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A individualização do sujeito e os desafios da leitura bíblica hoje – Entrevista com Carlos Mesters e Francisco Orofino

A individualização do sujeito e os desafios da leitura bíblica hoje – Entrevista com Carlos Mesters e Francisco Orofino
19 de outubro de 2020 Comunicação

Por ocasião  do aniversário de 89 anos do Frei Carlos Mesters, a ser celebrado nesta terça feira(20),  publicamos aqui uma entrevista  que ressalta a importância e o pioneirismo do Frei Carlos Mesters no método da Leitura Popular da Bíblia(LPB), como ferramenta de promoção da vida e da organização comunitária.

A entrevista,  publicada na Revista do Instituto Humanitas-Unisinos, edição 412/18 de dezembro de 2012 , é com o Frei Carlos Mesters e  Francisco Orofino, ambos do  CEBI  e com  várias publicações conjuntas pelo CEBI Editora.  Segue a entrevista.

 

A individualização do sujeito e os desafios da leitura bíblica hoje

Márcia Junges

 

Pioneiros nos trabalhos do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, Francisco Orofino e Carlos Mesters recordam a formação do movimento popular de leitura e compreensão da bíblia a partir da vida “O CEBI não cria grupos, mas os articula”, destacam Mesters e Orofino

Na década de 1970, a leitura popular da bíblia ganhava proporções maiores com a dedicação do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, que passou a assessorar as comunidades em suas demandas pela compreensão da Escritura através do cotidiano de homens e mulheres do povo. “O diferencial na metodologia do CEBI é que a bíblia não é a coisa mais importante. O mais importante é a vida, e o que você faz dela”, disseram Carlos Mesters e Francisco Orofino na entrevista que concederam pessoalmente à IHU On-Line por ocasião do Congresso Continental de Teologia, realizado em outubro na Unisinos. “A leitura da bíblia deve fazer você sair de você mesmo, criar laços afetivos, solidificar aquilo que o texto sagrado chama de comunhão concreta com as pessoas. Por isso a leitura em grupo é integrante da metodologia. Não se trata de ler sozinho”, argumentaram. Eles explicam que o CEBI nunca teve um grupo majoritário forte. “Seu trabalho sempre se deu nas periferias. Em cada estado floresceu um rupo do CEBI. É como as doze tribos de Israel, que não tinham um poder central. Isso dá a ideia de rede”. Mesters e Orofino destacam que o grande desafio da leitura bíblica no século XXI é a cultura urbana da individualização, através da qual as pessoas se isolam de uma vivência comunitária. Essas e outras temáticas foram abordadas pela dupla dentro da programação do Congresso Continental de Teologia, e podem ser lidas nas Notícias do Dia 10-10-2012, no site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU sob o título A leitura popular da Bíblia e a besta neoliberal, disponível em http://bit.ly/QWQfQQ.

Francisco Orofino é biblista e educador popular. Assessora grupos populares e comunidades de base nos municípios da Baixada Fluminense. É autor de vários livros e leciona em Institutos de Teologia voltados para a formação de leigos. Fez doutorado em Teologia Bíblica na PUC-Rio (2000). É professor de Teologia Bíblica no Instituto Paulo VI, na diocese de Nova Iguaçu-RJ.

Carlos Mesters é frei carmelita, doutor em Teologia Bíblica. É natural da Holanda e ligado à caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, ajudou a criar o CEBI e escreveu, entre outros, Esperança de um povo que luta (São Paulo: Paulus, 1983), Círculos bíblicos (São Paulo: Paulus, 2001), Paulo apóstolo: um trabalhador que anuncia o evangelho (São Paulo: Paulus, 2002), Bíblia: livro feito em mutirão (São Paulo: Paulus, 2002), e Por trás das palavras (Petrópolis: Vozes, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual foi a gênese do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI? Como o CEBI tem contribuído com as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs?

