O processo de transformação através de um encontro gentil

Design sem nome 1
Leconário Comum Lecionário Católico
Os 5.15-6.6
Sl 50.7-15
Rm 4.13-25
Mt 9.9-13, 18-26
Os 6,3-6
Sl 49(50),1.8.12-13.14-15 (R. 23b)
Rm 4,18-25
Mt 9,9-13

Otacilio de Pontes Lima – Pastor da Igreja Betesda do Ceará e membro do CEBI-CE

Fico a imaginar como doía a Mateus (também conhecido como Levi) e a outros cobradores de impostos, oprimir as suas irmãs e irmãos através de cobranças injustas e pesadas, instituídas pelo império colonizador ao povo dominado pela violência cruel do sistema em vigor.

Alguns dias conversei com meu amigo padre Luis Sartorel. Poucos dias antes dele fazer sua páscoa, nós conversamos sobre vários assuntos. Recordo o que ele me falou sobre confissão: “Sabe pastor Otacílio, as pessoas vêm ao confessionário e depois que me falam, vejo que estão contando mais dos seus sofrimentos do que propriamente de pecados. Alguma lógica as confunde.” Talvez as logicas da culpa, da vergonha e do medo, tem aprisionado pessoas nas teias de uma necro-religiosidade, pensei. Padre Sartorel se acolheu com filoxenia, amor aos estranhos, base da hospitalidade, calor humano e gentileza. Com ele sempre me sentia em casa. Sua experiência com as pessoas sofredoras de nossa injusta sociedade lhe gerou a convicção da necessidade de transformação e para isso colocou esperanças na Leitura Popular da Bíblia e nos processos libertadores possíveis através de uma educação conscientizadora do povo oprimido. No texto do Evangelho citado acima, Jesus de Nazaré convida Mateus um coletor de impostos, categoria de pessoas mais odiados pelo povo de Israel para fazer parte do seu Movimento: o Reino de Deus. Um coletor de impostos, uma das pessoas mais desprezadas no coração do povo, agora tem a responsabilidade de seguindo Jesus, deixar sua atividade opressora e desonesta no dizer de João Batista – Lc 3.12-13 “vieram também alguns publicanos para ser batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que devemos fazer?  Ele lhes respondeu: Não cobreis mais do que o prescrito.” E abraçar a ética amorosa do Reino de Deus. Isso seria impensável para a maioria dos rabinos de Israel. Mas, ali está aquele que convida as pessoas oprimidas a estarem com ele, na sua caminhada pela vida. Aquele que propõe “um julgo suave e um fardo leve, um descanso para a alma”. Aquele que sabe que o sofrimento do povo tem a ver com a forte injustiça imposta pelo governo local, pela religião deturpada e pelo colonialismo imperial. Como no Brasil, onde a sociedade foi construída sobre 400 anos de escravidão sem nenhuma reparação, é aí onde se estrutura o racismo, a violência e o cerceamento às religiões de matriz africana, uma fé diferente da nossa, estranha a nós, mas que devemos acolher dentro da hospitalidade ensinada por Jesus de Nazaré, em sua mesa cabe todos. Mateus era a pessoa estranha, o diferente como muitas pessoas LGBTQI+, a pessoa rejeitada nos RHs das empresas. A pessoa marginalizada nas ruas e muitas vezes na própria família. Precisamos acolher essas pessoas como Jesus de Nazaré acolhia o estranho, o diferente, porque eles carregam a imago dei, e acolhê-los é como acolher ao próprio Jesus Cristo. “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, estava nu e me vestiste, estava doente e cuidaste de mim, estava preso e foste me ver”. A lista das pastorais pode crescer ao infinito: estava marginalizada e me deste mesa, fui desprezada e me acolheste, sofri misoginia e foste filógino (amizade acolhedora) … “Quando a te fizemos isso?” Quando fizeste a uma dessas pequeninas pessoas foi a mim que vocês fizeram. Elas e eles são minhas filhas e filhos amados em quem tenho tanta alegria e nenhuma vergonha.

Imagino o sofrimento e as dores do povo que tinha seus parcos recursos usurpados para alimentar a ganância do império colonizador, como hoje a pobre economia do povo é drenada por taxas de juros absurdas, por casas de apostas que ficam a drenar esperanças das pessoas mais pobres. A ganância que mora também em lugares religiosos e partidos políticos vinculados ao projeto das classes dominantes, que desprezam Deus porque desprezam os que trazem em si a imago Dei.

A Ganância do império subjugava o povo a trabalhar mais tempo sendo moídos no moinho de Cronos. Como os povos no Egito em tamanha exploração até serem visitados por Deus Libertador.  Como hoje as trabalhadoras e trabalhadores precisam de tempo para viver sua vida, suas espiritualidades e seus amores.

Na casa de Mateus, Jesus de Nazaré senta-se à mesa e come com os publicanos e pecadores, por conta de sua atitude de acolhimento e hospitalidade para com as pessoas sofredoras, chamadas também de pecadoras, ele é julgado e criticado pelas lideranças da necro-religião, onde doutrinas e dinheiro valem mais do que as pessoas.

A narrativa segue e se conclui com a expressão de Jesus Cristo: “Ide, e aprendei o que significa: “quero misericórdia e não sacrifícios. Porque não vim chamar justos, mas pecadores.” Jesus o amigo dos pecadores nos convida a uma atitude na vida banhada pela misericórdia e não pela intolerância.

A falta de misericórdia turbina as violências nas relações sociais. A ganância que vem da tentação por um poder despótico separado das necessidades populares, produz empobrecimento, fruto de pessoas exploradas pelas máquinas da perversidade manipuladas pelas classes dominantes produtoras de injustiça. A paz produz justiça e o inverso também é verdadeiro, a falta de paz produz injustiça e violências.

A vocação de Jesus de Nazaré, filho de Maria, mãe da igreja é para pessoas pecadoras a quem ele tanto ama, pessoas que nosso amigo Padre Luis Sartorel chamava de sofredoras.

Que Deus continue nos abençoando através de nossa comunhão e amor mútuo.