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Reflexão do Evangelho: À beira do poço do bem viver

Reflexão do Evangelho: À beira do poço do bem viver
12 de março de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 4,1-42, texto de Edmilson Schinelo.

Boa leitura!

Extraído do livro: A Comunidade do Discípulo Amado e o Jardim do Bem Viver de Edmilson SCHINELO.

Em tempos de crescimento de fundamentalismo e intolerância, de aumento de casos de homofobia e de xenofobia, o texto do encontro entre a Samaritana e Jesus se constitui numa boa oportunidade de conversa. Não existe Bem Viver sem respeito às diferenças. Mais do que isso, para que o Bem Viver aconteça, faz-se necessário ir ao encontro, mergulhar na outra pessoa e na outra cultura. A sociedade atual é cada vez mais plural e isso é possibilidade de enriquecimento. Sentemos à beira do poço para uma conversa em torno desse assunto.

Nossa tendência em ler o texto a partir de uma perspectiva unicamente cristocêntrica nos faz esquecer aspectos importantes: o encontro se dá na terra da mulher, a Samaria. O estrangeiro e diferente na história é Jesus. É ele que, exausto, no calor do meio-dia, sente fome e sede (Jo 4,6). Ele sequer tem um balde e, por causa da profundidade do poço (Jo 4,11), necessita da ajuda da mulher: Dá-me de beber (Jo 4,7). A arrogância e prepotência de correntes de um judaísmo excludente são colocadas em cheque: todo mundo precisa de ajuda!

A rivalidade entre pessoas judias e samaritanas era antiga. Remanescentes de um processo de colonização promovido pela dominação assíria, que trazia pessoas de outras regiões e as misturava com os habitantes locais, os samaritanos conseguiram, inclusive, preservar maior pluralidade de cultos (2Rs 17,24-41). Mas tal miscigenação gerou reações de desprezo e rivalidades entre aquelas pessoas que se consideram “legítimos filhos de Israel” e aquelas que são “misturadas” (Esd 4,1-5). Alguns séculos depois, os samaritanos construíram para si um templo no Monte Garizim, o mesmo citado pela Samaritana (Jo 4,20). Alguns judeus, liderados por João Hircano, destruíram o templo samaritano, alegando que o único lugar de adoração era Jerusalém. O livro do Eclesiástico (Sirácida) se refere aos samaritanos como um “povo estúpido que mora em Siquém, que nem sequer é nação” (Eclo 50,25-26). Lideranças judaicas, quando quiseram acusar Jesus, fizeram uso de seu preconceito: Não dizíamos com razão que és samaritano e que tens um demônio? (Jo 8,48).

Não é assim que ainda pensam muitos cristãos, católicos e evangélicos, ao se referirem, por exemplo, a pessoas adeptas aos cultos de matriz africana? Não é também essa postura da grande mídia (dominada por pessoas que se dizem cristãs), quando fala dos muçulmanos, automaticamente rotulados de terroristas? E quantas vezes, católicos e evangélicos continuam se tratando dessa forma! Qual tem sido a postura de boa parte das instituições e das pessoas em relação à convivência homoafetiva? Com certeza, não se constrói o Bem Viver com tanta discriminação e preconceito.

O fato de Jesus passar pela Samaria já diz muito. Muitos judeus faziam outro caminho para não pôr os pés na terra desta gente. A iniciativa de entrar em espaço estrangeiro, de se tornar estrangeiro, mostra uma tentativa de abertura, de superação do preconceito: desejo de aprender com o diferente. Nota-se esta postura tanto em Jesus como na Samaritana, cujo nome, infelizmente não nos foi preservado. De qualquer forma, ela matou a sede de Jesus. Ambos tinham desejos de matar também outras sedes.

O texto poderia ter nos contado que, antes de seguirem conversa, a mulher lhe ofereceu água fresca e reconfortante. Agora refeito, Jesus pode seguir no diálogo, tenso em vários momentos. Mas é tentativa de acerto, de compreensão recíproca, de acolhida do diferente.