Carlos Mesters e Francisco Orofino – Como um ser humano que quando nasce já viveu nove meses, o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI já existia quando nasceu. Isso porque o povo já estava lendo a Bíblia em suas comunidades. As pessoas começaram a lê-la a partir do único livro que existe: a vida. Então, passam a entender a existência a partir da Escritura. Isso se dava na época da ditadura militar, com todo sofrimento que esse período produziu. Percebeu-se que a leitura da Bíblia era uma força muito grande. Havia um grupo de padres, leigos, homens, mulheres, católicos, metodistas e luteranos que se reuniam umas duas vezes ao ano e falavam que a leitura que o povo estava fazendo era importante. Contudo, percebiam que era preciso se articular mais para ajudar o povo. Era, então, o ano de 1979. Decidiu-se fazer três tipos de encontros de formação: em nível nacional, com duração de um mês, em nível regional, de dez dias, e outros em nível local, nos finais de semana.

Dimensão comunitária

Quando programamos o primeiro curso de um mês, elaboramos 28 temas da Bíblia para discutirmos. Foi uma estupidez termos feito isso. Quando os 20 participantes chegaram e apresentamos o programa, disseram que não queriam aquilo. Pediram para refletir suas problemáticas à luz da Bíblia. Assim, se dividiram em quatro grupos de cinco pessoas cada e escolheram representantes. Assim, começaram a programar quais as dificuldades que havia em sua leitura e como isso seria respondido.

Todas as noites havia uma reunião sobre as atividades daquele dia e um planejamento para o próximo dia. O método de partir das dificuldades concretas da vida das pessoas e então ir para a Bíblia trouxe luz aos encontros. Esse foi o método que Jesus usou. Quando Jesus encontrou aquele pessoal na estrada de Emaús, ele não deu aulas de Bíblia. Ele perguntou qual era o problema, por que estavam tristes. A dimensão comunitária é que abriu os olhos das pessoas. Assim, voltam para Jerusalém, superam o medo e a divisão. O diferencial na metodologia do CEBI é que a Bíblia não é a coisa mais importante. O mais importante é a vida, e o que você faz dela.

Evangelização em rede

A leitura da Bíblia deve fazer você sair de você mesmo, criar laços afetivos, solidificar aquilo que o texto sagrado chama de comunhão concreta com as pessoas. Por isso é que é parte integrante da metodologia a leitura em grupo. Não se trata de ler sozinho. E se você ler sozinho, deve se sentir em comunidade. Então, a primeira coisa da metodologia é a importância do trabalho comunitário de interpretação em grupo. A própria Bíblia diz que o testemunho de dois é verdadeiro, e nunca o de um só. Por isso, quando Jesus enviava seus discípulos, fazia-o em duplas. É importante que as pessoas se sintam em relação, em rede, e não isoladas. O maior instrumento de evangelização para Jesus é a rede, porque ele nunca chama ninguém para ser pastor, mas para ser pescador. E o instrumento do pescador é a rede, símbolo do trabalho em conjunto. Em segundo lugar, se você realmente percebe que a coisa mais importante é a vida, começa-se a interpretar a Bíblia através da vida, de sua defesa e proteção…
Em terceiro lugar, o método deve nos levar a captar o espírito que se esconde na letra, porque a leitura bíblica é profundamente espiritual no sentido de que vivemos no espírito. Temos que viver no espírito. É preciso caminhar juntos, defender a vida e defender o espírito.

IHU On-Line – E hoje, qual é a realidade da CEBs? Quais os desafios e possibilidades?

