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Comentário do Evangelho: A Noite do Natal

Comentário do Evangelho: A Noite do Natal
21 de dezembro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações
Leia o comentário do evangelho para o dia 25 de dezembro sobre Lucas 2,1-14, pertencente a Tomaz Hughes (em memória).
Boa leitura!

Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje” e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!

Este trecho pode ser subdivido assim:

  1. O contexto histórico e o nascimento de Jesus: 2,1-7;
  2. Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus: 2,8-14;
  3. Respostas aos pronunciamentos dos anjos: 2,15-20.

A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui, Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Slalom de Deus. Assim, ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a Pax Romana.

O Slalom é, na verdade, o contrário da Pax Romana como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros das forças militares prepotentes. Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar.

Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância. O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, parece que até o boi e o asno tomaram banho. A realidade de nascer em uma gruta ou estrebaria era diferente. Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora nos dias de hoje. É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens (1Cor 1,25).

Diferentemente de Mateus – que tem outros interesses teológicos com a cena dos magos do Oriente – os protagonistas desta cena são os pastores. Naquela época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. É para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus. Igualmente, são pessoas desqualificadas, as mulheres, que são as testemunhas da Ressurreição. Lucas não perde a oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados.

O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas: “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje”, não em uma data futura, distante. Esta ideia volta diversas vezes: na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje, se cumpriu essa passagem” (4,21); na cena de Zaqueu, Jesus afirma que “hoje, a salvação entrou nessa casa” (18,9); na cruz, Jesus garante que “hoje, estarás comigo no paraíso” (23,43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado por Jesus, na fraqueza da exclusão social e não por César, com toda a pompa da corte e das armas. Em uma manjedoura e não em palácio imperial. Por parte de quem carece de força e prestígio e não pelos poderosos e fortes deste mundo.

Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que já fora anunciado a Maria em Lc 1,31-33, por Maria em Lc 1,46-45, e por Zacarias em Lc 1,68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). Aqui, Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus. Maria não capta o significado pleno dos eventos, porém, rumina-os no seu íntimo. A ideia volta de novo em Lc 2,51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou, e que todos nós, que também não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que trilhar.

O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados, personificados nos pastores, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê aos oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã.

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