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As Bem-aventuranças: a santidade que floresce na história e derrota a morte

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Por Hermes A. Fernandes

A celebração de Todos os Santos, em 1º de novembro, e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, no dia seguinte, convidam-nos a contemplar a vida humana à luz da esperança Pascal. Enquanto recordamos homens e mulheres que testemunharam o Evangelho, também fazemos memória daqueles que partiram, muitas vezes deixando marcas de amor, resistência e compromisso com a vida. Nesse horizonte, as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a) revelam o rosto de uma santidade que não se confunde com privilégios religiosos, mas se manifesta na fidelidade ao projeto de Deus e na construção de um mundo mais justo.

1. Uma montanha, uma multidão e um novo projeto de vida

Mateus situa o início do Sermão da Montanha com uma imagem carregada de significado: Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar seus discípulos, enquanto as multidões permanecem no horizonte da narrativa (Mt 5,1-2). A montanha evoca o encontro com Deus e a tradição de Moisés, mas Jesus não apresenta simplesmente uma nova legislação. Ele interpreta a vontade divina a partir da realidade concreta do povo e inaugura uma maneira nova de viver as relações humanas.

A posição de Jesus, sentado, é a de quem ensina com autoridade. Os discípulos aproximam-se para escutá-lo, mas o alcance de suas palavras ultrapassa o círculo mais próximo: o Evangelho de Mateus apresenta as multidões acompanhando seu ensinamento. A Palavra, portanto, não é propriedade de uma elite religiosa. Ela é oferecida ao povo e chama todos à conversão.

As Bem-aventuranças abrem esse grande discurso como uma proclamação de esperança. O termo grego makárioi, traduzido por “bem-aventurados” ou “felizes”, não descreve simplesmente pessoas satisfeitas ou livres de sofrimento. Expressa o reconhecimento de uma vida que se encontra sob a promessa e a ação de Deus. Jesus anuncia a felicidade a pessoas que, segundo os critérios dominantes, dificilmente seriam consideradas felizes.

2. Deus toma partido da vida dos pobres e dos pequenos

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). A expressão “pobres em espírito” não deve ser interpretada como uma exaltação da miséria, da passividade ou da resignação. No horizonte bíblico, a pobreza está relacionada também à condição daqueles que dependem de Deus porque foram privados de segurança, de justiça e dignidade. A expressão mateana não elimina a dimensão material da pobreza nem autoriza a espiritualização da injustiça.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, essa bem-aventurança interpela uma sociedade marcada pela concentração da riqueza, pela fome, pela falta de moradia e pela exclusão. Deus não deseja que os pobres permaneçam pobres; anuncia-lhes o Reino como boa notícia e convoca a comunidade cristã a transformar as estruturas que negam a dignidade humana.

Também os que choram são proclamados felizes, porque serão consolados (Mt 5,4). O choro não é um ideal cristão, tampouco o sofrimento possui valor por si mesmo. A promessa anuncia que a dor não terá a última palavra. Jesus se aproxima de quem sofre e chama seus seguidores a fazerem do consolo uma prática concreta: acolher as famílias enlutadas, acompanhar as vítimas da violência, defender os povos ameaçados e cuidar daqueles que a sociedade abandona.

Os mansos herdarão a terra (Mt 5,5). A palavra evoca o Salmo 37,11 e apresenta uma esperança que contrasta com a lógica da conquista pela força. A terra não é apenas um bem econômico: é espaço de vida, pertença, trabalho e sustento. Essa promessa ressoa especialmente entre comunidades camponesas, povos indígenas, quilombolas e famílias que lutam pelo direito à terra e ao território. A mansidão evangélica não é covardia: é a força de quem recusa reproduzir a violência e persevera na defesa da vida.

