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CEBI-CE: Seminário com Ivone Gebara

CEBI-CE: Seminário com Ivone Gebara
28 de junho de 2017 CEBI Comunicação

Uma realização do Grupo AGAR, CEBI-CE.

Tema do encontro: “O CONSERVADORISMO CRECE ASSUSTADORAMENTE, O QUE FAZER? Avanços – Resistências – Lutas. Protagonismo x Banalização da Mulher

O grupo AGAR abriu o Seminário com uma pequena homenagem à Ivone, deu as boas vindas e o agradecimento pela presença. Foi feita uma pequena apresentação de sua pessoa e foi passada a palavra para ela.

O Seminário realizou-se na Igreja Betesda, local oferecido pelo Pastor Mardes*, nos dias 10 e 11 de junho de 2017 com a participação de aproximadamente 300 pessoas.

Ouvir Ivone

Ivone soube, com sua simplicidade e sabedoria, colocar-nos dentro do tema fazendo-nos despertar e perceber de maneira mais concreta o momento que estamos passando respirando e vivenciando: um conservadorismo acerbado e um individualismo exagerado. Problematizou a questão da liberdade mostrando que ela não existe em si, mas em suas diversas concepções, e que o fundamentalismo pode estar presente em todas as pessoas.

Isso é resultado do medo, da raiva e do ódio propagado pelas instituições decorrentes do mundo capitalista. E as Igrejas não estão fora dele. Somos escravas/os dessa organização capitalista.  Este mundo em certos aspectos chega a dar segurança (cartão de crédito, telefones, etc), mas tudo tem um tom de paranoia (exposição de dados, visibilidade, popularidade, ilusão da bolha nas redes sociais)….

Temos medo da liberdade, mas na realidade temos medo da servidão, escravidão, da dominação, da falta da liberdade. A liberdade tem uma posição política. A Rede Globo, enquanto principal empresa midiática do país, não nos dá a liberdade. Em todas as religiões há uma busca do espaço de liberdade. Nós somos chamadas/dos à liberdade, a construir espaços de liberdade para todas as pessoas e grupos oprimidos.

Mas o chamado não é ouvido por nós….

Será que existe um modelo de liberdade? Não. “Não construa para você um ídolo”. “Não chameis a ninguém de Senhor, Senhora”. A liberdade não é nenhuma aquisição outorgada pelo Estado. “Não posso abrir mão da minha Ruah”. Salientou que há uma mistura em nós de medo e raiva e que somos educadas/os com preconceito. E disse que esta unidade é tremendamente problemática. Sugeriu ler os textos de Judith Vateler.

Na parte da tarde, Ivone abordou a questão da ordem, das instituições. As instituições reavivam o passado. Do ponto de vista teológico as razões não se sustentam mais. Toda ordem mundial está sendo questionada. O dogmatismo atual não aceita novas teorias. O feminismo busca a liberdade, mas as falas teológicas é a fala que os homens fazem: o conservadorismo religioso, resgate da tradição.

Nos chamam de depredadoras da unidade da Igreja. A ordem estabelecida passa a ser tirana e para se manter cria seus inimigos. (Lembrou a “santa inquisição”).

Ordem x Tirania;
Dogma x Heresia.

Ambas veem do grego: dogma (doquel, significa ensinar aquilo que crer que é verdade), heresia (aires: escolha, opção). Os feminismos são heresias. A Teologia feminista é uma heresia porque ela se abre a ver outra opção, as escolhas. Estamos numa “babel” tentando escutar as línguas diferentes. A Igreja ensina aquilo que se deve crer. Maria é um símbolo construído pelos homens. Constroem uma Maria submissa… A hierarquia se apoderou dos bens da comunidade.

Muitas heresias se tornaram dogmas.

O bem pode ser extremamente opressivo – ideologia da igualdade. O feminismo não criou o gênero. A ideologia de gênero foram os homens que criaram no sentido negativo. Essa expressão não é feminista. Gênero é a construção da nossa ideologia.

Terminou este dia com o questionamento/afirmação: quais são os espaços solidários?

No dia 11, iniciaram a manhã com um jogral sobre a realidade da mulher. Esse momento de começar o dia, também teve apresentação com a dança do canto de Ana.

