Irmão Marcelo Barros
Anualmente, a ONU[1] consagra o 05 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente. Neste ano de 2026, Baku, capital da República do Azerbaijão, sediará os eventos da ONU que preparam mais uma conferência mundial sobre mudanças climáticas que deve ocorrer em novembro próximo.
O Brasil vive um momento esperançoso, porque, conforme o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), desde o início de 2025, houve redução de 50% no desmatamento na Amazônia e de 32,3% no Cerrado, além de uma queda de 40% na área queimada por incêndios florestais. Apesar desses dados alvissareiros, sabemos que a realidade brasileira ainda é trágica e o projeto de exploração do petróleo na foz do Amazonas é ameaçador. A Petrobras obteve autorização para pesquisa exploratória no bloco FZA-M-059, situado a cerca de 175 km da costa do Amapá. Todo mundo sabe que se trata de um ecossistema extremamente delicado e as consequências disso são imprevisíveis.
Neste ano, o 5 de junho, dia internacional do ambiente, coincide com o dia seguinte à quinta-feira, na qual a Igreja Católica celebra a festa do Corpo e Sangue de Cristo, ou como se chama em latim: Corpus Christi. É uma festa criada, no século XIV, para exaltar a presença de Jesus no pão eucarístico, contra grupos que não tinham esse modo de expressar a fé.
Hoje, somos chamados a acentuar sinais e instrumentos que nos unem a todas as comunidades cristãs e, se possível, à humanidade inteira. Nunca deveríamos ressaltar, justamente, o que ainda nos divide, quando o projeto de Jesus foi criar comunhão e unidade entre todas as pessoas que nele acreditam. A partir do Concílio Vaticano II, os católicos deveriam valorizar a ceia de Jesus, como sacramento (sinal e instrumento) de partilha e de profecia de um mundo, chamado a viver a comunhão, a justiça, o respeito e a solidariedade. O evangelho indica que a ceia de Jesus deve ser, principalmente, “pão para todas as mesas” e não apenas relíquia a ser adorada.
Neste ano, a coincidência das datas entre a festa da eucaristia (quinta-feira, 4 de junho) e o dia mundial do ambiente (6ª feira, 5 de junho) pode ajudar-nos a pensar que as duas celebrações se completam.
Peço permissão aos irmãos e irmãs não católicos e mais ainda aos não cristãos, para comentar aqui a profunda relação entre essas duas comemorações e, assim, tecer considerações, que podem interessar a todas as pessoas que vivem a busca espiritual, seja em que caminho for.
Popularmente, o nome popular da celebração que a Igreja Católica faz nessa quinta-feira é Festa do Corpo de Cristo e, claro, compreende-se o corpo de Cristo, como sendo o pão consagrado, no sacramento da Ceia.
Os antigos pais da Igreja ensinavam que o pão eucarístico representa a presença sacramental do Cristo. No entanto, conforme as próprias palavras de Jesus nos evangelhos, as pessoas empobrecidas representam o seu corpo social. “Cada vez que fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que fizestes” (Mt 25, 35- 45).
Se é assim, podemos, hoje, aplicar essa palavra de Jesus à Mãe-Terra ferida. A natureza ameaçada representa o corpo cósmico do Cristo.
De fato, quando os primeiros cristãos quiseram falar sobre como Jesus ressuscitado é, pelo Pai, enviado ao mundo, para inaugurar uma nova criação e renovar o universo, usaram termos, que, mais tarde, a teologia resumiu na expressão “Cristo Cósmico”.
Já no século XX, o Padre Theillard de Chardin escreveu: “O cosmos é fundamental e primordialmente vivo. (…) Através de sua encarnação, o Cristo é inerente ao mundo, enraizado no próprio âmago do mais diminuto de todos os átomos. (…) Para mim, nada se afigura mais vital, do ponto de vista da energia humana, do que o aparecimento e, eventualmente, o cultivo sistemático, de uma tal consciência cósmica”[2].
Ainda na Idade Média, a grande mística inglesa Juliane de Norwich escreveu: “Vi a grande unidade entre Cristo e nós, porquanto , quando ele estava em sofrimento, nós também estávamos. Todas as criaturas da criação de Deus capazes de sofrer, sofreram com ele. O céu e a terra fraquejaram no momento da morte do Cristo, pois ele também era parte da natureza”[3].
Então, fica aqui o convite que parece utópico, mas é inteiramente possível (depende de nós):
– ampliar o objeto dessa festa e abrir essa espiritualidade a crentes de todas as Igrejas Cristãs para contemplarmos o Corpo do Cristo, na carne do universo crucificado pela ambição do Capital
– e, junto com todos os irmãos e irmãs que vivem uma busca espiritual, testemunhar que o universo é um corpo divino que merece ser amado, adorado e cuidado.
Rainer Maria Rilke, um dos grandes poetas do início do século XX, afirmava: “Todo este universo, até as estrelas mais distantes, o mundo e cada coisa que existe nele é a sua carne, o seu fruto…. O universo é a carne de Deus”.
[1] – Organização das Nações Unidas.
[2] – Cf. FOX, Matthew. A vinda do Cristo Cósmico. A cura da Mãe-Terra e o surgimento de uma renascença planetária. Rio de Janeiro: Ed Record (Nova Era), 1995, p. 188.
[3] – citada por MATTEW FOX, A Vinda do Cristo Cósmico, Rio de Janeiro, Record – Nova Era, 1988, p. 180.
