Nota do CEBI – Bíblia, Democracia e a Mesa que precisa ser de todas e todos

A Mesa Comunitária e os Desafios da Democracia Brasileira
Uma leitura de Mateus 22,1-14 a partir da realidade do Brasil
O primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 nos coloca novamente diante de uma realidade marcada por diferentes projetos de sociedade, expectativas, conflitos e esperanças. Milhões de brasileiras e brasileiros foram às urnas para escolher seus representantes. A Justiça Eleitoral disponibilizou os resultados do primeiro turno e os mecanismos de consulta e fiscalização dos votos, reafirmando o caráter público e verificável do processo eleitoral.
Agora, diante do segundo turno, somos chamadas não apenas a acompanhar o debate político, mas também a perguntar, à luz da fé cristã: que sociedade estamos construindo? Quem está sendo convidado para a mesa? Quem continua do lado de fora? Que projeto de vida queremos alimentar como povo?
É nesse horizonte que podemos escutar a parábola de Mateus 22,1-14: a parábola do banquete de casamento.
Jesus apresenta a imagem de um grande banquete preparado. Há uma mesa, há comida, há festa e há um convite. Entretanto, aqueles que inicialmente foram convidados recusam-se a participar. Alguns permanecem indiferentes; outros rejeitam violentamente o convite. Diante da recusa, o convite é ampliado: são chamados aqueles que estão nas estradas, pessoas encontradas nos caminhos, sem distinção prévia.
A parábola nos ajuda a perceber que o Reino de Deus é apresentado como uma mesa aberta, e não como um privilégio reservado a poucos.
Essa imagem fala profundamente ao Brasil de hoje.
Vivemos um momento em que a política muitas vezes se transforma em disputa marcada pela polarização, pela desconfiança, pela circulação de informações falsas, pela intolerância e pela dificuldade de reconhecer quem pensa diferente. O processo eleitoral, porém, não se encerra no momento da votação. A democracia exige participação, diálogo, respeito às regras comuns e compromisso permanente com a dignidade de todas as pessoas.
A parábola nos provoca a olhar para aqueles que permanecem nas estradas da sociedade.
Quem são hoje os que continuam sem lugar à mesa?
São as pessoas que vivem em situação de pobreza e insegurança alimentar? As populações negras e periféricas? Os povos indígenas e comunidades tradicionais? As mulheres vítimas de violência? As pessoas LGPTQIAPN+? As crianças e adolescentes que têm direitos violados? As juventudes desalentadas? As pessoas idosas abandonadas? As pessoas com deficiência que encontram barreiras para participar plenamente da sociedade? As pessoas migrantes? As comunidades que sofrem com a degradação ambiental?
A leitura popular da Bíblia nos ensina a aproximar o texto da vida. Por isso, não podemos ler Mateus 22 apenas como uma reflexão espiritual individual. O banquete também nos ajuda a pensar as condições concretas para que todas e todos possam viver com dignidade.
O primeiro turno revelou a pluralidade do eleitorado brasileiro. O segundo turno coloca novamente diante da sociedade escolhas políticas distintas. Nesse contexto, o compromisso cristão e cidadão não pode ser reduzido à defesa de interesses particulares ou à transformação da fé em instrumento de disputa eleitoral.
A fé nos chama a colocar no centro a vida, a dignidade humana, a justiça, a paz, o cuidado com a Casa Comum, os direitos humanos e a democracia.
A parábola também apresenta uma advertência importante: estar na festa não significa simplesmente ocupar um lugar. O texto fala da necessidade de estar vestido com a “veste nupcial”. Essa imagem pode ser compreendida como um chamado à coerência entre participar da comunidade e assumir um compromisso com os valores do Reino.
Não basta dizer-se cristão. É necessário perguntar:
Nossa fé produz solidariedade?
Nossa espiritualidade fortalece a justiça?
Nossa leitura da Bíblia amplia ou reduz a mesa?
Nossa ação contribui para aproximar ou afastar as pessoas?
Nossa participação política reconhece a dignidade também de quem pensa diferente de nós?
Vivemos um tempo em que discursos de intolerância, ódio, desinformação e fundamentalismos religiosos procuram ocupar espaços na sociedade e nas comunidades de fé. Com frequência, a Bíblia é utilizada para justificar exclusões, alimentar preconceitos e legitimar práticas que ferem a dignidade humana.
Para o CEBI, a Leitura Popular da Bíblia nasce justamente do encontro entre Bíblia e vida. Por isso, diante da atual conjuntura, somos convidados e convidadas a não utilizar a Bíblia para legitimar discursos de ódio, exclusão ou intolerância. Ao contrário, somos chamados a recuperar a força libertadora da Palavra que nos ajuda a enxergar a realidade a partir das pessoas e comunidades que mais sofrem.
O banquete do Evangelho nos lembra que ninguém deveria ser considerado descartável.
A democracia também precisa ser uma grande mesa: uma mesa na qual caibam diferentes vozes, diferentes territórios, diferentes histórias e diferentes maneiras de compreender o Brasil. Uma mesa onde o conflito possa ser mediado pelo diálogo e onde às diferenças não sejam transformadas em inimização.
Neste período que antecede o segundo turno, o CEBI reafirma a importância de uma cidadania responsável, crítica e participativa. Isso significa buscar informações em fontes confiáveis, verificar notícias antes de compartilhá-las, respeitar o resultado das urnas e acompanhar, para além das eleições, as decisões dos poderes públicos e seus impactos sobre a vida da população.
A pergunta do Evangelho continua ecoando:
Quem está sendo chamado para o banquete?
E acrescentamos, a partir da realidade brasileira:
Quem ainda está do lado de fora?
O que precisamos transformar para que a mesa seja verdadeiramente de todas as pessoas?
Que nossa leitura da Bíblia nos ajude a superar muros, construir pontes e fortalecer uma cultura democrática fundada na dignidade humana.
Que nossas comunidades sejam espaços de diálogo, escuta e acolhida.
Que nossa fé não seja instrumento de exclusão, mas força de compromisso com a vida.
Que nosso voto livre e democrático seja um ato de participação cidadã e compromisso coletivo.
E que possamos construir, como povo brasileiro, uma sociedade onde ninguém precise ficar à margem da mesa.
“Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.” (Mt 22,14)
Que a nossa escolha cotidiana seja pela vida, pela justiça, pela paz, pela democracia e pelo Bem Viver.
Centro de Estudos Bíblicos – CEBI
Outubro de 2026