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Para Que e Para Quem Servem as Pesquisas Acadêmicas sobre as Favelas?– Uma Nova Epistemologia é Possível!

Para Que e Para Quem Servem as Pesquisas Acadêmicas sobre as Favelas?– Uma Nova Epistemologia é Possível!
22 de março de 2017 Centro de Estudos Bíblicos

Anterior ao debate das pesquisas Acadêmicas sobre Favelas que tem objetivo compreender como as relações entre pesquisadores e favelados vem se desenvolvendo, se faz necessário fazermos uma reflexão a partir de uma afirmação: a Universidade, é, no sentido mais nobre do termo, um espaço da elite, um espaço construtor e mantenedor de privilégios de uma parcela da sociedade, tanto do ponto de vista intelectual, isto é, da produção, preservação e difusão do saber que domina o campo intelectual, político e cultural a cada momento, quanto do ponto de vista social, já que é um espaço no qual circulam e convivem os filhos das elites político e econômica brasileira onde estes também são socializados em um modo particular e hierárquico de ser.

Dito isso, um mergulho breve no histórico da relação entre pesquisadores e pesquisados pode permear e problematizar essa afirmação anterior. Desde o tempo do imperialismo e das colônias Universidades no mundo todo tiveram, e ainda tem, um papel fundamental na difusão de uma forma de produzir conhecimento Eurocêntrica. O campo da Antropologia moderna, por exemplo, surgiu numa divisão de trabalho entre as ciências sociais, especializando-se na análise, descrição e classificação de grupos sociais frequentemente tidos como primitivos, atrasados, marginais, tribais, subdesenvolvidos ou pré-modernos, definidos por sua exterioridade e alteridade em relação ao mundo ocidental, ele próprio definido por ser civilizado, ou pela sua ciência e pela técnica.

Nesse contexto, os trabalhos de muitos antropólogos e as formas com que estes trabalhos foram escritos e difundidos foram fundamentais para o desenvolvimento do processo de colonização (Achebe, 1975; Asad, 1973). Mais recentemente, muitos trabalhos de cientistas sociais ainda contribuem para a manutenção de hierarquias sociais, que foram produzidas ou intensificadas no período da colonização, com seus engajamentos em programas de desenvolvimento mundial (Ferguson, 1994; 1997) baseados em modelos construídos em países considerados desenvolvidos como a Inglaterra, Estados Unidos e outros.

No entanto, diversas cientistas sociais também vem lutando a muito tempo dentro do espaço acadêmico pela descolonização da Universidade. Ao longo dos anos 80, críticas feministas e pós-coloniais vieram a desconstruir o mito da objetividade dentro das ciências sociais (Abu–Lughod, 1990) e problematizar o papel do subalterno dentro dessas pesquisas (Spivak, 1988). Outras criticas, também refletiram sobre o fato de que muitas pesquisas acabam vampirizando os saberes e vidas sociais das pessoas que são pesquisadas sem dar nenhum retorno aos mesmos (Couture, 2011), retorno esse tanto material ou até mesmo crédito intelectual por suas sofisticadas formas de ser e elaboradas teorias de vida. Apesar dessas importantes reflexões, e de hoje em dia diversos grupos de pessoas se utilizarem da antropologia ou outras ciências sociais como forma de produzir conhecimento para resistir às opressões (como um movimento de antropólogas negras e feministas), governos do mundo todo continuam se utilizando de diversos tipos de cientistas sociais para que estes produzam conhecimento sobre populações que estes governos querem dominar.

Um exemplo importante deste processo são os Estados Unidos, que como suas campanhas militares têm contratado uma grande parcela de acadêmicos formados em suas universidades para que estes produzam informações sobre populações em áreas onde intervenções militares irão ou já estão acontecendo, como no caso de campanhas de contrainsurgência no Iraque e Afeganistão (McFate, 2005; Kelly et al, 2010).

