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Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador

Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador
21 de outubro de 2019 CEBI Secretaria de Publicações
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Leia a reflexão do evangelho para o próximo domingo sobre Lucas 18,9-14. O comentário é de Tomaz Hughes.

Boa leitura!

O tema da oração continua no trecho de hoje – Jesus mostra que não basta somente rezar, pois muito depende das nossas atitudes enquanto rezamos. Por isso, ele nos conta mais uma parábola que só Lucas relata – a do “Fariseu e do Publicano”.

Para entender bem esta passagem, é imprescindível que nós entendamos o significado dos termos “Fariseu” e “Publicano”. Os fariseus formavam um partido religioso-político, nascido dos “fiéis observadores da Lei”, ou “Hasidim” dos tempos da revolução dos Macabeus. Eles romperam com as ambições políticas dos Hasmoneus (dinastia dos Macabeus) e formaram o seu grupo dos “separados”, que parece ser o sentido da palavra “Fariseu”. Eles primaram pela observância rigorosa da Lei, embora entre eles existissem diversas escolas de interpretação.

Em nossa linguagem, a palavra “fariseu” normalmente significa “hipócrita” – uma injustiça aos fariseus, que eram, na maioria absoluta, gente sincera de uma ascese rigorosa em busca da fidelidade à Lei de Deus. Provavelmente estamos muito influenciados pelo Capítulo 23 de Mateus, uma das páginas mais virulentas do Novo Testamento, que reflete mais a situação de perseguição dos cristãos pelos fariseus pelo ano 85, do que a situação no tempo de Jesus. A grande crítica de Jesus contra este grupo não era por motivos de moral, mas porque, confiando na observação externa da Lei como garantia de salvação, tiraram a gratuidade de Deus, que nos salva “de graça”.

Enquanto os fariseus gozavam de enorme prestígio diante do povo no tempo de Jesus, do outro lado um dos grupos mais odiados e desprezados era o dos “cobradores de impostos”, ou “publicanos” (assim chamados porque cobravam um imposto denominado “publicum”, um tipo de ICMS). Esse ódio não nasceu simplesmente da resistência natural do povo contra a cobrança de impostos e taxas, mas do fato que eles trabalhavam pelo poder opressor – os Romanos, através dos seus lacaios, os Herodianos. Os publicanos estavam entre os mais “impuros”.

Como aconteceu no início do capítulo 15, aqui também Lucas destaca o motivo da parábola: “Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola” (v. 9).

É interessante verificar os dois tipos de oração! O Fariseu elenca todas as suas observâncias, tudo que ele faz, conforme manda o a Lei! Ele não mente – ele faz isso mesmo. Só que ele confia absolutamente no poder da sua prática para garantir a salvação. Assim dispensa a graça de Deus, pois se a Lei é capaz de salvar, não precisamos da graça! Ainda se dá o luxo de desprezar os que não viviam como ele – ou porque não queriam, ou porque não conseguiam: “Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos.” (v. 11)

O publicano também não mente quando reza! Longe do altar, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito em sinal de arrependimento de dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador” (v. 13). E era a verdade – ele era vigarista, ladrão opressor do seu povo, traidor da sua raça – mas ele tem consciência disso, e não só disso, mas do fato de que por si mesmo ele é incapaz de mudar a sua situação moral. A sua única esperança é jogar-se diante da misericórdia de Deus. Para o espanto dos seus ouvintes, Jesus afirma que o desprezado publicano voltou para a casa “justificado” (= tornado justo) por Deus, e não o outro; pois, é Deus que nos torna justos por pura gratuidade, e não em recompensa por termos observado as minúcias de uma Lei. Por isso Jesus fala algo ainda mais chocante – que o fariseu não foi “justificado”, não porque não vivesse segundo a Lei, mas porque ele confiava nos seus merecimentos e assim nem deixava espaço para a graça de Deus. De fato, dispensava a necessidade da ação gratuita do Pai.

Como entrou o farisaísmo de cheio nas nossas tradições de espiritualidade! Como as nossas pregações reduziam a fé e o seguimento de Jesus a uma observância externa de uma lista de Leis! Como reduzimos Deus a um mero “banqueiro” que no fim da vida faz as contas e nos dá o que nós “merecemos”, de acordo com uma teologia de retribuição! Quem tem conta em haver com Ele, ganhará o céu, e quem estiver em dívida, irá para o inferno! Onde fica a graça de Deus, e a cruz de Cristo? Paulo mudou de vida quando descobriu que a Lei, por tão importante que fosse como “pedagogo”, não era capaz de salvar, mas que é Deus que nos salva, sem mérito algum nosso, através de Jesus Cristo! Com esta descoberta, se libertou! Defendia este seu “evangelho”, conforme Gálatas 1, a ferro e fogo!

O texto de hoje nos convida para que examinemos até que ponto deixamos o farisaísmo entrar em nossa vida; até que ponto confiamos em nós mesmos como agentes da nossa salvação; até que ponto nos damos o direito de julgar os outros, conforme os nossos critérios. Uma advertência saudável e oportuna que alerta contra uma mentalidade “elitista” e “excludente”, que pode insinuar-se na nossa espiritualidade, como fez na dos fariseus, sem que tomemos consciência disso!

Partilhado pelo autor com o CEBI.

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