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Encontro discute mudança do clima, qualidade das sementes e promove feira de trocas

Encontro discute mudança do clima
Encontro discute mudança do clima, qualidade das sementes e promove feira de trocas
6 de agosto de 2014 Centro de Estudos Bíblicos
No encontro organizado pela Associação Rede de Sementes do Xingu e pelo Instituto Socioambiental (ISA), entre 31 de julho e 2 de agosto, com apoio da Articulação Xingu Araguaia (formada pela Ansa, ATV, CPT, ISA e Opan), os participantes conheceram e trocaram mais experiências sobre iniciativas econômicas sustentáveis a partir da coleta de sementes e produtos da sociobiodiversidade.

No debate, os coletores alertaram sobre as alterações que a natureza vem sofrendo, o que impacta a capacidade de planejamento de produção e manejo, e, consequentemente, a entrega das sementes. “As lavouras de soja estão passando por cima de tudo, a água, a terra, o clima está diferente e parece que as pessoas não estão se importando”, disse Francisco, coletor do assentamento Dom Pedro Casaldáliga, em São Felix do Araguaia, MT. “Na nossa área o número de mirindiba está diminuindo e assim nós temos que plantar essas espécies”, disse Odete Severino, de Bom Jesus do Araguaia.

 
Qualidade das sementes

O coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA, Rodrigo Junqueira, apresentou os desafios a serem enfrentados e os participantes discutiram os resultados de uma pesquisa encomendada pela Rede, que diagnosticou os pontos fortes, fracos e as ameaças da Rede. Os debates também abordaram a qualidade das sementes, apontada como um elemento que deve sempre ser melhorado.

Nesse sentido, o laboratório de sementes florestais inaugurado em maio, fruto de uma parceria entre a Rede de Sementes e a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), campus de Nova Xavantina, vai permitir que se conheça mais profundamente as características fisiológicas de algumas espécies coletadas.

Nesse caminho pela adequação, ficou definido que o próximo passo da Associação da Rede de Sementes do Xingu será o seu credenciamento como Produtora de Sementes Florestais, junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O objetivo é que até o final do ano seja emitido o Renasem, Registro Nacional de Sementes e Mudas.

A Rede de Sementes mantém a parceria iniciada há três anos com a Organização Ecosocial do Araguaia, Oeca. A organização administra um fundo de microcrédito para a Rede, onde os coletores, em grupo, acessam recursos para apoiar o trabalho da coleta, beneficiamento e atividades correlatas.

 
A coordenadora da Oeca, Dudi Oliveira, conversou com os coletores e ouviu as suas experiências com a utilização do crédito. “A rotatividade do crédito se dá pelo uso e pelo retorno do recurso, assim quanto mais acessam e pagam, mais os coletores podem acessar”, afirmou Dudi. O coletor Ivan, de Canarana, incentivou os coletores a acessarem o Fundo. “Coleto num raio de 60 km e o crédito fez a diferença, pois o utilizei para custear as despesas com o combustível”.

Para além dos plantios

Pelo quarto ano consecutivo, a professora Fátima Piña Rodrigues, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), esteve no encontro. Dessa vez, ela apresentou a iniciativa da Rede de Sementes Rioesba que começou a investir em artesanato com as sementes que perderam capacidade de germinação durante o processo produtivo. “Para o artesanato é preciso talento e mercado, mas essa é uma oportunidade para que os coletores explorem mais as possibilidades dos trabalhos com as sementes”, enfatizou. Durante a oficina, os participantes, em grupos, criaram suas próprias peças e aprenderam uma técnica de furar sementes com o povo Kaiabi.

Os participantes também conheceram mais produtos da sociobiodiversidade relacionados com as sementes florestais. Ouviram a experiência do povo Kisêdjê do Xingu, que implantou um sistema de extração de óleo de pequi, de forma a incorporar máquinas ao método tradicional. Para garantir a matéria prima, a comunidade está reflorestando áreas degradadas de fazendas remanescentes dentro da Terra Indígena Wawi, com sementes de pequi. Os Kisêdjê também estão aproveitando os plantios de pimenta da comunidade para comercializar o excedente.