Carlos Mesters e Francisco Orofino – O CEBI nunca teve um grupo majoritário forte. Seu trabalho sempre se deu nas periferias. Em cada estado floresceu um rupo do CEBI. É como as doze tribos de Israel, que não tinham um poder central. Isso dá a ideia de rede. O CEBI está presente em quase todo o território nacional, mas cada estado se articula em rede, que é articulada pelo Conselho. Na verdade, o CEBI existe onde há uma comunidade, que, através do texto bíblico e olhando sua realidade, consegue articular os desafios da realidade com o que pede o texto. Essa leitura é profundamente teológica. As comunidades de Bíblia na mão vão fazendo sua própria teologia a partir de onde elas se situam. Elas se constituem como comunidades de igreja, eclesiais, portanto a contribuição das CEBs para a Teologia da Libertação é isso que elas estão fazendo com a Bíblia na mão. A Teologia da Libertação é a sistematização do que as comunidades estão fazendo. Se um teólogo ou uma teóloga em seu trabalho de sistematização não consegue captar isso, não é Teologia da Libertação. Porque o que é verdadeiramente Teologia da Libertação são comunidades de Bíblia na mão tentando compreender os desafios de sua realidade.
O CEBI não cria grupos, mas os articula. São grupos que fazem a leitura popular da bíblia a partir de uma organização popular. O objetivo maior do CEBI é permitir que o povo das comunidades conheça e se aproprie da Bíblia. Na década de 1970, a Bíblia no Brasil estava presente mais nos grupos protestantes pentecostais. Nos grupos católicos ela estava somente começando. O CEBI ajudava os grupos a se apropriarem dos conteúdos para poderem conquistar o livro através da sua leitura. Outro motivo era para continuarem firmes na caminhada de resistência da época particularmente difícil da ditadura brasileira. A leitura do CEBI busca animar a caminhada das CEBs.

IHU On-Line – Quais são os maiores desafios da leitura bíblica em nossos dias?

Carlos Mesters e Francisco Orofino – Não existe nada mais ecumênico do que a vida. A verdadeira religião é aquela que defende a vida. Toda religião que provoca a morte não vem de Deus. Toda proposta religiosa que busca a individualização não vem de Deus.

O maior desafio da leitura bíblica é que hoje vivemos uma cultura urbana, centrada num processo de individualização. A pessoa luta para se bastar a si mesma e se afastar dos outros, pois eles prejudicam seu projeto pessoal. Se você vive sozinho, tudo aquilo que você ganha, acumula, é seu. Já o casamento implica em partilha. Se nasce um filho, tem-se gastos. Então, para muitas pessoas é melhor não tê-los. É essa cultura urbana que nossa leitura bíblica está enfrentando. A primeira coisa mais difícil é o processo de individualização que quebra o método da leitura em grupo, comunitária. Para que se possa individualizar você se torna extremamente dependente da tecnologia. Fala-se em dependência de drogas como um dos maiores problemas da sociedade. Mas acreditamos que não é isso. Existe, também, a dependência tecnológica, que promove a individualização. Existe hoje uma série de convites para fazermos cursos virtuais, mas isso quebraria o método. Interagindo por computador você estará ainda sozinho. Isso seria privilegiar o virtual em detrimento do real. O real é a materialidade da pessoa, com a qual tenho de conviver e partilhar. Essa é a segunda besta, consumista e profundamente dependente da técnica. Mas ela não pode permitir que as pessoas se isolem.

Leia mais…

Francisco Orofino já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

• Jesus: um apaixonado por Deus e pelas pessoas. Entrevista publicada na Revista IHU On-Line, edição 336, de 06-07-2010, disponível em http://migre.me/aU5ly

• Uma leitura bíblica libertadora e ecumênica a serviço da vida. Entrevista publicada na Revista IHU On-Line, edição 296, de 08-06-2009, disponível em http://migre.me/aU5ri

• Leitura bíblica a serviço da vida: libertadora e ecumênica. Entrevista publicada na Revista IHU On-Line, edição 404, de 05-10-2012, disponível em http://bit.ly/RNKV0O

Carlos Mesters já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

• A Palavra está presente em todos os setores da vida da Igreja. Entrevista publicada na Revista IHU On-Line, edição 278, de 21-10-2008, disponível em http://bit.ly/W8FzO2

 

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