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Reflexão do evangelho: “Fazei tudo o que ele vos disser”

Reflexão do evangelho: “Fazei tudo o que ele vos disser”
16 de janeiro de 2019 Centro de Estudos Bíblicos
Leia o comentário do evangelho para o próximo domingo, dia de 20 de janeiro. A reflexão pertence ao biblista popular e assessor do CEBI, Ildo Bohn Gass.

Boa leitura!

O evangelho a ser refletido na liturgia do próximo final de semana é tradicionalmente conhecido como “as bodas de Caná”. Essa narrativa leva-nos a perguntar sobre o papel da religião, da vivência da aliança entre Deus e as pessoas. É função da religião ser um peso para seus fiéis e petrificar o coração humano ou é gerar novas criaturas no amor de Deus e plenamente livres?

Situando a narrativa em seu contexto

Nos evangelhos segundo Marcos e Mateus, na sua primeira exposição pública, Jesus chama à adesão ao projeto do Reino (cf. Mateus 4,17; Marcos 1,15). Em Lucas, ele anuncia a Boa Nova aos pobres (Lucas 4,18-19). Diferentemente, o evangelho do discípulo amado apresenta Jesus, realizando seu 1º sinal num casamento na aldeia de Caná da Galileia, longe do templo de Jerusalém, porém, não muito distante de Nazaré, a terra de Jesus.

Este sinal acontece imediatamente antes da apresentação de Jesus como o verdadeiro templo (João 2,13-22). É que o templo de Jerusalém, como revela a segunda tentação de Jesus no deserto (cf. Mateus 4,5-7), estava mais a serviço do prestígio de comerciantes, cambistas e autoridades religiosas, do que da geração de vida em abundância (João 10,10). Nesse sentido, o sinal de Caná apresenta Deus estabelecendo em Jesus a nova aliança em substituição ao templo que aprisionou a antiga aliança através do ritualismo e da lei, abafando nela a sua função de estar a serviço do Deus da Páscoa libertadora desde o êxodo.

Assim como o temos hoje, o texto é catequese para as comunidades na virada do primeiro para o segundo século nas origens cristãs. Portanto, além de refletir sobre Jesus de Nazaré, o texto carrega também a experiência de algumas décadas com Jesus ressuscitado na vida das comunidades. No entanto, é uma experiência que parte da vida de Jesus. Por isso, na origem desse relato, está a prática libertadora de Jesus de Nazaré. Entre outras intenções, a narrativa coloca frente a frente dois projetos. Um é o do ritualismo legalista promovido pelo templo e que abafou o sentido mais profundo da primeira aliança, isto é, a vida, a liberdade e o amor. O outro projeto é vivido por Jesus e sua comunidade, resgatando esse sentido da aliança, promovendo a vida cidadã e o amor fiel.

De corações empedernidos…

No relato das bodas de Caná, há vários elementos que revelam a antiga aliança, que foi aprisionada pela religião oficial, ainda mais que, naquele momento, os sumos sacerdotes estavam a serviço do império, uma vez que eram indicados pelos interventores de Roma. Este projeto é como barril velho em que não cabe mais a novidade de Jesus, o vinho novo (cf. Marcos 2,22).

  1. “Houve um casamento”

A primeira referência é a metáfora do casamento. Em Israel, o casamento, desde o casal de profetas Gomer e Oseias, é uma imagem da aliança de Deus com o seu povo (cf. Oseias 1,1.3; 2,19-22). Deus é o marido, o amado-amante, e o povo é a mulher, a amada-amante. Ele ama e é amado. Ela é amada e também ama. Portanto, a narrativa nos conduz ao coração da aliança amorosa e misericordiosa.

