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Amem-se uns aos outros (Jo 13,31-35) – [Tomaz Hughes e Carlos Mesters]

Amem-se uns aos outros (Jo 13
O texto situa-se no contexto do último Discurso de Jesus, na Ceia Pascal. Começa logo após a saída de Judas para trair Jesus, depois que Jesus lhe disse "o que você pretende fazer, faça-o logo" (Jo 13, 27). Com a licença oficial dada ao agente de Satanás para iniciar o processo que iria matá-lo, Jesus começa o processo da sua glorificação.
A sua fidelidade ao projeto do Pai vai levá-lo à Cruz, que, no Quarto Evangelho, não é um sinal de derrota, mas da vitória última e permanente de Deus. Por isso, a morte de Jesus, aparente vitória do mal, será a glorificação de Jesus, e nele, do Pai. O anúncio da sua partida, para os judeus uma ameaça (v 33), é para a comunidade dos seus discípulos um momento de emoção e carinho. A sua última dádiva a eles é um novo mandamento: "eu dou a vocês um novo mandamento: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros."(v 34).

O que há de novo neste mandamento?

O que diferencia a proposta de amor de Jesus e dos seus seguidores de outras propostas já conhecidas? O mundo do tempo de Jesus, tanto na sociedade pagã como judaica, conhecia propostas de amor mútuo. O mandamento de Jesus é novo em primeiro lugar porque ele se impõe como exigência essencial para entrar na comunidade "escatológica".

Essa é a comunidade que já experimenta a presença do Reino de Deus, mesmo que ainda espere a sua plena realização, ou seja, uma comunidade que experimenta a salvação já realizada em Jesus, enquanto ainda experimenta a sua situação permanente de fraqueza. Também é novo, porque não se fundamenta nas leis sobre o amor, da tradição judaica (p. ex. Lv 19, 18, ou os documentos do Qumrã), mas na entrega de si, de Jesus.

O modelo deste amor é o exemplo do próprio Jesus "assim como eu vos amei!". E como ele nos amou? Entregando-se até a morte, para que todos pudessem "ter a vida e a vida plenamente" (Jo 10,10). Este amor não é sinônimo de simpatia ou sentimento de atração. Exige humildade e a disposição para o serviço que leva a morrer pelos outros.

Este "morrer" normalmente não se expressa através duma morte literal, mas morrendo diariamente ao egoísmo e à busca do poder dominador, para que sejamos servidores, especialmente dos mais humildes, ao exemplo do Mestre que "não veio para ser servido, mas para servir" (cf. Mc 10,45).

Este amor e tão fundamental para a comunidade dos discípulos de Jesus que deve ser tornar o seu sinal característico: "assim todos reconhecerão que vocês são meus discípulos" (v. 35). Mais do que uma lista de doutrinas, mais do que práticas litúrgicas ou rituais, embora essas tenham o seu lugar e a sua importância, é o amor mútuo e concreto que deve distinguir os discípulos de Jesus.

Atos dos Apóstolos nos lembra que "foi em Antioquia que os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de "cristãos". (At 11,26). Receberam uma nova designação, da parte dos outros, porque a sua maneira de viver era marcadamente diferente das outras comunidades religiosas da cidade – era marcada pelo amor mútuo.

O Evangelho de hoje nos convida para que honestamente nos examinemos a nós mesmos, para verificar se este amor-serviço ainda é a marca característica de nós, discípulos/as de Jesus, na nossa vida individual e comunitária!

O Livro da Glorificação e a hora de Jesus*

O Livro da Glorificação e a hora de Jesus (Jo 13,1 a 20,31) é chamado assim porque mostra a realização plena de tudo que Jesus vinha prometendo enquanto fazia os sete sinais nos capítulos anteriores. O Livro da Glorificação começa com esta frase: "Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13,1), Finalmente. checou a hora de Jesus ser glorificado pelo Pai (Jo 12,23.27-28; 13.31; 17,1) e de de nos revelar o verdadeiro rosto do Pai, que é o Amor (Jo 4,8.16). A frase mostra que Jesus está disposto a levar até o fim sua obra de revelar o amor do Pai. A hora de Jesus é a hora do seu retorno para o Pai.

Como esta hora foi fixada pelo próprio Pai, ninguém sabe o momento exato em que ela acontecerá. Por isso, no Evangelho de João, na medida em que vamos acompanhando a caminhada de Jesus cresce o suspense com relação à chegada da hora de Jesus. Este suspense atinge seu ponto máximo em Jo 7,1: "Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho para que teu Filho te glorifique!"

A dinâmica do texto do Quarto Evangelho vai preparando o leitor para que ele mesmo possa descobrir o momento certo da chegada desta hora. O suspense começa nas bodas de Cana. Diante do pedido de sua mãe. Jesus diz que sua hora ainda não chegou (Jo 2,4). Mas a atuação de Maria mostra que a caminhada em direção à hora já foi iniciada e os sinais começam a surgir. Diante da samaritana Jesus diz que "virá a hora – e é agora – em que surgirão os verdadeiros adoradores do Pai" (Jo 4,23). Os sinais de Jesus aumentam o suspense. Por duas vezes, os inimigos querem prendê-lo, mas ainda não tinha "chegado a sua hora", e a prisão não acontece (Jo 7,30 e 8,20). Para o evangelista não são os inimigos, mas sim o Pai quem determina a hora de Jesus. Quando chegar a hora da eles ação do Filho do Homem, acontecerá, ao mesmo tempo. a glorificação de Jesus e a derrota de seus adversários (Jo 12,31-32).

Os sinais feitos por Jesus levam seus inimigos a planejar sua morte (Jo 11.45-54). Jesus sabe então que sua hora está chegando (Jo 12,23.27; 13,1:16,32). A tensão entre ele e seus adversários culmina na sexta hora,no momento em que se sacrificavam os cordeiros para a Páscoa (Jo 19,14). Nesta hora Jesus, o novo Cordeiro de Deus, inaugura a nova Páscoa. Este exato momento entre a hora de Jesus como o novo Cordeiro e sua gloriosa subida para o mundo do alto é descrito com belas imagens em Ap 5,5-14.

Para as comunidades do Discípulo Amado também chegará a hora, Para cada discípulo ou discípula o encontro com Jesus acontece numa hora marcante e inesquecível (Jo 1.39). Mas o suspense que existiu entre Jesus e o mundo também continuará a existir entre a comunidade e o inundo. Para a comunidade chegará uma hora semelhante à de Jesus (Jo 16.2. Esta hora significa perseguições e morte (Jo 16,4). Diante do exemplo deixado por Jesus. as comunidades chegarão. através desta hora, à alegria que vem de Deus (Jo 16.21-22).

* Texto extraído do livro RIO-X DA VIDA – Círculos Bíblicos do Evangelho de João. Coleção A Palavra na Vida 147/148. Autoria de Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino. CEBI Publicações. Saiba mais com vendas@cebi.org.br

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