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Um martírio que deve nos incomodar

incomodar

Marcelo Barros

Em meio a esses dias de tensão entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais, no Brasil, toda pessoa que participa da caminhada das comunidades eclesiais e dos movimentos populares recorda que, neste 11 de outubro, celebramos 50 anos do martírio do Padre João Bosco Penido Burnier em Ribeirão Bonito, prelazia de São Félix do Araguaia (MT).

A tarde daquela segunda-feira, 11 de outubro de 1976, estava quente. Como costuma ocorrer no Centro-oeste, em outubro, era o calor que precede as pancadas de chuva. Foi nesse clima que o Padre João Bosco e Dom Pedro Casaldáliga caminhavam por uma rua de terra de Ribeirão Bonito, quando ouviram gritos de mulheres, vindos da delegacia de polícia, que era ali próxima. Imediatamente, sem hesitar, os dois interromperam o seu caminho e foram até lá. De fato, viram que o soldado Ezy Ramalho Feitosa torturava Margarida e Santana, duas mulheres pobres. O Padre João Bosco que entrou na frente começou a argumentar com o soldado para que ele parasse. Este reagiu violentamente. Agrediu o padre com um soco, deu-lhe uma coronhada e quando o padre começou a baixar-se, recebeu um tiro de bala na nuca. Foi levado moribundo a Goiânia, onde faleceu no Instituto Neurológico.

O martírio do Padre João Bosco foi apenas um entre os mais de 30 mil ocorridos, com irmãos e irmãs, testemunhas do projeto divino de justiça ecossocial, na América Latina, desde a década de 1960.

O que caracteriza o martírio do Padre João Bosco é o fato de que ele era um padre não tradicionalista, mas tradicional. Pertencia a uma família  mineira de renome e não foi assassinado na luta pela terra, ou por sua relação com grupo político contrário à Ditadura. Era coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) no Mato Grosso, mas não morreu na missão junto aos indígenas. Simplesmente, estava intercedendo, de forma pacífica, pelos direitos humanos de duas mulheres pobres de periferia. Não foi mártir da luta política, ou da militância social e sim de um estilo de inserção pastoral, que, graças a Deus, até hoje, existe, mas não é o mais comum.

Em nossos dias, no Brasil, os padres que fazem mais sucesso e juntam milhões de seguidores parecem artistas de shows, mas não se distinguem pela solidariedade às pessoas vítimas da violência policial, nem se dedicam ao serviço aos povos indígenas, para que sejam respeitados, em seus direitos à  terra, à vida e à autonomia de suas culturas.

Hoje, chegamos ao ponto de ver nas redes sociais padres que apoiam a volta à barbárie. O arcebispo de Brasília exibe fotografia da visita que recebeu do candidato contra a Democracia. É claro que o arcebispo prega que a hierarquia eclesiástica e o clero não devem fazer política e considera que o fato de ter publicado a fotografia junto com o candidato e ainda apregoar que lhe deu de presente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida não foi gesto político. Deve ter sido só ação diplomática para manifestar a união do poder eclesiástico que ele detém e o poder político que deseja para o candidato.

Independentemente desses delírios de volta à antiga Cristandade imperial, demos graças a Deus por fazer do Padre João Bosco Penido Burnier padroeiro dos padres da caminhada e de todos os irmãos e irmãs que podem afirmar de si mesmos, aquilo que foi o modo de apresentar-se do profeta João, no início do Livro do Apocalipse: “irmão, e companheiro (irmã e companheira) na aflição, no reino, e na paciência de Jesus Cristo. (Ap 1, 9).

O profeta do Apocalipse estava preso na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo. O Padre João Bosco, jesuíta, mestre em Filosofia e Teologia, estava na delegacia de Ribeirão Bonito, no sertão do Mato Grosso, defendendo duas mulheres pobres e marginalizadas.

Como explica o padre José Comblin: “Deus quer salvar ou libertar a humanidade do estado de injustiça e de dominação em que ela se encontra. Por isso, constitui um povo para realizar o seu desígnio. Porém esse povo esquece de sua missão e entrega-se aos mesmos vícios que afetam outros povos. Então, Deus envia profetas e profetizas para lembrar essa missão e provocar a conversão, a volta às origens”[1].

Quando falamos em profecia e martírio na caminhada das nossas Igrejas, sem dúvida, existe uma disputa de termos, ou como se diz hoje: de lugar de fala, mas de modo algum, trata-se apenas de disputa de termos. Há realmente, um deslocamento da profecia e do martírio: deslocamento pastoral e teológico.

Já em 1986, em Trindade – GO, no final do VI Encontro intereclesial de CEBs, a Mensagem Final ao Povo de Deus afirmava: “Nestes tempos recentes, tem sido tempo de martírio. Além do martírio cotidiano que todos nós sofremos na caminhada das comunidades, temos perdido muitos irmãos e irmãs, assassinados pela causa do evangelho. O testemunho deles e delas nos fortalece no caminho, mas precisamos nos precaver mais e nos protegermos melhor. Precisamos de nossos mártires vivos e não mortos”[2].

No antigo mosteiro de Goiás, no momento em que o irmão ou irmã iria comprometer-se com a comunidade, escutava do irmão que coordenava a comunhão:

“Lembre-se de que esse caminho (da esperança profética) opõe-se a toda razão humana. Como Abraão, você só pode avançar nele pela fé e não pelo que você vê, confiante de que quem perde a sua vida por causa do Cristo e do reino, a reencontrará. Não se preocupe com o dia de amanhã. Deus é fiel e em você cumprirá a sua promessa”[3].

Que a celebração do cinquentenário do martírio do Padre João Bosco reanime nossa esperança e nos fortaleça nesse caminho do testemunho do projeto divino no mundo.

[1] – COMBLIN, José, A profecia na Igreja, São Paulo, Ed. Paulus, 2008, p. 12.

[2] – Cf. Memória e arquivo das CEBs na CNBB, Brasília. Também ver arquivo da Revista REB – 1986/n. 4.

[3] – essa exortação se baseia na exortação que a comunidade de Taizé usa na profissão dos irmãos. Ver: IRMÃO ROGER DE TAIZÉ, Regra de Taizé, São Paulo, Ed. Paulinas, 1984, p. 36- 37.