  1. “Eles não têm mais vinho”

Um segundo elemento que se refere à institucionalização da antiga aliança é a ausência de vinho. “Eles não têm mais vinho”. O vinho é sinal do amor entre o amado e a amada (cf. Cântico dos cânticos 1,2.4; 4,10; 5,1; 7,9; 8,2). O amor, representado pelo vinho, e que a aliança deveria revelar, já não existe mais. A partir do ritualismo no templo e da observância rigorosa da lei, as estruturas mataram o amor, o petrificaram. Aqui, “eles” é uma referência às autoridades religiosas que transformaram a lei, que deveria gerar vida e liberdade no amor, em um ritualismo vazio de água, vazio de vida e de sentido, em um peso que deixa o povo encurvado (cf. Lucas 13,10-17).

  1. “Havia ali seis talhas de pedra”

Um terceiro elemento, que revela uma religião que entorta as pessoas em vez de erguê-las e dar-lhes dignidade, é a referência aos tanques. “Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, cada uma contendo mais ou menos cem litros”. O simbolismo é muito forte. As talhas representam a prática oficial da religião de Jesus, pois serviam para a “purificação dos judeus”. São seis justamente para mostrar a diferença em relação aos sete dias da criação, quando Deus viu que tudo era muito bom. Seis revela incompletude, imperfeição. Ainda não chegou a sete, à vida em abundância.

Nas talhas, não há água. O ritualismo vazio de sentido e de amor transforma qualquer religião em pedra. Eram “seis talhas de pedra”. E uma religião empedernida petrifica também os corações dos seus fiéis em vez de torná-los sempre mais humanos, mais carne, na linguagem do profeta Ezequiel. “Tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ezequiel 36,26). Além de a antiga aliança ter sido esvaziada do amor de Deus, além de ter se tornado pedra, ela é muito pesada, pois em cada talha cabiam em torno de cem litros. Assim, sufocava as pessoas e toda a comunidade. Engessava-a com seu ritualismo desligado da vida e com suas normas mais voltadas para o moralismo individualista, promovendo preconceitos, discriminação e intolerância. Numa instituição que endurece corações, até é possível encontrar água. Porém, não é mais possível encontrar amor, simbolizado pelo vinho. O vinho aparece somente fora das talhas e não dentro delas. Na verdade, aparece em Jesus de Nazaré que é a sétima talha plena do amor de Deus.

  1. A bronca do mestre-sala

Por fim, mais um elemento da narrativa representa o projeto do sistema que manipulou a antiga aliança, transformando a verdade em mentira. É o mestre-sala. Ele é o representante da instituição que não contém mais vinho, isto é, o amor e a verdade. Ele transformou a antiga aliança, que deveria gerar vida, em uma estrutura a petrificar as mentes e os corações de seus seguidores, que replicam as mentiras do mestre. Ele não está aberto para a nova aliança, para a novidade da verdade e do amor de Deus vivido por Jesus em sua plenitude. Ele não aceita a novidade. A doutrina e o rito lhe bastam. Por isso, ele recusa a novidade da nova aliança.

 

De corações empedernidos a corações recriados…

Se, nesta narrativa, temos várias imagens que nos remetem à institucionalização da antiga aliança, temos também vários sinais que apontam para a nova aliança. Este é o projeto de vida, representado pelo vinho e que requer novas relações, livres do velho barril do medo e da intolerância, das estruturas vazias de amor, porém, cheias de ódio e violência.

  1. A referência ao “terceiro dia” indica para duas novidades

A primeira é para a criação da vida em sete dias (Gênesis 1,1–2,4a). Convém notar que, neste evangelho, o 1º sinal acontece no sétimo dia. Tendo presente as informações de João 1,29.35.43 e 2,1, as bodas em Caná da Galileia acontecem justamente no sétimo dia da criação, o sábado. Com isso, as autoras deste evangelho nos apresentam Jesus como aquele que vem nos humanizar, vem fazer de nós criaturas novas, com base no vinho da verdade e do amor e não mais nas talhas da lei, cuja letra obscurece o amor. Paulo formularia assim este novo jeito de ser: “Se alguém está em Cristo é nova criatura” (2 Coríntios 5,17).

