe da multidão, colocou os dedos nas orelhas e com saliva tocou na língua, olhou para o céu, fez um suspiro profundo e disse: “Éffata!”, isto é, “Abra-se!” No mesmo instante, os ouvidos do surdo se abriram, a língua se desprendeu e o homem começou a falar corretamente. Jesus quer que o povo abra o ouvido e solte a língua. Quer que o povo diga a sua própria palavra e tenha critérios para filtrar o que escuta. Todo o povo ficou muito admirado e dizia: “Ele fez bem todas as coisas” (Marcos 7,37). Esta afirmação do povo faz lembrar a criação, onde se diz: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gênesis 1,31).

Marcos 7,37: Jesus não quer publicidade

Ele proibiu a divulgação da cura. Mas não adiantou nada. Quem teve experiência de Jesus vai contar para os outros, queiram ou não queiram. As pessoas que assistiram à cura começaram a proclamar o que tinham visto e resumiram a Boa Notícia assim: “Ele fez bem todas as coisas”.

Às vezes, se exagera a atenção que o Evangelho de Marcos atribui à proibição de divulgar a cura, como se Jesus tivesse um segredo a ser preservado. Na maioria das vezes em que Jesus faz um milagre, ele não pede silêncio. Uma vez até pediu publicidade (Marcos 5,19). Algumas vezes, porém, ele dá ordem para não divulgar a cura (Marcos 1,44; 5,43; 7,36; 8,26). Porém, obtém o resultado contrário. Quanto mais proíbe, tanto mais a Boa Nova se espalha (Marcos 1,28.45; 3,7-8; 7,36-37). Não adianta proibir, pois a força interna da Boa Nova é tão grande que ela se divulga por si mesma.

Alargando

Abertura para os pagãos no evangelho segundo Marcos

Na época do AT, na rivalidade entre os povos, um povo costumava chamar o outro de “cachorro” (1 Samuel 17,43). Isto fazia parte da relação conflituosa que eles tinham entre si, na terra de Canaã, para formar um povo novo com direito à terra, à vida e à identidade própria. O enfrentamento entre Golias, o gigante filisteu, e Davi, o pastorzinho israelita, é uma amostra desta situação. Para Davi, vencer o filisteu pagão era salvar a honra tanto do povo israelita como do Deus vivo (1 Samuel 17,26). Quando Davi se aproxima para a luta sem as armas tradicionais, mas apenas com um bastão, Golias pergunta: “Será que sou um cachorro?” (1 Samuel 17,43).

Ao longo das páginas do evangelho segundo Marcos, há uma abertura crescente em direção aos outros povos. Assim, Marcos leva os leitores e as leitoras a abrir-se, aos poucos, para a realidade do mundo ao redor e a superar os preconceitos que impediam a convivência pacífica entre os povos. Eis exemplos:

A mulher siro-fenícia era uma pagã (Marcos 7,26). No passado, nos tempos da rainha Jezabel e do profeta Elias, tinha havido rivalidade entre Israel e o povo da Fenícia ou de Canaã. Mas agora, a mulher não está preocupada com as rivalidades do passado. Ela busca a libertação para a sua filha, dominada por um demônio (Marcos 7,26). Escuta falar de um judeu que tem o poder de Deus para libertar do mal. Aqui, já não importam os preconceitos raciais. O que importa é a vida ameaçada da filha, vida oprimida que precisa ser libertada.

Na sua passagem pela Decápole, região pagã, Jesus atende ao pedido do povo do lugar e cura um surdo gago. Ele não tem medo de contaminar-se com a impureza de um pagão, pois, ao curá-lo, toca-lhe os ouvidos e a língua. Enquanto as autoridades dos judeus e os próprios discípulos têm dificuldades de escutar e entender, um pagão que era surdo e gago passa a ouvir e a falar pelo toque de Jesus. Lembra o cântico do servo: O Senhor Javé abriu-me os ouvidos e eu não fui rebelde (Isaías 50,4-5).

Ao expulsar os vendedores do templo, Jesus critica o comércio injusto e afirma que o templo deve ser casa de oração para todos os povos (Marcos 11,17). Fazendo assim, ele resgata a profecia de Isaías que estendia a salvação aos estrangeiros e manda abolir as restrições da lei que proibia a participação de eunucos, bastardos e estrangeiros na assembleia de Javé (Isaías 56,3; Deuteronômio 23,2-9).

Na parábola dos vinhateiros homicidas, Marcos faz alusão ao fato de que a mensagem será tirada do povo eleito, os judeus, e será dada aos outros, aos pagãos (Marcos 12,1-12). Depois da morte de Jesus, Marcos apresenta a profissão de fé de um pagão ao pé da cruz. Ao citar o centurião romano e seu reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, está dizendo que o pagão é mais fiel do que os discípulos e mais fiel do que os judeus (Marcos 15,39).

A abertura para os pagãos aparece de maneira muito clara na ordem final dada por Jesus aos discípulos, depois da sua ressurreição: Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura (Marcos 16,15).

Texto partilhado pelo autor e pela autora.