Somos chamadas e chamados para cuidar das vinhas

| Lecionário Comum | Lecionário Católico |
| Is 5.1-7 Sl 80.7-14 Fp 3.4b-14 Mt 21.33-46 |
Is 5,1-7 Sl 79(80),9.12.13-14.15-16.19-20 (R. Is 5,7a) Fl 4,6-9 Mt 21,33-43 |
CEBI – SC, Alzira, Hermes, Miguel, Simone, Irdes.
A parábola que vamos refletir está situada no final do ministério de Jesus, em Jerusalém, pouco antes de sua prisão e morte. Jesus está no templo, dialogando e entrando em conflito com as autoridades religiosas. É nesse ambiente de conflito que Jesus conta a parábola da vinha.
A pergunta principal que perpassa o texto é sobre quem é o verdadeiro dono da vinha. Os vinhateiros agem como se a vinha lhes pertencesse, enquanto o dono, antes de viajar, apenas lhes atribuiu a missão de cuidar da vinha. Dessa forma, a parábola é uma denúncia às lideranças que se apropriam daquilo que pertence a Deus e ao povo.
No texto Jesus apresenta um homem que plantou uma vinha, preparou tudo com cuidado e a entregou para que outros cuidem dela. Quando chega o momento de colher os frutos, ele espera receber aquilo que foi produzido. Porém, os agricultores se esquecem de que a vinha não lhes pertence. Eles rejeitam os enviados do proprietário e por fim, matam até mesmo o seu filho.
O dono entrega sua vinha à agricultores e estes se arrogam ao direito de se apropriar, decidir por ela e por outras vidas que fazem parte dela, ao ponto de exercer violência, até a morte.
É um texto de denúncia. É uma parábola onde Jesus denuncia a lógica do acúmulo e da apropriação indevida. Denuncia a lógica de uma estrutura que acumula, exclui, explora, silencia.
A parábola traz à tona também a missão dos profetas e profetisas de anunciar e denunciar. Aponta também às consequências dessa missão. Quem denuncia práticas de injustiça, exploração e apropriação, são perseguidas, violentadas e silenciadas, muitas vezes, pagando com a própria vida. Não podemos nos silenciar diante das injustiças sociais.
O texto retoma Gn 2,15 em que o Criador atribui a missão de guardar e cultivar – CUIDAR da criação. Neste dia 04 de outubro, celebrando São Francisco de Assis, irmão universal de toda as criaturas; celebrando também o encerramento do “Tempo da Criação”, instituído pelo Papa Francisco, esta parábola vem nos provocar sobre o cuidado “com a vinha”, cuidado com a Casa Comum e, especialmente, com a vida das pessoas empobrecidas.
Somos agricultoras e agricultores da vinha. Somos cuidadoras e cuidadores das vidas dessa vinha a nós confiada. Somos gente de fé. Mas a fé precisa se transformar em obras, em ações de solidariedade, acolhimento, empatia, compromisso, serviço.
O Evangelho nos convida a assumir a nossa responsabilidade pela vinha que Deus nos confiou. Essa vinha tem nome e tem rosto. São as pessoas empobrecidas, são mulheres que sofrem violência, são os povos indígenas e ribeirinhos, é a população em situação de rua, são crianças e adolescentes esperando crescer em um ambiente seguro, são jovens buscando espaço para viver e realizar seus sonhos, são pessoas idosas precisando de cuidado e acolhimento. Somos cuidadoras e cuidadores dessa vinha.
O cuidado faz parte do nosso existir no mundo. Por isso, tudo o que recebemos como dádiva, pede de nós como resposta o cuidado. E o cuidado faz parte da vida de quem ama. Deste modo, devemos cuidar da Casa Comum, cuidar da vida humana. É preciso cuidar da vinha para que possamos produzir frutos de compaixão, irmandade universal, justiça socioambiental, dignidade da vida, amor às pessoas empobrecidas. Assim, esse texto nos ajuda a compreender que a sociedade é uma vinha que Deus nos confiou. Não somos donos e donas dela; somos apenas cuidadoras e cuidadores.
Em Jesus, o poder é serviço a vida. Chegamos em mais uma eleição, onde há disputas de projetos. Aqui também se faz necessário muito cuidado. E não podemos titubear na escolha. Ou votamos em projeto que fortalece, ama e cuida das vidas ou votamos em projeto que prefere a violência, a injustiça, o total descuido com as vidas e a Casa comum. Meu voto está em qual dos Projetos? E após as eleições, o que fazer? Acompanhar, fiscalizar, cobrar de quem foi dado esse poder.
A parábola é uma crítica e uma denúncia quanto ao uso do poder. Pessoas que são eleitas ou indicadas para alguma função na sociedade ou nas igrejas, são servidoras do povo e não donas. Estão a serviço. É comum vermos homens e mulheres, que assumem o poder político para dominar e explorar o povo. É igualmente comum vermos lideranças religiosas, nas diversas igrejas, que agem como proprietárias das comunidades.
Lideranças políticas e religiosas são chamadas a serem cuidadoras do povo, defendendo o direito e a justiça. São chamadas a exercer o poder circular, ouvindo, acolhendo, construindo junto com o Povo.
E Jesus faz uma conclusão da parábola retomando o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Jesus sabia que o cerco estava sendo armado ao seu redor, planejando seu assassinato. Mesmo em meio ao medo e tensões com as autoridades, Jesus sinaliza para a utopia da pedra rejeitada. Uma pedra que fica escondida, como o fermento na massa, mas é essa pedra que sustenta a construção. Assim é o Reino de Deus. É por causa da utopia do Reino que “esperançamos”, que lutamos, que seguimos e prosseguimos no caminho, muitas vezes, na contramão da história, na contramão das narrativas, insistindo na força dos fracos e fracas, acreditando no poder que vem de baixo, acreditando na democracia apesar de sua fragilidade, acreditando numa igreja pobre com e como pobres. E assim construímos sinais do Reino de Deus entre nós
Que esse texto ilumine nossa caminhada, nossas comunidades, nossa missão cristã na construção de uma sociedade e igrejas mais justas, solidárias, sem exclusão, onde a vida tenha sempre a última palavra.