A segunda novidade é que o terceiro dia lembra a vida nova de Jesus no terceiro dia depois da cruz. É a vida em plenitude que derrota as forças de morte e diz sim à vida. A vida ressurge no jardim e recria o novo homem ressurgido da morte, a fim de que participemos de sua vida pelo batismo como pessoas recriadas, como novas criaturas conduzidas pelo amor. Que vivamos, já agora, como pessoas ressuscitadas.

  1. “A mãe de Jesus está lá”

Um segundo sinal é a presença da mãe de Jesus nesse casamento. Como já vimos, a celebração do casamento em Caná revela duas alianças. A primeira é a aliança “deles”, dos judeus. Neste evangelho, os “judeus” são as autoridades judaicas que, por não terem mais “vinho”, perseguiram Jesus. É interessante perceber que a mãe de Jesus estava com um pé nesta aliança. Ela “estava lá”.

No entanto, ela também estava com um pé no novo projeto, representando o resto fiel da antiga aliança. Ela percebeu a falta de vinho. Buscava o sentido que a religião petrificada havia matado na antiga aliança. Se, aqui, Maria desempenha o papel do resto fiel na antiga aliança, em Lucas esse resto fiel, que espera o novo, é representado por pessoas idosas e uma virgem: Maria, Isabel e Zacarias, Ana e Simeão (Lucas 1-2). De pessoas assim não se espera vida nova e, no entanto, é ali que ela renasce. E hoje, onde é possível o novo? Não é justamente naqueles que nada valem para a grande mídia, para o capital e para quem se acha salvador do Brasil?

Se o mediador da antiga aliança no Sinai foi o homem Moisés, agora, na nova aliança, quem faz a mediação é uma mulher. No texto, ela não tem nome. É que ela é mais que a mãe de Jesus. Representa também a comunidade da nova aliança. Nesse sentido, é a esposa nesse casamento. Jesus é o marido dessa aliança. E mais. A mãe de Jesus, por ser a noiva da nova aliança, é a amada que segue no amor o seu amado, tal como os jovens enamorados do livro de Cântico dos Cânticos.

  1. “Houve um casamento em Caná da Galileia”

Um terceiro elemento é o nome do lugar. Não é por acaso que as comunidades joaninas escolheram Caná como nome para o lugar da festa do casamento. É que Caná significa adquirir. Naquela sociedade patriarcal, o noivo adquiria a sua noiva, que passava a pertencer a ele. Da mesma forma, Jesus adquiriu para si as comunidades que fazem tudo o que ele disse. As comunidades fiéis ao seu amor pertencem a Jesus e por ele se tornam a nova criação gerando, promovendo e defendendo a vida.

É ainda importante lembrar que o povoado de Caná estava situado na parte montanhosa da Galileia, região conhecida por abrigar rebeldes contra o regime que dominava Jerusalém e compactuava com o império romano. É significativo que, de acordo com este evangelho, Jesus inicie ali sua atividade pública, como que anunciando seu programa de ação: foi o primeiro dos sinais. Não por menos, logo depois de mudar água em vinho, denunciando que a antiga aliança caducou, Jesus vai a Jerusalém denunciar que o templo também não responde mais aos desejos de Deus e do povo (João 2,13-22). Assim como Moisés realizara “sinais e prodígios” em nome de Deus diante do faraó (Êxodo 7,3), Jesus é o novo Moisés que vem trazer a libertação para o povo.

  1. “Jesus foi convidado com seus discípulos”

Uma quarta questão é que, diferente de sua mãe que estava lá, Jesus com os discípulos não estavam lá. Foram “covidados”, vieram de fora. Como judeu, Jesus entrou na história de seu povo. Mas deixou claro que não está comprometido com a instituição petrificada que fez da lei um peso para o povo. Por isso, quando sua mãe percebeu a falta de vinho na antiga aliança, diz que ela e Jesus não têm mais nada a ver com aquela aliança. “Que tenho eu e tu com isso?” (João 2,4). Em outras palavras, Jesus diz que ele e o resto fiel da antiga aliança não têm nada a ver com o ritualismo que não promove mais verdade, amor e vida. Maria, a parte fiel da antiga aliança e as comunidades, é a esposa da nova aliança. E Jesus é o esposo. É por isso que ele a chama de “mulher”. Nenhum filho chamava a mãe de “mulher”. Nenhum pai denominava sua filha de “mulher”. Somente os maridos assim se dirigiam a suas esposas.

