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“Quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus” (Lc 9, 51 –62) [Tomaz Hughes SVD]

“Quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus” (Lc 9
“Quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus” (Lc 9, 51 –62) [Tomaz Hughes SVD]
20 de junho de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
No esquema do Evangelho de Lucas, o segundo grande bloco vai de 9, 51 até 19, 28, e consiste em seguir o caminho de Jesus e os seus discípulos, rumo a Jerusalém.  Nestes capítulos Jesus educa os seus discípulos sobre o que significa segui-lo, acreditar nele.  Logo antes da viagem tem a frase “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (9, 23).  No trecho de hoje, Jesus vai explicitar de novo as exigências para quem quer assumir os desafios do Reino no seu seguimento.

No início, Lucas enfatiza que Jesus “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”.  Aqui não se trata somente de decidir de fazer uma viagem, de participar de uma peregrinação.  Muito mais é a decisão de seguir a sua missão até as últimas consequências, pois Jerusalém será o local do conflito final entre as forças do Reino e do anti-Reino, o local da sua morte e ressurreição.  Daqui para frente Jesus assume mais ainda o papel de pedagogo divino, mostrando pela sua palavra e ações, pela sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, o caminho que leva ao Pai.

Esta tarefa de educação dos discípulos implica todo um trabalho de mudar a mentalidade deles, formada pela religião e ideologia reinantes.  Inicia-se com o incidente da aldeia samaritana que não quis recebê-los.  Havia séculos existia uma rixa entre judeus e samaritanos.  Por causa da mistura de raças desde a ocupação assíria da Samaria depois de 721 a.C., (cf.  II Rs 17, 24-41), os samaritanos eram desprezados pelos judeus.  Da sua parte, os samaritanos tinham uma grande raiva dos judeus desde que o rei asmoneu João Hircano destruiu duas vezes o seu Templo no Monte Garazim, no fim do segundo século a.C.  Os discípulos, representados por João e Tiago, querem demonstrar o seu poder, pedindo que Deus destruísse a aldeia – mostrando que a sua concepção do messianismo de Jesus era de poder política e de dominação.  Jesus os repreendeu, pois o Reino de Deus não se constrói como os reinos terrestres, com força de armas e dominação, mas com doação e solidariedade.

Os versículos 57-62 continuam com a lição sobre a natureza do discipulado.  Diante de três possíveis seguidores, Jesus desmancha as suas ilusões, mostrando que o seguimento dele exige disponibilidade total, tanto dos bens materiais, como de outras seguranças humanas, como a família e os laços afetivos, coisas boas em si.  Nos faz lembrar do chamado dos primeiros discípulos no início do Evangelho, que tiveram de deixar a segurança do emprego, “deixando tudo” em Lc 6, 11.  Também nos recorda o cego Bartimeu, que em Mc 10, 50, antes de ser curado da cegueira, tem que lançar fora o seu manto – símbolo da sua única segurança.  Para seguir Jesus temos sempre que deixar alguma segurança. A nossa tendência humana é de querer seguir Jesus, sem que nos custe algo, colocando a nossa fé e confiança nas seguranças humanas e não nos valores do Reino.
 
Ou seja, um seguimento dentro de uma prática religiosa acomodada, confortável, que pouco ou nada tem a ver com o desafio de Jesus para que “peguemos a cruz todos os dias e o sigamos” (Lc 9,23).  A radicalidade do discipulado – que não é privilégio de uma elite religiosa, mas que provêm do batismo – é sublinhada nos últimos versículos do texto de hoje: “quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus”(v. 62).  Faz eco a outras frases evangélicas “Não se pode servir a dois mestres” (Mt 6,24), “Não é possível servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), “vende tudo o que tens, dá os pobres e segue-me” (Lc 18,22) .  Ser discípulo/a de Jesus envolve toda a nossa vida, não é uma adesão intelectual somente, mas uma mudança radical em nossa maneira de ver e julgar a realidade ao nosso redor, e de agir diante dela.  Ser cristão não é ter uma religião de consolações, mas o consolo de uma religião que nos compromete com o projeto do Pai e de alguma maneira nos levará até a Cruz – e a Ressurreição.  É deste tipo de seguimento que o nosso mundo de hoje tanto precisa.  Cabe a cada um/a descobrir o que este desafio significa na prática, na realidade da sua vida.

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