A partir deste ponto, vale questionar se programas do Estado Brasileiro como a UPP (Militar e Social) e o PAC, que vem empregando diversos pesquisadores (tanto de classe média, como moradores de favelas) para levantar dados com o objetivo de melhor compreender espaços geográficos, dinâmicas locais, relações de poder e estratégias de sobrevivência, utilizam esses dados para fins militares que possam fazer parte de uma nova etapa em um processo de colonização interna dessas populações? (Colonização e colonialismo aqui visto em relação ao “cólon” como um processo de digestão, de ser consumido, a onde as elites continuamente tentam consumir o que interessa de diversas outras populações ao mesmo tempo que descartam de diversas formas o que não as interessa – Winona LaDuke em Schmidt, 2008)

Tendo por base estas questões, propomos uma reflexão em conjunto sobre a relação entre os pesquisadores acadêmicos e as pessoas que colaboram ativamente para a construção dessas pesquisas. Um ponto inicial de debate é a questão de como esses participantes são vistos e tratados muitas vezes como meros informantes. Essa questão é de suma importância já que filósofos e pesquisadores já alertaram que as massas não necessitam de especialistas para saber; elas sabem perfeitamente sobre suas condições de vida (Foucault & Deleuze, 1972).

Mas dentro do processo acadêmico, muitas das vezes essas pessoas passam pela experiência desse sistema de conhecimento/poder que barra, proíbe e invalida certos saberes e priorizam outros. Esse sistema de conhecimento/poder não age somente nas instâncias superiores da censura, mas acaba por penetrar muito profundamente e com sutileza em toda a trama da sociedade, produzindo formas de pensar e ser, como, por exemplo, em demonstrações de racismo que tendem a privilegiar a filosofia grega em relação a africana. Neste sentido, os próprios pesquisadores fazem parte deste sistema de conhecimento/poder e muitas das vezes agem para a sua reprodução. Considerando isso, essa proposição tem como objetivo fomentar uma discussão sobre as práticas acadêmicas atuais e formas de engajamento entre pesquisadores e colaboradores de pesquisas.

Não seria também parte do trabalho do pesquisador lutar contra essas configurações de conhecimento/poder ao lado dos colaboradores de pesquisas e populações oprimidas? Lutas essas tanto no campo das ideias como em ações diretas? Não seria a hora de quebrarmos certos dualismos como divisões entre teoria/prática e conhecimento científico / conhecimento popular? Não é chegada a hora de pensarmos que parte da luta não é para se obter uma consciência plena ou objetiva, pois vemos que as favelas e favelados tem uma diversidade extremamente rica de formas de conhecimento?

Em nossas discussões suscitada a partir dos eventos “Pra Que e Pra Quem Serve as Pesquisas sobre Favelas”, a disputa epistemológica vem sendo colocada como central para pautarmos que as favelas e seu povo preto majoritário são construtores de epistemologias pautadas na ancestralidade, vivência e experiências comunitárias.

Vale salientar que a leitura de Frantz Fanon e seu clássico Pele Negra, Máscaras Brancas (1952) é fundamental nesta (RE)construção. Um pouco de História: nos anos 60 e 70 Fanon era proibido nas academias norte-americanas, e o professor universitário que tentasse falar nessa epistemologia perdia seu emprego. Ao mesmo tempo na América do Sul, ele era lido nas salas de aula do Chile, influenciava Paulo Freire na sua Pedagogia do Oprimido no Brasil e na década de 1990, Fanon era estudado em cursos como Teologia, Política, Filosofia da Libertação e Pensamento Social e Político. Essa informação demonstra que atualmente, estudiosos do mundo começam a compreender a relação entre Fanon e outros intelectuais brasileiros como Guerreiro Ramos e Abdias do Nascimento, e, por consequência, a entender que essa epistemologia que falamos sempre existiu, mas foi historicamente censurada pela academia judaico-cristã branca ocidental como forma de manutenção de hierarquias e privilégios.

O que queremos é mobilizar e fazer uma convocação intelectual e militante para descolonizarmos o conhecimento que é refletido na Universidade como uma instituição social. Fanon nos dizia que precisamos criticar a epistemologia branca Eurocêntrica que nos colocava na condição de sujeitos coisificados pela ciência, para nos afirmarmos como sujeitos produtores de conhecimento, reivindicando representação acadêmica para a descolonização. Recentemente, influenciado por protestos estudantis na África do Sul, Mbembe (2016) publicou uma importante contribuição para o movimento de descolonização das Universidades, onde ele sugere a necessidade de democratizar a instituição da Universidade em si.

