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Essas eleições nem parecem eleições

Essas eleicoes nem parecem eleicoes 2

Marcelo Barros

Não tenho a quem protestar. A Deus, não posso, porque, embora o nome dele seja sempre muito usado, sei que Ele nada tem a ver com isso. Reclamar à classe política não adianta. Quem vai me ouvir? Eu iria parecer padre tradicional que briga porque os fieis não vêm à missa, mas diz isso, justamente, aos poucos que estão lá para ouvir suas queixas.

O meu protesto é que eleição significa escolha. Eleger é escolher. Quando eu era jovem, a eleição era para escolher entre candidatos possíveis. A primeira eleição da qual participei aos 18 anos, em 1962, era para escolher ao governo de Pernambuco, ou o usineiro João Cleofas, candidato das elites, ou Miguel Arraes, acusado de ser socialista, como se isso fosse crime. (E os padres diziam: vote em João Cleofas, porque Arraes é comunista e comunista é contra Deus). No entanto, ambos eram civilizados e pessoas que entravam no jogo democrático.

Mais tarde, várias vezes, para presidente, para governador, ou para o poder legislativo, tive de escolher entre dois nomes ruins. E tinha de votar no menos pior.

Agora, nessas eleições de 4 de outubro de 2026,  não se trata mais de escolher entre candidatos, nem entre partidos. O que está em jogo não é mais uma escolha entre Lula e Serra, ou entre Lula e Fernando Henrique Cardoso, como foi em outras eleições. Nem é mais uma escolha entre partidos, de forma que alguém diga: não voto no PT e voto no PSDB.

De fato, essa eleição continua tendo o ritual de quaisquer eleições, mas, na realidade, o que temos de votar é em projeto de país. Se queremos salvar a pobre e maltratada democracia brasileira que ainda sobrevive, ou se aceitamos que o Brasil volte aos tempos da Ditadura Militar, dessa vez, sem precisar de golpe armado e sim através do nosso voto.

O nosso voto vai definir se continuamos um país independente ou se queremos depender dos Estados Unidos que já domina 14 países do nosso continente e quase só falta o Brasil. Flávio Bolsonaro significa isso.

O problema é esse: nessa eleição, o povo vota em nomes, mas o que está em jogo são dois projetos de Brasil e de mundo. Quem vota em Lula não vota apenas em Lula, vota na Democracia e na independência do Brasil como país soberano. Vota nos interesses das classes mais pobres.

Qualquer um dos outros candidatos apoia que o Estado de Israel mate palestinos, mulheres e crianças aos montões. São favoráveis ao que o Império dos Estados Unidos continue impondo um bloqueio ao povo cubano que impede as pessoas terem acesso até a uma aspirina, se ela tiver de vir de fora. E esse crime internacional dura mais de 60 anos.

Não se diz que nessa eleição brasileira está em jogo se você é favorável a que, na noite do 3 de janeiro desse ano, Donald Trum, presidente dos Estados Unidos tenha invadido militarmente a Venezuela, tenha assassinado 41 pessoas, destruído a casa presidencial e sequestrado o presidente do país e sua esposa, só para se apossar dos poços de petróleo que a Venezuela possui.

Quem é do bem e quer o bem,  mesmo que não goste de Lula, (eu gosto), mesmo que ache que ele não é um bom candidato, sabe que a alternativa é muito pior… E isso se repete em vários Estados. Em São Paulo, não se trata de escolher apenas entre Haddad e Tarcisio, ou no Paraná entre Requião Filho e Sérgio Moro, ou na Bahia, entre ACM Neto, ou Jerônimo Rodrigues. Trata-se de defender a Democracia e a possibilidade de maior justiça social, a partir da defesa das classes trabalhadoras.

Tomara que vocês que estão lendo essas linhas escolham a justiça, a paz, o direito da natureza continuar viva como natureza e a igualdade entre homens e mulheres, assim como igualdade de raça e de gênero.  Por favor, não vote agora, de modo que amanhã venha a chorar, quando não tiver mais jeito. Dizem que o Buda ensinou ao mundo a plena consciência do ser e dizia: “O futuro não existe. O amanhã pertence às pessoas que sabem viver o hoje e se preparam, hoje, para o amanhã.”