A fome e a sede de justiça (Mt 5,6) expressam um desejo profundo de que as relações sejam reorganizadas segundo a vontade de Deus. A justiça bíblica não se limita à aplicação imparcial de normas; envolve a restauração da dignidade, a defesa dos vulneráveis e a fidelidade à aliança. Por isso, a misericórdia, a pureza de coração e a construção da paz (Mt 5,7-9) não podem ser reduzidas a virtudes privadas. Elas devem orientar as relações sociais, a vida eclesial e o compromisso com a Casa Comum.

Por fim, Jesus declara felizes os perseguidos por causa da justiça (Mt 5,10-12a). A perseguição não torna alguém santo automaticamente. O que está em questão é a fidelidade ao Reino, mesmo quando ela provoca a reação dos que se beneficiam da injustiça. Os profetas, mártires e testemunhas do Evangelho recordam que a santidade pode exigir coragem, resistência e entrega.

3. A Leitura Popular da Bíblia: escutar a Palavra a partir da vida

A Leitura Popular da Bíblia, promovida e aprofundada na caminhada do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBi), ajuda-nos a reconhecer que a Palavra de Deus deve ser lida em comunidade, em diálogo com a realidade e à luz da fé. Não se trata de substituir o texto bíblico por nossas opiniões, mas de escutá-lo com atenção, considerando seu contexto histórico, sua mensagem teológica e os desafios que ele apresenta hoje.

Quando uma comunidade lê as Bem-aventuranças junto às famílias ameaçadas pelo despejo, aos trabalhadores sem direitos, às mulheres vítimas de violência e aos povos que defendem seus territórios ameaçados, descobre que Jesus não oferece uma consolação alienada da história. Ele anuncia a esperança de Deus e convoca seus discípulos a tornarem visíveis os sinais do Reino.

Essa leitura também questiona uma concepção de santidade limitada a práticas devocionais ou à busca individual de perfeição. A oração, a liturgia e a vida sacramental são fundamentais, mas devem conduzir ao amor concreto. A santidade cristã cresce quando a comunidade acolhe os pequenos, partilha o pão, promove a justiça, reconcilia os adversários e se compromete com aqueles cuja vida está ameaçada.

4. Todos os Santos e Fiéis Defuntos: a esperança que vence a morte

A Solenidade de Todos os Santos celebra a multidão de homens e mulheres que, conhecidos ou anônimos, participaram da fidelidade de Deus e testemunharam seu amor. As Bem-aventuranças oferecem critérios para reconhecer essa santidade: não o prestígio social, o poder ou a riqueza, mas a misericórdia, a justiça, a paz e a perseverança no Evangelho.

No dia seguinte, a Comemoração dos Fiéis Defuntos nos reúne em torno da memória, da saudade e da esperança. Recordamos nossos familiares, amigos e companheiros de caminhada, confiando-os à misericórdia de Deus. A fé cristã não nega a dor da separação; proclama, porém, que a morte não possui a palavra definitiva, pois nossa esperança está na ressurreição de Jesus Cristo.

As duas celebrações iluminam-se mutuamente. Os santos testemunham a possibilidade de viver o Evangelho na história; a memória dos falecidos recorda a fragilidade da existência humana e a necessidade de cuidar uns dos outros enquanto caminhamos em nossa peregrinação terrestre. Entre a comunhão dos santos e a esperança da ressurreição, somos convidados a transformar a saudade em gratidão e a fé em compromisso.

A santidade que celebramos não nos afasta dos sofrimentos do mundo: aproxima-nos deles com a ternura de Deus. Nas comunidades de fé, na caminhada do CEBi e junto aos que defendem a terra e os direitos dos povos, as Bem-aventuranças continuam a ressoar como promessa e missão. 

Felizes os que trabalham pela justiça, acolhem os que choram e constroem a paz: neles, o Reino de Deus já começa a florescer. E, sustentados pela esperança pascal, caminhamos confiantes para a plenitude da vida, quando Deus enxugará toda lágrima e a morte já não existirá. O “mandacaru” florirá no sertão da história humana!