Fotos da atividade com Ivone Gebara no CEBI-CE.

Ivone voltou a fala do evento, dizendo que nós mulheres somos heréticas. Que existe uma interdependência nas relações humanas, nos poderes: cultural, religioso e científico e através destas relações e poderes acontece a vitimização da mulher. A produção literária, livros das mulheres era uma raridade. Só no século dezoito se expandiu mais.

Estatísticas mostram que a violência contra a mulher aumentou. O que identifica a imagem da mulher para a sociedade é a de Mãe, mulher que serve, que vive para os outros. A força da mãe sobre os filhos, a heroína.

Nós também somos produtoras de violência conosco mesmas. Existe os guetos de poder entre as mulheres e os homens: Mulher: poder da casa, Homem: poder fora de casa. Geralmente os filhos têm raiva do poder da mãe “sou eu que dá a vida a vocês”. Existe uma idolatria da figura da mãe, mas nenhuma concentração do poder é boa. A Religião fortalece a submissão das mulheres. Excesso de vitimização contra nós mesmas. Já não dá mais fazer o gueto do poder, o poder está na ordem estabelecida.

O caminho da Teologia Feminista

O feminismo está em evolução. As mulheres acordam para a situação do mundo e delas mesmas. Primeiramente, os feminismos rompem as ordens estabelecidas. Ela tocou a teologia. As Igrejas cristãs têm uma imagem de Deus. Creem no Senhor, Deus todo poderoso. As teólogas feministas rompem esta imagem.

Feministas denunciam o totalitarismo de Deus em todos os aspectos. Diminui os privilégios masculinos. A teologia afirma a interdependência dos corpos. Dependemos uns dos outros. Segundo, o feminismo toca na dogmática cristológica. Quer resgatar a centralidade de todas as relações. As cristologias somos nós no processo de libertação uns dos outros. Terceiro, não pretende acabar com as outras teologias e não tem pretensão universalista. Quarto ponto é que vivemos emoções teológicas. Um momento confuso: idolatria da autoridade nas religiões x rejeição da autoridade nas religiões.

O feminismo é contra a um pensamento único. Compartilhamos uma tradição religiosa. Ninguém é proprietário da pessoa de Jesus. O livro do Levítico não é mais normativo. A Bíblia é uma fonte, não a única fonte. Para Ivone é necessário pensar a partir do seu chão.

O feminismo é um grupo pequeno. Não identificar a mulher com o feminismo. Nem toda mulher deve ser feminista. Falar de feminismo não é falar de mulher. Não basta ser mulher para ser feminista. Não é a sexualidade que determina a minha ideologia.

Tem a culpabilização da própria mulher, da sociedade.
Por que tem aumentado a violência contra a mulher?

A segregação das mulheres na casa também traz poderes. As coisas estão interligadas: somos excessivamente do mundo doméstico. E aí tem poder.

Fica a pergunta – Qual o passo que você dá para mudar o sistema? Sair do excesso do individualismo…

Perguntas para meditar

E como boa filósofa que é, usou da arte de fazer pensar, deixou no ar questionamentos, especialmente para nós mulheres. Provocou o despertar para a diversidade de feminismos que existem e a necessidade de sairmos do individualismo e do estabelecido como hegemônico.

Num clima de abertura, escuta e reciprocidade as pessoas participantes do Seminário puderam usufruir desse tempo especial, alargando mente e coração para seguir em frente na luta por direito e possibilidades iguais para mulheres e homens.

Fotos da atividade com Ivone Gebara no CEBI-CE.

Houve um momento para perguntas. Várias pessoas dialogaram com Ivone para esclarecer pontos e aspectos do tema apresentado.

O Seminário foi encerrado com os agradecimentos, primeiramente à Ivone pela partilha de sua sabedoria, ao Pastor Mardes pela disponibilidade de oferecer o local, a Coordenação do CEBI-CE pelo apoio e incentivo, as Cebianas e Cebianos que e ajudaram e a todas as Pessoas que participaram e fizeram acontecer este evento.

Nota: * Situada na rua Capitão Gustavo, 3552 Joaquim Távora, Fortaleza, CE.

Fonte: CEBI-CE.