  1. “Os servidores haviam tirado água”

Um quinto elemento é que a água se transforma em vinho fora dos tanques. As estruturas envelhecidas não permitem mais a mudança. Ao contrário, dificultam-na e até a impedem, perseguindo quem busca o novo. A novidade, a mudança está lá onde estão os serventes, os diáconos da festa, lá junto aos que, muitas vezes, não são percebidos nos banquetes. Nem lhes é permitido comer as migalhas que caem das mesas que eles mesmos servem. Ali, junto às pessoas excluídas, Jesus revelou o amor de Deus. Tal como na aliança do passado, quando Deus se aliara a pessoas escravas do faraó, agora libertas, da mesma forma, na fidelidade de Jesus, mais uma vez Deus revela a sua glória, o seu amor pleno a toda a humanidade, e preferencialmente aos pequeninos. “Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha, porque o remendo novo tira parte da veste velha, e o rasgo fica maior. Ninguém põe vinho novo em barris velhos. Do contrário, o vinho romperá os barris e se perde tanto o vinho como os barris. Põe-se vinho novo em barris novos” (Marcos 2,21-22). Hoje, como devem ser os “barris novos” das comunidades da base, para que sejam “vinho novo” de uma nova igreja e de uma sociedade transformada?

  1. “Manifestou a sua glória”

Por fim, a nova aliança em Jesus de Nazaré manifesta a “glória”, isto é, a presença plena do amor de Deus. Em Jesus, Deus se tornou palpável. Porém, o ponto alto do amor fiel de Deus foi revelado na fidelidade de Jesus até a cruz. Por isso, nas bodas de Caná, a sua “hora ainda não chegara”. Virá mais tarde, na cruz imposta pelos “príncipes deste mundo” (cf. 1 Coríntios 2,8; João 14,30). O seu amor sem limites, a sua fidelidade aos pobres, à missão de promover a vida com dignidade revelam a glória de Deus, isto é, a sua presença amorosa em nosso meio.

 

De corações empedernidos a corações recriados

E como nós revelamos a glória, o amor pleno de Deus em nossas vidas? Fazer parte da nova aliança, como novas criaturas, é servir como os diáconos, os servidores a quem a mãe de Jesus disse: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como ser comunidade, igreja da base, a ponto de ser fermento de uma nova sociedade?

“E seus discípulos creram nele”

Fazer tudo o que Jesus nos pediu é acreditar como os discípulos que nele creram. Acreditar é segui-lo até Cafarnaum, como fizeram sua mãe e seus discípulos. Não é acomodar-se, mas seguir adiante no caminho do seguimento de Jesus (João 2,12). Não é aceitar cegamente as mentiras que circulam, mas buscar a verdade fundamentada em fatos e não em declarações sem provas. Crer é abrir-se à Palavra que se tornou humana em Jesus (João 1,14), é acolher o seu amor e corresponder com ele como pessoas recriadas no serviço à vida. Acreditar é deixar que o amor transforme as nossas vidas, tal como a água se transformou em vinho. Mais que dar a vida por Jesus, ser discípulo e discípula dele é, como ele, doar-se para que todos tenham vida, e vida em abundância.

Ildo Bohn Gass é biblista, assessor do CEBI e autor de diversos livros, dentre eles a coleção Uma Introdução à Bíblia, Quatro retratos do apóstolo Paulo e O Pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

Ilustração de capa: The Wedding at Cana by JESUS MAFA