Vitória que custou e custará caro

Marcelo Barros
Ainda bem que o Brasil ganhou com a vitória da Democracia e do Estado de Direito sobre a barbárie e a estupidez. De certa forma, foi uma vitória tripla. Antes de ganhar nas urnas e na contagem dos votos válidos, Lula ganhou através da mobilização das juventudes que, desde algum tempo, não tomavam as ruas, como o fizeram nesses dias, entre o primeiro e o segundo turno. Essa vitória do Presidente Lula não foi apenas contra um candidato, em si, despreparado e desqualificado, mas contra o poderio do dinheiro internacional, jogado aqui para comprar o Brasil. Ele venceu também os donos do andar de cima, que usaram todo o seu poder, para forçar a volta à cultura da servidão que perpetua a iniquidade.
De fato, foi uma vitória histórica e inigualável, não apenas do Presidente Lula e de sua equipe, mas, de certa forma, da parte mais sadia da população brasileira, que não permitiu que voltássemos aos tempos da Alemanha dos anos 1930, como desejavam alguns senhores, para os quais, mesmo o período da Ditadura Militar Brasileira, de 1964 a 1985, parece brando e tolerante. Essa vitória do Brasil significa manter erguida a bandeira, que não deixará toda a América Latina ser dominada pela extrema-direita.
Ao pensar nessa vitória política, vem-me à mente o começo de todas as aventuras de Asterix e Obelix, nas histórias em quadrinho, que minha geração tanto amava: “Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália está ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia habitada por irredutíveis gauleses resiste, ainda e sempre, ao invasor”.
Hoje, essa aldeia é mundial e a poção mágica se chama educação crítica e libertadora. Sem isso, os gauleses de hoje serão dominados pelos impérios e seus atuais soldados. Como seria bom que o exército de Lula, liderado pelo General Janones (talvez, com nome não mais ligado à cultura militar) não se dissolvesse. Ao contrário, assumisse como tarefa liderar uma campanha de educação social e política por todo o país.
O Brasil tem dimensão continental e qualquer iniciativa tem de ser dentro das possibilidades constitucionais da República, mas se não se garantir, concretamente, a participação direta do povo organizado, essa atual vitória poderá ser logo perdida. No pronunciamento que fez, ao agradecer a vitória, o Presidente Lula prometeu que governará em diálogo permanente com o povo. Se isso se concretizar, será elemento fundamental desse processo educativo, que só o diálogo garante.
Hoje, festejemos a vitória. Amanhã, cedo, comecemos a plantar as sementes para o futuro. Não apenas eleitoral para as próximas eleições e sim para a formação cidadã, que permitirá fazer da festa da Democracia, não apenas um evento de quatro em quatro anos e sim um processo, no qual a Democracia Popular e Participativa possa equilibrar os desajustes possíveis da Democracia Representativa, que, na atual configuração, de fato, representa muito pouco o Brasil real que conhecemos.
Quem leu o romance “O velho e o mar” de Ernest Hemingway recorda que o velho pescador contava suas façanhas aos companheiros, mas nunca podia mostrar a vitória de uma pesca excepcional. Uma vez, em uma noite, consegue em seu barquinho, pegar um peixe imenso e o leva amarrado ao barco, para mostrar o troféu da sua vitória a seus companheiros incrédulos. No entanto, entre o alto mar e o porto onde desembarcou, um cardume de peixinhos devoraram toda a carne do pescado. Ao chegar ao porto, o velho conseguiu, finalmente, provar que fez uma bela pescaria, mas do peixe que apanhou, restava apenas a espinha.
A mim que sou cristão, essa espinha do peixe devorado pelos peixinhos recorda a cruz de Jesus, sinal de resistência e amor que vai além da dor e da morte. É claro que a luta continua. Os adversários que perderam essa batalha tentarão outras. Isso faz parte do processo. Às pessoas que optam pelo ódio, a força do amor sempre vencerá. As idiotizadas pela propaganda do ódio jazem em sua desumanidade.
Em seu primeiro pronunciamento depois de reeleito, o Presidente Lula confirmou que o Brasil é um Estado Laico e no qual todas as religiões têm total liberdade e serão sempre tratadas com igualdade e respeito. É preciso avisar isso aos apóstolos da velha cultura de Cristandade, seja católico-romana, seja evangélica, ou pentecostal. Que o Presidente Lula tenha sido atacado e sofrido humilhações pela milícia do ódio, já era de se esperar. O mais triste é ver pastores cristãos e grupos que usam o nome de Jesus fingirem defender a fé e propagar seus preconceitos para enganar as pessoas mais simples.
Em 1943, no campo de concentração nazista, o Pastor Dietrich Bonhoeffer escrevia: “A estupidez humana é mais perigosa do que a maldade. Contra o mal pode-se sempre protestar. O mal pode ser exposto. Pode ser revelado. (…) Já com a estupidez, é diferente. Não há como se defender da estupidez. Não adiantam protestos. Nenhum raciocínio consegue convencer uma pessoa estúpida. Ela opta por seus próprios preconceitos e por mais que se mostrem fatos, não a convencerão”.
(quem quiser consultar o texto integral, veja no ihu)
Aos que optam pela estupidez do preconceito, no lugar da confiança do amor, retomamos a palavra de Jesus para seus adversários: “”Muitas pessoas virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino divino, enquanto os que se consideram filhos do reino ficarão de fora” (Mt 8, 11- 12).