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Carta para Fabiano

Design sem nome 33

Dizer alguma coisa sobre o Fabiano, amigo tão querido, sempre surpreendente, é tentar encontrar palavras que ficam pequenas ante a história desta vida tão preciosa e, ultimamente, quase desconhecida. Um homem tão simples a quem encantavam os lugares comuns, um engenheiro-filósofo, um artista que esbanjava suas convicções nos traços de um desenho sempre provocador e fiel à realidade que queria descrever.

Eu o conheci na década de 80 e sempre estivemos juntos nas reuniões, nos encontros, nas discussões sobre um novo material, nas celebrações.  A proposta do CEBI, sempre fiel à Leitura Popular da Biblia, ao ecumenismo, à leitura em pequenos grupos, ao protagonismo dos empobrecidos, extravasava sempre por seus poros, seus dedos, suas mãos reveladoras da mais alta teologia.

Que saudade, Fabiano, das longas conversas entre amigos, da ida à praia com companheiras e companheiros desta caminhada tão fecunda. Não faltavam o Tiago e a Maria Helena, que, com certeza, lhe deram um forte abraço quando você ultrassou as fronteiras para descobrir o ilimitado, o infinito, o indizível e plenificador, saciador de todos os seus desejos, resposta a tantas perguntas que pululavam em sua mente inquieta e questionadora.

Saudade do dia em que você me contava a proposta de trocar seu barraco na favela com uma vizinha que acabava de dar à luz seu quarto filho em um barraco muito pequeno. Ela lhe dizia: “Sô Fabiano, eu não tenho dinheiro para lhe voltar. Seu barraco vale muito mais que o meu e está ajeitado pra fazer os seus desenhos.” E você lhe respondeu: “não falei em dinheiro. Falei em trocar o barraco”. E assim fizeram.

Saudade da sua decisão de .nunca assistir televisão em protesto para não se contaminar com as manipulações do sistema e da mídia.

Eu te admirava tanto que acabei me encantando. Um dia fui ao seu barraco e lhe disse: “Fabiano, não sei o que fazer com o meu sentimento.” E você me respondeu com muita convicção, quase friamente: “Julieta, sentimento a gente administra”. Decepcionada, aceitei o convite para o café e me fui.

Saudade do dia em que fomos te visitar na casa de repouso onde você estava numa cadeira de rodas. Tinha a mesma cara de sempre e queria falar sobre política seu tema preferido. Voltou a criticar o poder dominação, a ganância, o imperialismo, a incoerência das hierarquias religiosas.

Mas agora, Fabiano, eu te vejo saciado, plenificado na paz e na luz eternas. Vem ficar conosco, se for possível, neste peregrinar tão complicado em que somos chamados/as a dar uma resposta fiel aos valores do Reino, como fez você.

Julieta Amaral da Costa