Onde Cristo faz morada?

Reflexão sobre Mateus 16,13-20
“E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mt 16,15).
A pergunta de Jesus continua atravessando os tempos. Ela não é apenas uma pergunta sobre conhecimento religioso, nem um teste para saber quem decorou melhor as respostas sobre Jesus. É uma pergunta que nos coloca diante da vida: quem é Jesus para nós? E o que significa reconhecê-lo?
Jesus começa perguntando o que as pessoas dizem. Há diferentes respostas, diferentes compreensões, diferentes experiências. O povo interpreta Jesus a partir daquilo que vive e espera. Também nós somos convidadas a começar pela realidade: quem é Jesus para as pessoas de hoje? Onde elas reconhecem sinais de vida, esperança, justiça e cuidado?
Pedro então responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Ele reconhece em Jesus aquele que vem de Deus e que traz consigo uma promessa de vida. É uma bela profissão de fé. Mas o próprio Evangelho nos apresenta, imediatamente depois, uma contradição: Pedro reconhece Jesus, mas não compreende ainda o caminho de Jesus.
Quando Jesus anuncia que deverá enfrentar sofrimento, rejeição e morte, Pedro se opõe. Ele quer um Messias diferente. Quer, talvez, um Cristo vitorioso segundo a lógica do poder. Jesus, porém, mostra que o caminho do Messias passa pelo serviço, pela entrega e pelo compromisso com a vida.
Aqui encontramos uma provocação importante: podemos saber quem é Jesus e ainda não compreender o que significa segui-lo.
Podemos professar uma fé, conhecer a Bíblia, participar de uma comunidade, ocupar espaços religiosos e, mesmo assim, viver de maneira distante do Evangelho. A fé pode permanecer nos lábios sem alcançar nossas relações, nossas escolhas e nossa maneira de olhar para as pessoas.
Por isso, talvez seja necessário perguntar não apenas “você acredita em Jesus?”, mas: “o que essa fé produz na sua vida?”
Uma fé que reconhece Jesus precisa tornar-se testemunho. Precisa produzir cuidado, solidariedade, justiça e esperança. Precisa colocar-se ao lado da vida, especialmente onde a vida está ameaçada.
Isso também nos leva a uma questão delicada sobre a religião.
Há pessoas profundamente religiosas que, apesar de falarem de Deus, praticam a injustiça, alimentam o preconceito, desprezam as pessoas empobrecidas, legitimam a violência ou permanecem indiferentes diante do sofrimento. E há pessoas que não se identificam com nenhuma religião e, ainda assim, dedicam sua vida ao cuidado, à solidariedade, à defesa dos direitos, à justiça e à esperança.
O Evangelho nos convida a olhar para isso com seriedade.
A comunidade de fé tem seu lugar, sua memória, sua tradição e sua responsabilidade. Mas precisamos reconhecer que Deus não cabe dentro das nossas instituições e que nenhuma religião possui o monopólio da ação de Deus no mundo.
O próprio Jesus, tantas vezes, reconhece fé e sinais do Reino em pessoas que estavam fora dos lugares considerados religiosos e respeitáveis. O samaritano, o centurião, a mulher estrangeira e tantas outras pessoas mostram que Deus pode nos surpreender justamente através daqueles que nossas fronteiras religiosas nos ensinaram a não enxergar.
Por isso, a pergunta talvez possa ser ampliada: onde Cristo está fazendo morada?
A imagem da pedra em Mateus 16 nos ajuda. Jesus diz a Pedro: “Você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha comunidade”. Mais adiante, na Primeira Carta de Pedro, as seguidores de Jesus são chamados de “pedras vivas”, edificadas juntas como uma casa espiritual (1Pd 2,4-5). A Pedra, neste caso, não é somente Pedro, mas toda pessoa que tem fé, e a fé em Cristo, como vimos, é fé na vida, e não na instituição.
Cristo faz morada na fé, mas essa fé precisa ganhar corpo.
Ela aparece quando alguém decide não se conformar com a injustiça. Quando alguém partilha o pão. Quando uma comunidade acolhe quem foi excluída. Quando alguém se levanta contra o racismo, contra a violência, contra a fome, contra a discriminação. Quando alguém escolhe cuidar da vida em vez de proteger privilégios.
É aí que a confissão de Pedro começa a se tornar prática.
Porque dizer “Tu és o Cristo” é apenas o começo. A pergunta seguinte é: se ele é o Cristo, que caminho estamos dispostos a seguir?
Talvez seja essa uma das grandes provocações de Mateus 16.
Pedro acertou a resposta, mas ainda precisava aprender o caminho.
Também nós podemos conhecer as palavras certas e ainda precisar converter nossas práticas. Podemos falar de Jesus e precisar descobrir novamente Jesus no rosto das pessoas que sofrem. Podemos defender a fé e precisar perguntar se nossa fé está defendendo a vida.
Por isso, a fé não deveria ser medida somente pelo que professamos, mas também pelo testemunho que oferecemos.
Que tipo de mundo nasce da nossa fé?
Nossa fé produz esperança ou medo?
Produz justiça ou conformismo?
Produz acolhimento ou exclusão?
Produz solidariedade ou indiferença?
Produz vida ou ajuda a manter estruturas que produzem morte?
Talvez essa seja uma maneira de compreender a promessa de Jesus de que as forças da morte não prevalecerão.
Se Cristo é reconhecido pela nossa fé, mas essa fé não produz vida, justiça e esperança, que Cristo estamos confessando?
Ruan Isnardi