 
Wareaiup Kaiabi, coordenador da Associação Terra Indígena Xingu, falou sobre o mel dos Índios do Xingu, produzido por apicultores indígenas do Parque Indígena do Xingu, e comercializado pela Atix em parceria com a rede de supermercados Pão de Açúcar. Maria da Graça, extrativista em Altamira (PA) e Fabiola Silva, engenheira agrônoma do ISA Altamira, apresentaram o trabalho realizado nas reservas extrativistas (Resex) daquela região. Com apoio do ISA e de organizações parceiras, essas comunidades estão produzindo mais de 15 subprodutos das árvores e sementes da Amazônia, entre óleos, artesanatos e alimentos.

Saberes compartilhados

Durante o encontro foi distribuída a cartilha Coletar, Manejar e Armazenar as Experiências da Rede de Sementes do Xingu, elaborada a partir da experiência e conhecimento dos coletores. Liderados pela professora Fátima, os participantes realizaram uma atividade para conhecer o conteúdo da publicação na qual tinham de procurar a resposta para oito perguntas relacionadas à produção de sementes. “Foi muito bom, porque a gente vai levar esse material para os outros coletores, que também vão ver que o nosso trabalho está sendo reconhecido. A gente vê na cartilha que eles nos ouviram, e assim quando alguém tiver uma dúvida pode ir lá ver como que faz”, disse a coletora Cleusa, de Bom Jesus do Araguaia.

Representantes de algumas organizações parceiras como o Funbio, o Fundo Vale e a Embrapa Agrosilvipastoril de Sinop participaram do encontro, além de convidados da Rede de Sementes do Cerrado e dos Extrativistas das Resexs da Terra do Meio, Altamira (PA). Ingo Isernhagen, pesquisador da Embrapa, apresentou alguns projetos de restauração desenvolvidos pela entidade. “A muvuca abriu caminho para a pesquisa, e com o método de semeadura direta você tem menos perdas que com a muda, mas ainda não é possível saber quantas sementes vão nascer em cada hectare, ainda precisamos estudar mais a muvuca, pois ela oferece muitas oportunidades”, avaliou.

 
“Desse trabalho em rede, dos conhecimentos dos coletores e de suas experiências com a preservação das sementes surgiu a necessidade de fortalecer um espaço dentro da Rede para a troca de sementes, visando a soberania alimentar”, explicou Claudia Araújo, diretora da Associação da Rede de Sementes do Xingu e agente da CPT Mato Grosso. Na Feira de Sementes, realizada durante o encontro, cada pessoa que trouxe semente crioula contou um pouco da história da variedade. Foi feito o cadastro das sementes que foram distribuídas e de quem as levou, para poder acompanhar o crescimento dessas sementes na região.

 
Foram doadas e trocadas sementes de muitas variedades de milho, feijão, batatas, abóbora crioula, mamão, açafrão, além de espécies nativas do Cerrado como merindiba e abíú. Alguns carregam essas sementes há décadas nas famílias, como o coletor Pedro, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, em Bom Jesus do Araguaia (MT), que planta uma espécie de feijão há mais de 20 anos.

Na noite cultural foram entregues lembranças para os grupos e coletores que se destacaram pela organização, pela qualidade de suas sementes e por entregar a quantidade de sementes que foi pedida. Foram expostos artesanatos dos indígenas do Xingu, dos Karajá e Xavante, cerâmicas, pulseiras, colares, esteiras, mel do Xingu, pimenta do povo Kisêdêje, e bordados e quadros das mulheres assentadas. Um concurso de forró embalou a noite do grupo ao som da sanfona do seu Placides, um dos coletores da Rede. Os participantes gostaram da ideia e provavelmente o concurso será incluído na programação dos próximos encontros.