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A vocação profética da Igreja e os desafios atuais

A vocação profética da Igreja e os desafios atuais
4 de dezembro de 2018 CEBI Comunicação
caminho

por Marcos Aurélio dos Santos via Caminhos de Libertação*

A história do povo de Deus sem dúvida foi marcada pela profecia. Deus sempre levantou profetas e profetizas para serem a voz da justiça em um mundo marcado pelo domínio e opressão dos poderosos. Estes foram vocacionados por Deus para serem proclamadores da justiça divina. Com uma postura radical e imbuídos de convicção combateram os atos de injustiça praticados por reis, sacerdotes e juízes de sua época. Neste contexto, os profetas e profetizas se envolveram em questões políticas, econômicas, religiosas e sociais.

Dentre muitos e muitas, podemos citar: Rute que lutou pelo direito do seu povo (Ler o livro), Ester por seu papel libertador do povo judeu na Pércia (Ler o livro), Isaías que denunciou a falta de administração da justiça, o luxo e a riqueza dos poderosos (Is.10. 1-2; 3.18-24); Jeremias que protestou contra a fraude, acúmulo de riquezas e escravidão (Jr.5.27-28; 34.8-11), Isaías também se levantou com voz profética contra o latifúndio e o roubo (Is. 3.14-15; 5.8-10); Amós conta tributos e impostos injustos (Am.2,8; 5.11) e Ezequiel que denuncia a ganância e a agiotagem (Ez.18.16-17).

Estas são algumas das milhares de referências bíblicas que nos dão uma base segura para afirmar que a profecia ou a voz profética contra a injustiça no mundo hebreu estava profundamente presente no ministério dos profetas e profetizas hebraicos/as. Na Bíblia há mais de três mil passagens que falam sobre pobreza e justiça. Muitas destas passagens são uma alusão não somente ao ministério profético, mas também a postura de reis, governantes como no caso de Neemias que lutou por um governo democrático a favor do povo, e no ministério de Jesus e dos apóstolos com a chegada do Reino de Deus. Percebe-se de forma clara que ecoa uma voz profética na história do povo de Deus do Antigo ao Novo Testamento.

O conceito de justiça não foi uma ideia construída a partir de uma reflexão humana. Não foram os homens arrazoando entre si numa busca de uma definição do que é justiça que a encontraram. A Justiça emana do próprio Deus que é erradicada pelos profetas e profetizas e tem sua encarnação em Jesus de Nazaré, o servo sofredor, o pregador da profecia e da Justiça do Reino. Toda reflexão e ação da justiça no mundo tem sua origem no Deus justo, que aborrece toda injustiça que oprime os mais fracos e sem voz.

O ministério de Jesus tem seu início com a profecia. A evangelização a partir da periferia de Jerusalém, a Galileia, revela o caráter da missão de Jesus entre os pobres e oprimidos. A libertação dos cativos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos, o acolhimento das crianças pobres em situação de risco, o livramento do sistema religioso, demonstram a encarnação da profecia que surge de baixo para cima, em denuncia as estruturas de poder e opressão da elite judaica que estavam em Jerusalém. Jesus não somente proclamou a justiça, mas encarnou-a em sua vida e ministério.(Lucas 4.18).

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A profecia percorre toda a história e não tem seu fim nos profetas hebraicos. Com a chegada do Reino de Deus a justiça passeia pela história até os confins do mundo. Portanto, Deus continua levantando profetas e profetizas em seguimentos diversos, e manifestações de justiça marcam a história da humanidade. Parafraseando o profeta Amós, “Que essa justiça possa correr por vários lugares, por toda a terra e em todos os tempos, como um rio que nunca seca”.

Se dermos um salto na história para a idade moderna, certamente encontramos a profecia. Como no caso de Karl Marx que denunciou a opressão inglesa na época da revolução industrial, Gandhi que lutou pela liberdade da Índia e combateu a opressão do governo Britânico, Mandela que lutou em oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros (maioria da população), mestiços e indianos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos, Martin Luther King que lutou pelas liberdades civis dos negros nos Estados Unidos, Dom Elder Câmara que reivindicou o direito à moradia aos favelados e lutou contra a ditadura militar na década de 70 no Brasil, Dorothy Stang que lutou ao lado dos pobres que viviam sob opressão no Pará. Há vários outros/as que poderíamos citar. A profecia a partir da perspectiva da história dos hebreus e do reino de Deus é manifesta no mundo. A profecia não para enquanto houver esperança.

A utopia vive!

Mas aonde está a profecia na Igreja evangélica hoje? Por onde anda a sua vocação profética? Certamente a igreja se esqueceu ou perdeu o espírito profético. A profecia foi substituída por algo prognostico. Para a igreja de hoje, profecia é sinônimo de previsão futura, em uma busca da satisfação pessoal e por muitas vezes motivados por interesses egoístas. Perdeu-se o senso de justiça e os valores do Reino de Deus caíram no mar do esquecimento. Esta alienação é uma questão séria porque a igreja em seu chamado deve estar profundamente comprometida com a profecia. Não a das previsões incertas feitas por videntes, mas com a justiça do Reino imbuída de fé, amor e esperança. Uma profecia que luta pela causa do pobre, dos fracos e oprimidos. É um resgate da profecia bíblica com base nos profetas hebraicos e em Jesus de Nazaré.

O compromisso da igreja com a profecia abrange uma grande dimensão. Ela deve falar e agir em favor dos pobres e dos oprimidos. Dos índios/as que vivem em situação de risco, dos favelados/as em seus barracos, dos sem teto que vivem os riscos das noites chuvosas e frias, dos órfãos/âs em sua solidão, das viúvas sem amparo, dos estrangeiros no meio de estranhos, dos que vivem em constante perigo de morte como as prostitutas e homossexuais, dos trabalhadores/as explorados, dos desempregados sem salário, todos estes e muitos outros dizem respeito a profecia e a igreja.

A recuperação da profecia é uma questão de urgência. Uma igreja sem profecia é uma igreja que aos poucos vai perdendo seu vigor, e, se persistir em desobediência, certamente morrerá. Precisamos ouvir a voz do que clama no deserto, e, em obediência ao Deus da justiça, responder ao seu chamado. A igreja deve urgentemente entrar na história da humanidade, ouvir e ser participante de suas angústias e dores, deve bradar em alta voz contra todo tipo de injustiça, pois esta se manifesta em todo lugar e em todo o tempo.

Por uma Igreja para os pobres, profética e libertadora.

Marcos Aurélio é Teólogo e Ativista Social. É colaborador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos. Facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em Natal, RN e coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão. O texto foi publicado originalmente no blog Caminhos de Libertação.