Isso significa democratizar o acesso as Universidades, a reorganização do currículo e bibliografias, as construções arquitetônicas em si, as dinâmicas nas salas de aula (como o encorajamento aos estudantes a livre busca do conhecimento e as relações professores e estudantes), a estrutura organizativa da instituição, a mania de avaliações tanto de estudantes como de professores e trabalhadores da Universidade, e o fato de que estudantes não são consumidores (dada a atual expansão e aprofundamento do capitalismo nas Universidades a partir de suas privatizações, aumento das mensalidades, e sua lógica mercadológica onde estudantes não privilegiados tendem a priorizar estudos que possam lhes inserir no mercado de trabalho, ao invés de explorar seus desejos, interesses e potenciais criativos mais intensos).

O que estamos tentando produzir e potencializar a partir do pensamento de Fanon, Mbembe e outras autoras e autores é construir uma nova universidade, transformada amplamente do ponto de vista institucional e epistemológico, fazendo ruir as estruturas epistemológicas impostas pelo racismo e pelo colonialismo, com objetivo de abertura de um espaço para articulação sistemática de distintas formas de conhecimento, ou seja, demandando a descolonização epistêmica do conhecimento acadêmico.

Para isso, pensamos que seja fundamental uma reorganização dos currículos nas instituições de ensino que se baseiam em modelos Eurocêntricos. Mas isso não significa apenas trocar autores brancos por autoras negras, negros e indígenas (não-brancos de uma forma geral), mas promover a possibilidade para que estudantes possam escolher se querem mudar a centralidade de seus estudos e com isso promover novas competências sociais, éticas, politicas e técnicas a partir dessa nova centralidade.

Isso significa liberar estudantes para que possam se ver, se conhecer, e conhecer as suas condições de vida a partir dos seus próprios olhos e vivências ao mesmo tempo em que essa própria compreensão entra em relação com outras formas de conhecimento. Aqui, a questão da relacionalidade dentro de uma possível nova centralidade se torna importante para que uma diversidade epistemológica seja alcançada na Universidade. Como Essop (2016) sugere, isso é fundamental para que não caiamos em um essencialismo racial e possamos entender culturas não-brancas como dinâmicas e complexas e não estáticas e paradas no tempo (como são representadas no modelo Eurocêntrico de ensino).

Uma utopia que se coloca é pensarmos em Pluriversidades Indisciplinares Populares, ou Pluriversidades dos Movimentos Sociais. Em uma Pluriversidade Indisciplinar, poderíamos explorar formas de Conhecimento/Poder/Aprendizado que incentivassem o encontro de uma diversidade de epistemologias e formas de se produzir conhecimento sem ficarmos presos às caixas e disciplinas Eurocêntricas.

Isso já vem se materializando no Brasil com o processo de criação de áreas de estudos étnicos, diversos experimentos educacionais em favelas do Rio (como o nosso próprio encontro Pra Que e pra Quem Serve as Pesquisas sobre Favelas?, a Iniciativa Agentes Pesquisadores de Favelas) e outras como a Universidade do MST. A atenção que talvez tenhamos que ter é de não deixarmos os privilegiados, a partir do próprio reconhecimento desse privilégio, e seu modelo Eurocêntrico de ensino, se apropriarem desses espaços em mais um processo de captura.

Autores

Fransérgio Goulart: Historiador, Assessor Político do Centro dos Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, Militante do Fórum Social de Manguinhos e do Movimento de Favelas, Apoiador dos movimentos: Mães de Maio, Mães de Manguinhos e Rede de Comunidades e Movimento Contra à Violência e Especialista em Políticas Públicas de Juventudes

Rodrigo Calvet: Doutorando em Antropologia Social (Antropologia de Espaços Urbanos com foco em Subjetividades) pela Universidade de Manchester e apoiador dos movimentos: Mães de Manguinhos , Rede de Comunidades e Movimento contra à Violência e Fórum de Juventudes RJ

Fonte: Texto publicado em em www.canalibase.org.br, 21/03/2017.